Vocês sabem do que estou a falar

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São cada vez menos os sócios e adeptos de FC Porto e Sporting a se sentirem tranquilizados (ou anestesiados?) pela auto-desresponsabilização maquinal dos responsáveis dos seus clubes, face à dimensão das evidências que resultam em tantas derrotas e eliminações. No entanto, existem ainda muitos outros a dar seguimento, e até amplificação, a uma comparação insultuosa – e caricata (enfim, haveria tanto para adjectivar) –, entre aquilo que é hoje o futebol português, e o que se passava nas décadas de 1980 e 1990. Antes que se exprimam livremente nas caixas de comentários, permitam-me o esclarecimento: na Era dourada, a fruta, o café e o leite mencionados, oferecidos aos árbitros e seus assistentes, como pagamento dos serviços prestados dentro de campo em benefício objectivo de determinado clube, não eram, como em tempo inútil foi devidamente comprovado, produtos alimentares servidos ao pequeno-almoço, mas sim nomes de código para serviços de prostituição, dos quais os intervenientes usufruíram, de facto e recorrentemente; tal como as viagens ao Brasil, pagas pelo mesmo clube, aos mesmos destinatários ou outros, tendo em conta os mesmos princípios e objectivos – dispensando até, neste caso, qualquer uso de código secreto –, eram, de facto, viagens ao Brasil. Os nomes dos bilhetes de quem viajou e dos recibos de quem pagou estão lá, para quem os quiser ver.

Comparar isto com qualquer outra coisa – com vouchers de refeição, falando directamente –, oferecida sem códigos, à luz do dia, pública e descomplexadamente, com o cumprimento das mais elementares regras e exemplos da boa hospitalidade (tal como acontece noutros campos, em Portugal e no estrangeiro), torna-se, somente, num exercício de adulteração da própria realidade. Este caso, iniciado por Bruno de Carvalho, alimentado pela sua direcção, e espontaneamente difundido pelos adeptos rivais (desde o anónimo até ao comentador/cronista mais conceituado), prova, sobretudo, existirem ainda vastos terrenos fertéis onde determinados lideres podem plantar, com sucesso, a sua retórica populista e demagógica e mentirosa.

Sentem saudades do que havia; vêem agora o que não há? Se já não se recordam, ou não o podem sequer recordar, revejam o último FC Porto-Rio Ave. Observem Layun, imaginem-no de cabelo comprido e de calção curto, a jogar numa redoma de vidro, a distribuir pancada, a fugir ao vermelho directo (aos 44′), ao segundo amarelo (aos 47′) e, enfim, ao outro segundo amarelo (53′), perante um olhar complacente de um árbitro cansado da noite anterior, visivelmente a precisar de umas férias em local paradisíaco. No fim, o FC Porto ganhava e os seus dirigentes e treinadores reagiam com silêncio, ou com fina ironia, perante os factos apurados.

Nunca confundam o que está morto e enterrado, com aquilo que está bem vivo, saudável e feliz.

João Amaral Santos
João Amaral Santoshttp://www.bolanarede.pt
O João já nasceu apaixonado por desporto. Depois, veio a escrita – onde encontra o seu lugar feliz. Embora apaixonado por futebol, a natureza tosca dos seus pés cedo o convenceu a jogar ao teclado. Ex-jogador de andebol, é jornalista desde 2002 (de jornal e rádio) e adora (tentar) contar uma boa história envolvendo os verdadeiros protagonistas. Adora viajar, literatura e cinema. E anseia pelo regresso da Académica à 1.ª divisão..                                                                                                                                                 O João não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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