Liderança e princípios procuram-se: um caso de polícia – Drible de Letra #13

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Ponto prévio: a minha mãe sempre me ensinou que a hipocrisia é uma visitante indesejada, mesmo quando o politicamente correto lhe estende o tapete vermelho. Dito isto, não tenho qualquer compaixão pela causa dos polícias que tantas ondas tem feito.

Aos 36 anos, o meu anedotário com as forças da ordem está recheado de tudo, menos de bons momentos. O último ato desta tragicomédia desenrolou-se num cruzamento, com o protagonista – um agente da autoridade, talvez mais habituado a comandar trânsito do que a resolver charadas. O sinal dado, interpretado por mim como uma duplicação do gesto dirigido ao carro à minha frente, que deveria contornar uma rotunda por um determinado lado, desencadeou uma tempestade de esbracejares furiosos, como sinal de pedido para que parasse o carro. Caiu o Mundo.

Não houve espaço para encostar de imediato, estava a navegar uma rotunda, mas assim que a lei da física o permitiu, detive-me. Abri o vidro e, obviamente, disse “boa tarde”. Obviamente? Parece que não! O cordial cumprimento que ofereci foi recebido com um inquérito abrupto sobre as minhas decisões de condução. A minha tentativa de apaziguamento foi recebida com sarcasmo digno de uma comédia de erros, culminando com a promessa de uma multa a caminho da minha morada. Eis o diálogo na íntegra:

– Boa tarde!

– Ouça lá, se eu o mandei parar ali atrás, porque não parou logo?

– Porque não consegui, estava a dar a curva na rotunda, peço desculpa!

– Ah, não conseguiu…. Muito bem.

-(…)

– E porque é que contornou a rotunda por aqui?

– Porque percebi que tinha feito o mesmo sinal ao condutor do carro da frente, mas se não foi assim, peço desculpa!

 -Pede desculpa, pede. Siga o seu caminho que a multa vai parar-lhe a casa.

“E assim acontece…”, como diria o saudoso Carlos Pinto Coelho.

Mas há mais: há meses, a minha mulher e eu quisemos ajudar um cão que estava fechado dentro de um carro, num estacionamento, à procura de uma nesga de ar para respirar.

Contactámos a autoridade, na esperança de ouvir uma sirene que, como uma brisa atlântica, trouxesse alívio. Mas não. O que ouvimos foi um reticente “não sei se consigo alguém para ir aí!”. Uma eternidade de quarenta minutos depois, e eis que surge a autoridade, com um ar de quem tinha mais que fazer. Ainda bem (ou talvez não), os donos do carro e carcereiros do pobre animal apareceram.

Mas não se fica por aqui a minha relação com as forças de segurança. No meu tempo de jornalista, em que as minhas ferramentas eram a caneta e o bloco e não a espada e o escudo, vi-me no meio de uma festa benfiquista, entre confettis e cânticos, só tentava eu pescar algumas palavras dignas de jornal, quando fui presenteado com um pontapé policial – uma oferta sem troco, nem conversa fiada.

E há mais, sempre há mais. Numa noite, passava pela rua da minha casa quando me deparei com um cenário montado por homens de farda. E claro, os olhos são para ver, pensei eu. O que é que eu fui fazer?! Olhar para o aparato! Onde é que já se viu?! Um dos polícias, quase como se fosse um touro em arena a investir, atirou-me: “está a olhar para onde?” E assim se vai, nesta pequena comédia.

Podia ficar aqui o resto do dia. Como digo: tenho 36 anos e não tenho uma única boa experiência com um polícia. Reconheço, como não, que em todo o canteiro de profissões florescem os bons e maus caracteres. Se calhar, tenho tido azar. Mas é por isso que, mesmo que justas sejam as suas reivindicações, as lutas dos polícias não me tocam a alma. Como diz o outro, “é para o lado que durmo melhor”. No entanto, os últimos acontecimentos de protesto, nomeadamente o boicote a jogos de futebol, só vêm regar a semente da minha desconfiança na polícia. Quisera eu que não fosse assim. Mas, enfim, é o que é. Os polícias não podem fazer greve (discutível, sim, mas não lhes é permitido). Logo, ou uma virose coletiva os acometeu, ou não nos contaram a verdade. E quem mente numa hora tão crítica, que põe em risco a paz das ruas, pode muito bem mentir sobre um pontapé que não deu, mas deu; sobre uma ajuda que não pôde enviar, mas talvez pudesse; sobre uma instrução que não passou, mas talvez tenha passado. Ou pior: mentiriam, quem sabe, sob juramento em tribunal.

São estes os guardiões da nossa segurança, os detentores de armas em nosso nome, os que juraram um compromisso que não se compara ao de nenhuma outra profissão. Por mais nobres que sejam seus motivos, há formas de protestar que não se coadunam com sua missão. E, nesse ato, perdem toda a razão que pudessem ter.

Mas, quando pensamos que não pode ser pior, eis que o Presidente do Sindicato dos Polícias, cujo nome me escapa, surge no ecrã da televisão com um aviso que quase soa a ficção: deixa no ar a possibilidade de no dia das eleições legislativas, os polícias adoecerem em massa. E, por isso, vão, novamente, meter baixa médica. Baixa, essa, financiada pelos cofres públicos, pelo dinheiro de todos nós, contribuintes. Estamos, portanto, a um mês de um marco democrático e alguém com deveres públicos antevê um cenário de caos, onde aqueles que deveriam ser os garantes da ordem e da lei, ausentam-se, e ainda por cima, seremos nós a assinar o cheque da sua ausência. Pergunto-me, com legítima curiosidade: será que existe um real interesse em ver resolvida a causa deles? É que se as eleições forem comprometidas, não será mais complexo alcançar as suas demandas? Ninguém refletiu sobre esta ironia? Surreal é dizer pouco.

Inacreditável é, também, mais uma vez, a ação (ou falta dela!) do Presidente do Sporting. O projeto desportivo no futebol está, e bem, entregue a Rúben Amorim. De modalidades, pouco ou nada sabe. A única coisa que se pede é que, do ponto de vista institucional, tenha, quando é preciso, atitude e não se limite a passeios e lugares de tribuna. Diante dos percalços que barraram o jogo do Famalicão contra o Sporting, qualquer líder de verdade tomaria as rédeas, lutando até o fim pela realização da partida à porta fechada. Mas, sim, isso era o que se esperaria de um líder.

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