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A tendência está a mudar lentamente. O mercado sul-americano contínua a ser apetecível, mas também muito procurado, o que tem aumentado em alta escala o valor a pagar por alguns dos craques dos países latinos. No futebol português, a procura de talento além-fronteiras é um hábito que nunca se vai perder, e o mercado sul-americano sempre foi o maior viveiro de abastecimento do nosso Portugal. No entanto, este paradigma está a mudar aos poucos, muito por influência de treinadores e dirigentes estrangeiros, que trazem esta frescura necessária para que os grandes clubes portugueses sejam capazes de alargar horizontes, e exponenciar talentos que possam render muito desportivamente mas, essencialmente, financeiramente.
Os mercados nórdicos surgem agora como grande tendência no que toca à observação e identificação de talento, com jovens de grande potencial a emergirem todos os anos, e que permitem investimentos bem mais baixos do que outros mercados, para além de trazerem jogadores com outra visão daquilo que é o futebol e a sua própria progressão dentro do desporto rei, porque não ligam tanto aos aspetos financeiros, e procuram sim o sucesso desportivo. O nosso campeonato é visto pelos jovens nórdicos, e mesmo pelos jovens estrangeiros a jogar nos países nórdicos, como um trampolim para outras realidades, porque lhes permite amadurecer todas as competências que têm, para além de terem a hipótese de ganhar títulos e jogar nas maiores competições europeias.
Na minha opinião, os clubes portugueses são exímios a atacar o mercado. Muito se fala em relação ao nosso futebol, mal ou bem, mas na maior parte das vezes mal, na capacidade das equipas portuguesas de abordar o mercado, de encontrar jovens jogadores “lá fora”, ou de trazer jogadores mais experientes. O que é certo é que o nosso país, e os nossos profissionais, são demasiado competentes para ouvir certas críticas, porque entendem na perfeição onde devem de procurar o talento, qual a realidade em que estão inseridos e quais são as próprias expectativas dos jogadores estrangeiros. O processo de identificar, avaliar e contratar um jogador tem sido feito de forma muito eficaz, e de forma muito rápida também.
O SL Benfica como a bandeira deste investimento
De facto, esta nova abordagem de mercado dos clubes portugueses é um tema muito interessante, que eu próprio escolhi de imediato, porque gosto muito de falar de mercado e de deteção de talentos. Recentemente, têm chegado a Portugal vários jogadores vindos dos países nórdicos para reforçar tanto os três grandes, como equipas de segunda linha do futebol português. O sucesso destas operações fala por si próprio, como o caso de Ousmane Diomandé, que pertencia ao FC Midtjylland mas que brilhou ao serviço do CD Mafra, e que acabou de assinar pelo Sporting CP. No entanto, não é um caso isolado, também Joe Mendes trocou o AIK pelo Sporting Clube de Braga, e Luther Singh, que é um caso diferente porque já é um velho conhecido dos clubes portugueses, reforçou o CD Chaves, vindo do FC Copenhaga.
Ainda assim, o grande destaque na abordagem de clubes em Portugal ao mercado nórdico é o SL Benfica, que mostrou uma superioridade enorme em relação a todos os clubes portugueses, tanto da prospeção e deteção de talento, mas também na capacidade de chegar até ele que, muitas das vezes, é o passo mais difícil. Na minha opinião, a visão que Roger Schmidt veio trazer foi decisiva em todo este processo, porque o treinador alemão acredita no potencial e na capacidade do jovem jogador, não tem medo de apostar em jovens jogadores quando tem de o fazer, e ele próprio é o “primeiro scout” do seu clube, porque dá um contributo decisivo na escolha do seu plantel. A contratação de Aursnes é um bom exemplo da qualidade que existe no futebol nórdico, porque embora tenha vindo do Feyenoord, foi no Molde FK que se destacou, e onde Roger Schmidt já o tinha identificado como reforço importante. De facto, a cultura neerlandesa está um passo à frente da nossa e de muitas outras no que a esta abordagem diz respeito, porque tem como tradição apostar nestes mercados há muito tempo, e com relativo sucesso. Mohamed Daramy, Mohammed Kudus ou Marcus Pedersen são exemplos recentes da qualidade que existe nos países nórdicos, mas até Evander, que trocou recentemente o futebol dinamarquês pela Major League Soccer, esteve muito tempo no radar dos três grandes de Portugal e muito perto do FC do Porto, tendo mostrado toda a sua qualidade frente ao SL Benfica, ao serviço do FC Midtjylland.
Os exemplos de Andreas Schjelderup e Casper Tengstedt
São, sem sombra de dúvidas, os maiores exemplos de talento emergente no mercado nórdico, e chegam a Portugal pela mão do SL Benfica. Casper Tengstedt é um ponta de lança muito interessante, que eu desconhecia por completo, mas que chega para reforçar a frente de ataque encarnada, onde já existe uma qualidade e quantidade tremenda. A contratação deste avançado levanta outras questões, que até fazem sentido para mim, como por exemplo a “não aposta” em Fran Navarro, que se tem vindo a destacar imenso na nossa liga, e que está neste momento muito perto de Invicta. Faz ou não sentido investir cerca de 7 milhões no imediato em Casper, e não investir em Fran Navarro? São jogadores diferentes, com características diferentes, mas é um negócio que mostra bem esta tal ousadia dos encarnados, para além de mostrar uma capacidade de antecipação enorme.
No caso de Schjelderup, o SL Benfica fez um negócio bomba no meu ponto de vista. É um jogador diferenciado, que eu por acaso já conhecia, sendo um dos miúdos que mais observações tem sofrido ao longo do anos. Para além de justificar completamente o dinheiro que custou com números e rendimento desportivos apresentado, se não viesse já para Portugal, não acredito que viesse depois. E porquê? Porque tenho a certeza absoluta que no verão este jogador custaria facilmente 30 ou 40 milhões de euros, e nenhum clube português conseguiria chegar ao seu concurso. Por isso, esta jogada de antecipação e esta capacidade do Benfica de perceber que é “agora ou nunca”, podem trazer muitos frutos à luz e ao futebol português, que pode receber esta tendência nórdica de braços abertas, e deixar de apostar tantas fichas no outro extremo do oceano.








