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As semanas decorrem com naturalidade fugaz. De repente, sem que tenhamos verdadeiramente consciência, dobramos a época, chegamos a Janeiro, e perto de cumpridos dois terços do campeonato entramos, definitivamente, numa fase de decisões. Comparando com anos recentes – incluídos, logicamente, como parte do actual ciclo futebolístico – as diferenças, a existirem, são poucas: Benfica e FC Porto a lutarem pelo título; Sporting precocemente afastado de todos os seus objectivos (provando-se, neste caso, que a época transacta foi muito mais excepção do que regra).

Fonte: SL Benfica
A par dos resultados, da evolução pontual e classificativa, vão surgindo, num ritmo constante, as (já) habituais – chamemos-lhes mesmo clássicas – justificações para os respectivos sucessos e insucessos. Embora com variações pontuais, conforme o momento imediatamente anterior, sabemos de antemão, como que por defeito, de quem é a culpa: a culpa é (sempre) do Benfica! Os benfiquistas, como eu, concordam com esta tese. O Benfica tem culpa de ter a melhor equipa, o melhor plantel e de praticar de longe o melhor futebol; tem culpa de ter um projecto adulto, consistente e consciente, e de possuir excelentes profissionais; tem culpa de os seus adeptos encherem, semana após semana, os estádios de Norte a Sul do país. Resumidamente: tem culpa da sua própria competência, da sua grandeza, do seu passado e do seu presente. Esta realidade reflecte-se em diversas vertentes, mas abordando, apenas, o aspecto desportivo, reflecte-se, em termos práticos, na liderança do campeonato, e nas presenças nos oitavos-de-final da Liga dos Campeões e nas meias-finais da Taça de Portugal e da Taça da Liga.
Por outro lado, discordo totalmente que o Benfica tenha qualquer responsabilidade, directa ou indirecta, na incompetência alheia. Sempre que FC Porto e Sporting sofrem um desaire – ou seja, semana sim, semana sim (pois quando não é um, é o outro) – a culpa desse mesmo desaire é imputada ao Benfica. Esta semana, foi o Sporting; para a semana, quem sabe?, poderá ser o FC Porto. A estratégia é exactamente a mesma. Octávio Machado fala pelos dois clubes; e o seu percurso assim o legitima – aborda questões internas do Benfica, contas e viagens, para concluir, como habitualmente, falando de árbitros e de arbitragens. Volta-se à questão dos vouchers, insinua-se que o Benfica corrompe, que os árbitros se deixam corromper e, sem nunca o afirmar francamente, assiste-se à ressuscitação de adágios ultrapassados, que só encaixam nas bocas de personalidades ambíguas. Tal como noutras alturas, palavras ocas, que saem impunes.
São cada vez menos os sócios e adeptos de FC Porto e Sporting a se sentirem tranquilizados (ou anestesiados?) pela auto-desresponsabilização maquinal dos responsáveis dos seus clubes, face à dimensão das evidências que resultam em tantas derrotas e eliminações. No entanto, existem ainda muitos outros a dar seguimento, e até amplificação, a uma comparação insultuosa – e caricata (enfim, haveria tanto para adjectivar) –, entre aquilo que é hoje o futebol português, e o que se passava nas décadas de 1980 e 1990. Antes que se exprimam livremente nas caixas de comentários, permitam-me o esclarecimento: na Era dourada, a fruta, o café e o leite mencionados, oferecidos aos árbitros e seus assistentes, como pagamento dos serviços prestados dentro de campo em benefício objectivo de determinado clube, não eram, como em tempo inútil foi devidamente comprovado, produtos alimentares servidos ao pequeno-almoço, mas sim nomes de código para serviços de prostituição, dos quais os intervenientes usufruíram, de facto e recorrentemente; tal como as viagens ao Brasil, pagas pelo mesmo clube, aos mesmos destinatários ou outros, tendo em conta os mesmos princípios e objectivos – dispensando até, neste caso, qualquer uso de código secreto –, eram, de facto, viagens ao Brasil. Os nomes dos bilhetes de quem viajou e dos recibos de quem pagou estão lá, para quem os quiser ver.
Comparar isto com qualquer outra coisa – com vouchers de refeição, falando directamente –, oferecida sem códigos, à luz do dia, pública e descomplexadamente, com o cumprimento das mais elementares regras e exemplos da boa hospitalidade (tal como acontece noutros campos, em Portugal e no estrangeiro), torna-se, somente, num exercício de adulteração da própria realidade. Este caso, iniciado por Bruno de Carvalho, alimentado pela sua direcção, e espontaneamente difundido pelos adeptos rivais (desde o anónimo até ao comentador/cronista mais conceituado), prova, sobretudo, existirem ainda vastos terrenos fertéis onde determinados lideres podem plantar, com sucesso, a sua retórica populista e demagógica e mentirosa.
Sentem saudades do que havia; vêem agora o que não há? Se já não se recordam, ou não o podem sequer recordar, revejam o último FC Porto-Rio Ave. Observem Layun, imaginem-no de cabelo comprido e de calção curto, a jogar numa redoma de vidro, a distribuir pancada, a fugir ao vermelho directo (aos 44′), ao segundo amarelo (aos 47′) e, enfim, ao outro segundo amarelo (53′), perante um olhar complacente de um árbitro cansado da noite anterior, visivelmente a precisar de umas férias em local paradisíaco. No fim, o FC Porto ganhava e os seus dirigentes e treinadores reagiam com silêncio, ou com fina ironia, perante os factos apurados.
Nunca confundam o que está morto e enterrado, com aquilo que está bem vivo, saudável e feliz.










