Um inferno cantado

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O Benfica-Porto da semana passada acabou de forma indesejada. O confronto com o Zenit no inferno da Luz é amanhã e todos os jornais continuam a falar do clássico: “Benfica nunca venceu o campeonato perdendo três clássicos” ou “Benfica ainda fragilizado sem Fejsa e Lisandro”. Para mim aquele assunto está encerrado. A Liga dos Campeões é uma competição totalmente diferente e há uma motivação extra e muito concreta para este jogo, e essa motivação não se abala com uma derrota. Para mim o que devia neste momento ser capa de jornais é a sanção que o Benfica poderá sofrer com o mau comportamento dos adeptos.

Escrevo este texto numa altura em que a claque do Sporting foi eleita a melhor de Portugal. Aproveito também para lhes dar os parabéns, acho que foi uma distinção merecida. Os adeptos do Benfica não são os melhores do mundo nem de Portugal. Só por sermos mais não quer dizer que sejamos melhores; aliás ainda estamos longe disso. O Benfica desde o jogo com o Atlético de Madrid que anda com a garganta apertada por causa dos seus adeptos, ou melhor, por causa de alguns dos seus adeptos que continuam, de forma teimosa, a utilizar materiais pirotécnicos e a colocar em risco o jogo, a instituição do Benfica e a vida e segurança de milhares de pessoas.

Adeptos do benfica com os cachecóis no ar no famoso inferno da luz
Troquem os petardos pelos cachecóis e façam-se ouvir;
Fonte: Facebook do Sport Lisboa e Benfica

O inferno da Luz está demasiado quente?

Ainda há duas semanas atrás fui fazer o rescaldo do jogo do Belenenses – Benfica e não queria acreditar no que estava a ver… Petardos lançados antes do jogo, junto às roulottes de alimentação, e durante o jogo; algumas vezes sem pretexto algum. O que é mais incrível é que o Presidente do Benfica já veio inúmeras vezes apelar à consciência desses adeptos e estes continuam a ignorá-lo. Para mim, estes não são adeptos. Se o fumo vermelho fica bem? Fica, sem dúvida. Mas não são instrumento imprescindível para apoiar o Benfica, de longe. Proponho o seguinte exercício: olhem para a Juve Leo durante 90 minutos e olhem para qualquer uma das claques do Benfica durante 90 minutos. Os adeptos leoninos não se calam um segundo. Já dos do Benfica não se pode dizer o mesmo. Eles também usam tochas e petardos, mas não da mesma forma, abusiva e irresponsável, que os adeptos do Benfica. Chega a atingir a falta de respeito pelo emblema que dizem defender.

Os jogadores não querem ouvir explosivos. Eles querem é ouvir os cânticos, os apelos. Querem ver tarjas que lhes dão força, querem ver os cachecóis no ar e as invocações líricas a Eusébio e Coluna. Por favor, amanhã e sempre, não utilizem nada que ponha em causa a integridade e a vida das pessoas, assim como a reputação e a instituição do Benfica. Façam da Luz um inferno sem fogo, um inferno em que quem chegue saiba qual é o maior de Portugal, um inferno audível nas sete colinas de Lisboas. Porque se não fizermos da Luz um inferno sem fogo a UEFA fará do Benfica um clube de estádio vazio e isso é imperdoável. Seria imperdoável ver um Benfica sem a força dos adeptos, sem a garra deles. Deixem os petardos em casa e tragam as músicas bem ensaiadas para que possamos mostrar aos russos que no Inferno a Ópera canta-se bem afinada.

Tomás Gomes
Tomás Gomes
O Tomás é sócio do Benfica desde os dois meses. Amante do desporto rei, o seu passatempo favorito é passar os domingos a beber imperial e a comer tremoços com o rabo enterrado no sofá enquanto vê Premier League.                                                                                                                                                 O Tomás escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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