A Maior Vila do Futebol Português

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Era uma vez… Podia perfeitamente começar assim a história da época deste Desportivo das Aves, qual conto de fadas. Embora sem podermos fechar com o “e viveram felizes para sempre”, porque muito faltará por certo escrever daqui para a frente, podemos ter a certeza de que o mais bonito capítulo teve um final feliz!

E agora sim, era uma vez! Era uma vez uma vila que festejou de forma efusiva a subida da sua equipa à primeira liga, longe de imaginar tudo o que estaria para acontecer, todos os contornos que estavam por delinear. Naquela noite, véspera de feriado, de 30 de Abril para 1 de Maio, milhares de adeptos aguardaram até de madrugada a chegada da equipa vinda da Madeira, a chegada dos heróis que, sob o comando de José Mota, haviam devolvido o clube aos grandes jogos. Três meses passaram e estava prestes a começar a aventura de volta à primeira divisão.

Com uma revolução no plantel e no banco, o Aves começou a época tal como a viria a terminar, frente ao Sporting. Não foi uma equipa constante, nem tão pouco brilhante no seu futebol e resultados. No banco, foram três os treinadores que se sentaram. Primeiro Ricardo Soares, depois Lito Vidigal e, por fim, o regresso de José Mota. O regresso de um dos nomes ligados à subida, que se voltaria a juntar apenas a Quim e Alexandre Guedes, os dois resistentes da tal revolução do plantel. Apesar de estarmos ainda em Janeiro, a urgência dos resultados estava presente e o fantasma da descida não abandonava a Vila das Aves. Aquela distância, e embora todos ainda acreditassem, parecia que o clube estava destinado a nunca conseguir assegurar a permanência.

Mas assegurou! Venceu em casa os jogos decisivos da reta final do campeonato, frente aos adversários diretos do Estoril e Santa Maria da Feira e foi ao vizinho Moreirense escrever uma das mais importantes páginas da história. A uma jornada do fim, o Desportivo das Aves garantia a manutenção, numa altura em que outra festa tinha já data marcada: a final do Jamor. Por entre altos e baixos, foram-se somando vitórias no percurso da Taça de Portugal e, numa meia final jogada na Mata das Caldas, estava conquistada a tão desejada (e talvez inimaginável para muitos!), presença no Estádio Nacional.

E dia 20 de Maio era o dia da festa. Seria sempre, fosse qual fosse o resultado, corresse como corresse o jogo. Numa outra mata, de nome imponente para os amantes da modalidade, os avenses queriam celebrar o futebol no seu estado mais puro, viver o espírito de convívio e partilha, viver a emoção do Jamor, aquela de que tanto ouviam falar mas nunca tinham tido a oportunidade de presenciar. Eram 3h da manhã desse 20 de Maio e já havia movimento nas ruas da vila, com os adeptos a começarem a chegar às imediações do estádio, de onde partiriam cerca de cem autocarros rumo ao sul.

Logo ali, e ainda antes dos autocarros arrancarem, já se vivia num mundo à parte. Um mundo marcado pela loucura e entusiasmo, pela expetativa e ansiedade. Cinco horas de viagem separam Vila das Aves de Oeiras e nem as poucas horas de sono juntas com o cansaço dessa viagem fizeram os ânimos acalmar. Quando, por volta das 11h, os primeiros avenses começaram a chegar, foi possível perceber que aquela era uma festa sem idade: dos mais novos e entusiasmados, muito atletas da formação do clube, até aos mais velhos e já com dificuldades de locomoção, todos quiseram marcar presença.

Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

Sempre com o intuito de aproveitar o momento ao máximo, à abertura das portas já a fila ia longa, tal era a ansiedade de entrar para o palco dos sonhos. Num estádio com capacidade para mais de 37 000 pessoas, a grande maioria vestida de verde e branco mas, lá no topo sul, parte da bancada vestida de vermelho e branco. E se para quem via de fora podia parecer pouco, para quem lá estava era tudo! Era uma vila em peso, pequena, é certo, mas que ficou conhecida nessa tarde por ser “a maior vila do futebol português”.

Vibrou-se ao primeiro golo de Guedes, sofreu-se quando o relógio parecia não andar, chorou-se aquando do segundo golo. Naquele momento, já não se acreditava que a Taça pudesse escapar. Naquele momento, começava a ser real. O golo do Sporting fez tremer e os minutos finais foram de desespero, de ansiedade, de nervos. Tudo o que se pedia era o apito final do árbitro e, quando ele finalmente chegou, o mundo parou por momentos. O Aves vencia, contra todas as expectativas, o “gigante” Sporting e fazia história. Naquele momento, nada fazia sentido mas tudo se conjugava na perfeição. Naquele momento, o país ficava a conhecer Vila das Aves e, mesmo que os interesses fossem outros, todos teriam de falar da pequena vila que acabava de ter também ela um gigante.

Muito se fala da possível não presença da equipa na próxima edição da Liga Europa, um direito que conquistou no campo mas do qual pode não conseguir usufruir, mas a verdade é que a história já foi feita. Os capítulos que estão para vir apenas vão revelar o seu desenrolar, mostrar outras e diferentes facetas do clube, mas neste o capítulo de 2017/2018 o Desportivo das Aves foi o verdadeiro vencedor.

 

Foto de Capa: Carlos Silva/Bola na Rede

Artigo revisto por: Rita Asseiceiro

Joana Quintas
Joana Quintashttp://www.bolanarede.pt
O gosto pela escrita e a paixão pelo desporto, particularmente pelo futebol, tornaram claro que o jornalismo desportivo seria o caminho a seguir. A Joana é licenciada em Ciências da Comunicação, gosta de estar atenta ao que a rodeia e tem, por norma, sempre uma palavra a dizer sobre tudo.                                                                                                                                                 A Joana não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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