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Agentes desportivos: vilões ou benfeitores?

Rui Pedro Cipriano · 5 min

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Cabeçalho Futebol Nacional

Por entre as muitas discussões que têm assolado o tempo de antena futebolístico no nosso país, havendo sempre foco, obviamente, nas questões relacionadas com a arbitragem, houve uma que pode ter passado mais despercebida aos leitores e adeptos portugueses: a discussão entre Catio Baldé e José Fouto por causa de dividendos da transferência de Ruben Semedo para o Villarreal. Aproveitando o tema, Catio Baldé revelou que o presidente do Sporting, Bruno de Carvalho, “retirou” comissões na transferência de Bruma.

Por entre tantas questões e discussões, há que clarificar e tentar fazer uma análise sobre o papel destes agentes desportivos no Futebol português. Afinal, têm ou não uma ação benéfica para o nosso Futebol? Contribuem de alguma maneira ou apenas se usam do nosso Futebol para tirar lucro? É tendo por base algumas destas questões que vou tentar fazer uma introspeção dos agentes desportivos no Futebol nacional.

Os agentes desportivos foram uma “consequência” dos próprios tempos que o Futebol viveu – apareceram no Futebol em Inglaterra, com o crescimento das competições europeias e da necessidade das diferentes equipas estabelecerem contactos para transferências. Os primeiros agentes desportivos eram ingleses e viram no Futebol uma nova maneira de negócio, uma nova maneira de fazer lucro. Mas foi com a introdução da Lei Bosman, em 1995, que os agentes desportivos tiveram, definitivamente, a sua explosão no Futebol, fazendo hoje em dia parte desta indústria que é o Futebol. Com os agentes vieram os direitos de imagem dos jogadores, contratos de patrocínio individual, etc…

Qual terá sido, então, o impacto da entrada desta nova classe no Futebol português? Eu diria que não foi um impacto imediato, mas hoje podemos verificar que os agentes desportivos a curto prazo melhoraram o Futebol português; já a longo prazo,  pioraram-no. Confuso? Eu esclareço.

Os agentes desportivos não tiveram um impacto imediato no Futebol português, pois os dois só tiveram, de facto, uma grande ligação, quando se deu o crescimento de Jorge Mendes, que se tornará um dos mais influentes agentes desportivos do mundo. Sendo Jorge Mendes português, o dirigente desportivo  sempre olhou para o agente desportivo português como uma mais-valia, alguém com quem se deveriam privilegiar a ter boas relações, e foi isso que aconteceu, em certa parte. Clubes como o FC Porto e o Benfica privilegiaram de uma boa relação com Jorge Mendes no inicio desta década e Jorge Mendes trouxe consigo os fundos de empresários, tais como a Doyen, que permitiram aos clubes portugueses contratar jogadores que anteriormente não estariam ao seu alcance ou precisariam de um grande esforço financeiro para o conseguir.

Mas nem só nos grandes clubes portugueses se fez sentir a importância da influência de Jorge Mendes, o Rio Ave é um desses melhores exemplos. O clube vila-condense cresceu e, desde que começou a sua estreita ligação com o empresário português, deixou de ser um clube que lutava para não descer para passar a  ser um clube que luta pelas taças e pelas competições europeias. Isto tudo graças ao relacionamento com Jorge Mendes, que permitiu que melhores jogadores viessem para o Rio Ave, melhorando também a qualidade do Futebol português.  Diego Lopes, Bebe e Felipe Augusto foram alguns dos jogadores que Jorge Mendes acrescentou no plantel do Rio Ave ao comando do treinador também agenciado por si, Nuno Espírito Santo.

Outro exemplo desportivo terá que ser o Sporting de Braga: o clube bracarense melhorou muito o seu poder negocial com as boas relações que mantém com Jorge Mendes. Danilo é um caso flagrante disso, capitão da seleção de sub-20 brasileira e com muitos interessados em si, acaba por chegar ao Sporting de Braga pelas mãos do agente desportivo português.

Jorge Mendes liderou a entrada dos fundos de empresários no futebol português Fonte: Gestifute
Jorge Mendes liderou a entrada dos fundos de empresários no Futebol Português
Fonte: Gestifute

Os clubes melhoraram significativamente os seus plantéis, muito graças aos bons relacionamentos com agentes desportivos, principalmente com Jorge Mendes. Benfica e Porto tiveram os seus melhores plantéis dos últimos anos e Portugal teve das melhores prestações europeias. Tudo isto coincidiu com a altura em que os fundos de empresários estavam mais presentes do que nunca no Futebol Português. Coincidência? Eu penso que não.

Basta fazermos um exercício: olharmos para os fundos proibidos pela FIFA e pensar se os clubes portugueses melhoraram ou pioraram . Nesta medida, digo que, a curto prazo, os agentes desportivos vieram ajudar e muito o Futebol Português, melhorando os nossos plantéis e permitindo melhores campanhas europeias. Mas agora, claro, há o reverso da moeda e eu não tenho uma visão angelical sobre os agentes desportivos. A médio-longo prazo, o Futebol Português piorou e muito. A nossa liga é usada pelos agentes desportivos como uma simples “barriga de aluguer”, onde os jogadores vêm, destacam-se e são vendidos, muitas vezes, apenas após uma boa temporada.

Para não falar no papel do Rio Ave, apesar de ter melhorado muito a nível desportivo, que empresta jogadores como Fabinho ao Real Madrid e Mónaco, e do Sporting de Braga, que empresta Wallace ao Mónaco, sem que estes tenham alguma vez jogado pelas suas equipas, entrando completamente no esquema de negócio imposto pelo agente português.

Wallace pertenceu ao Sporting de Braga durante duas épocas, mas nunca fez um jogo pela equipa bracarense Fonte: AS Mónaco
Wallace pertenceu ao Sporting de Braga durante duas épocas mas nunca fez um jogo pela equipa bracarense
Fonte: AS Mónaco

Fica também cada vez mais à vista de todos que, principalmente desde o desaparecimento dos fundos, o papel dos agentes desportivos fragiliza financeiramente os clubes portugueses. Numa transferência de 40 milhões, muitos milhões acabam por ficar nas mãos dos agentes e não nas dos clubes e, se estes tipos de comissões anteriormente podiam-se ser “pagas” com favores nos fundos, hoje em dia isto já não é possível.

Os agentes desportivos, em conjunto com os dirigentes desportivos portugueses, precisam de se “reinventar”. Se há uns anos pouca gente se importava que o nosso Futebol fosse usado como “barriga de aluguer” para os campeonatos superiores europeus, porque os plantéis e as campanhas europeias eram boas, hoje em dia , cada vez mais, os adeptos começam a ter uma opinião muito má pela classe dos agentes desportivos que é vista como uma classe que apenas se serve do nosso Futebol de forma interesseira. Ora, é preciso tentar arranjar um meio-termo.

Nunca conseguiremos competir com ligas como a inglesa e a alemã, mas não podemos simplesmente gastar dinheiro em formação e pôr em risco a própria integridade financeira dos clubes para servir de “ponte” para as ligas do top europeu. Tal como aconteceu com os fundo, é preciso que hoje os agentes arranjem também eles maneira de ajudarem o Futebol que tanto lucro lhes dá, mas, claro, isto deixa de fazer sentido se os próprios dirigentes desportivos, que deviam ser os principais interessados no melhoramento do Futebol Português, se demonstrarem pouco ativos para o fazer.

Foto de Capa: Gestifute

Artigo revisto por: Ana Rita Cristóvão

Rui Pedro Cipriano

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