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«Não recebemos nenhum ordenado até agora» – Entrevista BnR com Nuno Pinto

Frederico Seruya · 11 min

Foto: Vitória FC

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Nuno Miguel Sousa Pinto. Um herói que derrotou um linfoma e que se recusou a abandonar o barco em Setúbal, quando este afundou até ao Campeonato de Portugal. Agora, a luta é dentro de campo e o objetivo é trazer o Vitória FC de volta ao lugar a que pertence: a 1ª Liga. Prestes a tornar-se o jogador em atividade com mais partidas oficiais pelo Vitória FC, Nuno Pinto e os seus colegas debatem-se com ordenados em atraso desde o início da época. A claque do clube tem, literalmente, apoiado os jogadores e equipa técnica, numa altura em que o Vitória FC se prepara para ter eleições. Nuno Pinto recorda também Paulinho, funcionário do Vitória FC recentemente falecido, como alguém sempre presente e que deixa muitas saudades. Em tempos difíceis, o lateral encontra motivação no amor pelo clube pois, nas suas palavras, não nasceu vitoriano mas tornou-se vitoriano.

– Campeonato de Portugal, o novo normal –

Bola na RedeNuno, que tal o treino?

Nuno Pinto: Treinámos de manhã, lá foi mais um.

Bola na RedeA rotina de trabalho mudou muito deste a época passada?

Nuno Pinto: Não, não tem mudado. É sempre treinos de manhã e treinamos 4ª à tarde. De resto tudo igual. Só não temos é estágios.

Bola na RedeE folgas?

Nuno Pinto: É conforme o jogo. Jogamos sábado, folgamos domingo. Jogamos domingo, folgamos segunda. E depende sempre do próximo jogo.

Bola na RedeComo está a ser a adaptação ao Campeonato de Portugal?

Nuno Pinto: Complicado, principalmente pelos relvados. Não têm nada a ver com os relvados da 1ª Liga, são relvados mais degradados. Os jogadores têm alguma qualidade, mas não tanta como os da 1ª Liga.

Bola na RedeQual é a diferença?

Nuno Pinto: A execução, são mais lentos a executar do que na 1ª Liga. Mas de resto há muita qualidade no Campeonato de Portugal.

Bola na RedeOnde se vai buscar a motivação quando no ano passado estavam a jogar na Primeira Liga?

Nuno Pinto: A motivação é o amor ao clube. É saber que o clube precisa de nós, de mim, e sabermos a grandeza que o clube tem e que foi injusto ter descido na secretaria. Porque uma coisa é descer no campo, outra coisa é descer na secretaria. Nós vamos buscar forças a isso e a motivação é tentar meter o Vitória na divisão em que o clube merece estar.

Bola na RedeQuais foram os objetivos definidos para esta época?

Nuno Pinto: Subir de divisão, sem dúvida. Sabemos que não é fácil, sabemos a situação que estamos a passar, o clube em si e os jogadores. Mas o objetivo mantém-se.

Bola na RedeEstás a um jogo de igualar o jogador em atividade com mais jogos pela equipa principal do Vitória FC, [Frederico Venâncio]. Por isso, estás a dois de te tornares o jogador com mais jogos. Sabias deste registo?

Nuno Pinto: Não, não sabia. Sabia que dentro do balneário, pelo menos o ano passado, era o jogador com mais jogos de campeonato profissional, na 1ª Liga. Agora esse registo não sabia.

Bola na RedeO que é que representa para ti?

Nuno Pinto: Fico feliz porque são muitos anos aqui no Vitória.

Bola na RedeÉ caso para dizer que não nasceste vitoriano mas que te tornaste vitoriano?

Nuno Pinto: Exatamente. É caso para dizer isso e é caso para dizer que o amor pelo clube aumenta a cada dia que passa. Não sei explicar, não te sei dizer mas a realidade é essa. Tive muitas oportunidades para ir embora.

Bola na RedeNeste verão?

Nuno Pinto: Sim. Tive muitas oportunidades para ir embora mas não fui e algo me dizia para ficar aqui. Não sei se fiz bem ou mal mas segui o que o coração me disse para fazer.

Bola na RedeAssinaste contrato até quando?

Nuno Pinto: Este ano mais outro, dois.

Bola na RedeDe onde eram os clubes que estiveram interessados em ti?

Nuno Pinto: 2ª Liga.

Bola na RedeFoste um dos resistentes da equipa que desceu da Primeira Liga e recusaste-te a abandonar o barco. Os adeptos do Vitória FC retribuem a tua fidelidade?

Nuno Pinto: Sim. Não só a mim mas a toda a gente.

Bola na RedeA massa adepta do Vitória FC é exigente mas também é calorosa. O que é que eles te dizem quando te encontram na rua?

Nuno Pinto: Sim, é exigente sem dúvida nenhuma. Mas é exigente porque eles sabem a grandeza do clube. Eles sabem onde é que o clube merece estar, mesmo na 1ª Liga sabiam por que é que o clube podia lutar. É um clube com muitos títulos e o que eles queriam era que déssemos sempre o nosso melhor. Continuam a ser exigentes mas não tanto como eram na 1ª Liga porque eles sabem o que nós estamos a passar, as dificuldades financeiras que estamos a ter. Têm sido um grande apoio para nós, têm-nos ajudado, tanto aos jogadores como aos funcionários e só temos que lhes ficar gratos. Isso mostra que são verdadeiros vitorianos, que gostam mesmo do clube e querem que o clube vá para a frente tanto como nós jogadores queremos.

Bola na RedeHouve pagamentos em atraso desde o início da época, esta situação já está regularizada?

Nuno Pinto: Não. Nós ainda não recebemos nenhum pagamento até agora.

Bola na RedeDesde o início da época?

Nuno Pinto: Desde o início da época. Temos recebido algumas ajudas da parte da claque e do “Futebol para a vida”. Mas, até agora, nada mais.

Bola na RedeA Direção já falou convosco sobre isso ou estipulou prazos para pagar?

Nuno Pinto: Não. Teve o presidente, o Paulo Rodrigues, que quando entrou disse que ia pagar. Infelizmente não o fez. Também não vou estar a adiantar muito sobre essa situação. Agora temos o presidente da mesa da assembleia, que é quem está a gerir o clube…

Bola na RedeAté às eleições?

Nuno Pinto: Exatamente. Disse que está a fazer os possíveis para nos tentar ajudar de alguma forma mas, até ao dia de hoje, nada.

Bola na RedeQuem está de fora acha que todos os futebolistas são milionários, têm ordenados em dia e que são ordenados altíssimos. Mas não corresponde à verdade.

Nuno Pinto: É, não corresponde à verdade. É chato, porque há famílias, há pessoas com vidas organizadas e que, com esta situação, se desorganiza tudo. Há que acreditar que as coisas se vão resolver o mais rápido possível e o clube vai começar a andar para a frente.

Bola na RedeNa pesquisa para esta entrevista, descobri que não eras lateral de origem, pois não?

Nuno Pinto: Não, era médio.

Bola na RedeComo se deu a mudança de posição?

Nuno Pinto: Foi no Boavista, no meu primeiro ano de sénior. Jogava a médio e o treinador era o Jaime Pacheco. Os laterais esquerdos eram o Mário Silva e o Fernando Dinis. Houve uma altura em que o Mário Silva se magoou num treino e ficou de fora. Então para os treinos de conjunto quem é que ia para lateral esquerdo? O miúdo ehehe.

Bola na RedeEhehe claro.

Nuno Pinto: O Jaime Pacheco gostou, ia falando comigo várias vezes e depois apostou em mim. Primeiro jogo que faço na Liga Portuguesa foi contra o Sporting.

Bola na RedeA lateral esquerdo?

Nuno Pinto:: A lateral esquerdo. E o segundo jogo é contra o Benfica.

Bola na RedeComo é que correram os jogos?

Nuno Pinto: Empatámos os dois. Eu com a camisola do Boavista nunca perdi.

Bola na RedeQuem é que apanhaste pela frente contra o Sporting?

Nuno Pinto: Nani.

Bola na RedeUi. E contra o Benfica?

Nuno Pinto: Simão Sabrosa.

Bola na RedeÉ difícil uma estreia melhor.

Nuno Pinto: É. Deves-te lembrar daquele mítico jogo, 0-0.

Bola na RedeAquele em que a bola não entrava por nada?

Nuno Pinto: Esse mesmo. Esse foi o meu segundo jogo.

Bola na RedeEsta semana faleceu o Paulinho, uma pessoa muito querida no Vitória FC. Tu que o conheceste bem, quem era o Paulinho?

Nuno Pinto: O Paulinho era um funcionário do clube que estava sempre disposto a ajudar. Precisávamos de alguma coisa, o Paulinho estava presente. Precisávamos de ir a qualquer lado, o Paulinho estava presente. Se precisássemos de alguma coisa, o Paulinho nunca dizia que não. E isso cativa as pessoas. Sabíamos das dificuldades que o Paulinho e a família estavam a passar e mesmo assim era a primeira pessoa a chegar. Isso marca-nos porque não é normal. Pessoas que estão em dificuldades, que não recebem salários, andam tristes. E o Paulinho nunca andava triste, andava sempre feliz. Isso cativa e deixa saudades porque não é fácil, hoje em dia, entrar no Vitória e ver as pessoas felizes. Primeiro, devido à situação que o clube atravessa. Segundo, os ordenados em atraso. O Paulinho estava sempre presente, ou ajudava o futebol, ou ajudava a manutenção ou o andebol. Estava sempre presente e isso vai deixar saudades.

– Vencer um linfoma –

Bola na RedeO que é que foi mais difícil quando te diagnosticaram o linfoma?

Nuno Pinto: O mais difícil foi contar à minha mulher e aos meus pais. Porque quando as pessoas estão doentes, quando estamos com uma constipação, nós estamos a passar por isso e sabemos aquilo que sentimos. Bem ou mal, damos força a nós próprios e vamos aguentando. Agora, quando é a mesma coisa com os nossos filhos, quando vemos os nossos filhos doentes ficamos muito preocupados. Aqui é a mesma coisa. Sabia que, contando às pessoas que eu amo e que me amam a mim, elas iam ficar muito preocupadas.

Bola na RedeO que é que te dá esperança nos momentos mais difíceis?

Nuno Pinto: É os filhos, sem dúvida. Havia vezes que eu acordava de noite e ia ao quarto deles e ficava a olhar para eles e prometia a mim mesmo que ia recuperar para vê-los crescer. Isso dava-me força porque tinha que ser. A lei da vida não era as coisas correram mal aos 32 anos.

Bola na RedeOs teus filhos aperceberam-se do que se passava?

Nuno Pinto: Só no fim. Os dois mais velhos sabiam que eu estava doente mas não sabiam o que era. Só no fim é que eu lhes contei o que é que era. Mas o meu filho, o do meio, tem 7 anos e não sabe o que é isso. A minha filha já percebia mais ou menos. Ela depois via entrevistas na televisão e quando dava esses entrevistas eu cortava e só via mais tarde com a minha mulher. Mas ela só no fim é que descobriu o que é que eu tinha. Ela sabia que eu estava doente, porque não ia treinar. Mas nunca soube o que é que foi, só no fim.

Bola na RedeSei que és católico. A fé deu-te respostas para os “porquês?” desta situação?

Nuno Pinto: Não deu mas eu também não as procurei. Porque na mesma hora que eu perguntava “Porquê a mim?”, na mesma hora eu perguntava “Porque não?”. Agarrei-me a Deus, claro que sim, porque sou católico. Agarrei-me à minha fé mas nem procurei esse tipo de respostas, não vale a pena. Eu tenho por hábito rezar todos os dias e não foi por ter esse tipo de doença que rezava mais ou menos. Pedia a Deus e agradecia a Deus.

Bola na RedeAlgum vai seguir as pisadas do pai no futebol?

Nuno Pinto: Olha, o do meio tem jeito. Já treina desde os quatro anos, só quer é jogar futebol. Agora está no Sporting, já jogou no Vitória.

Bola na RedeEra pior o sofrimento físico ou o estar afastado do futebol?

Nuno Pinto: Sem dúvida o estar afastado do futebol. O sofrimento físico dava-me ali dois dias… E nunca foi nada de especial. Não é por experiência própria mas eu via e falava com pessoas que tinham passado por uma situação idêntica à minha e não aguentavam. Ficavam em casa, não conseguiam comer… Estavam num estado muito crítico. Felizmente eu nunca estive assim, os primeiros dois dias a seguir ao tratamento eram os piores dias que eu tinha e nunca foi nada de especial. Sempre me alimentei bem, tanto que ao terceiro ou quarto dia eu ia treinar ao Vitória. Treinava com eles, treinava com bola, corria.

Bola na RedeLembras-te do dia em que soubeste que a batalha estava ganha?

Nuno Pinto: Sei que foi passado quatro tratamentos. Eu tive que fazer 12, era o protocolo, e tive que os cumprir até ao fim. Ao quarto tratamento eu já estava sem nada, já não tinha indícios do linfoma mas tinha que cumprir o protocolo até ao final.

Bola na RedeComo é que comemoraste?

Nuno Pinto: Fiquei feliz. Comemorar não comemorei, só comemorei no final dos tratamentos. Mas fiquei muito feliz e até comentei com as pessoas que são mais próximas que a minha mentalidade de ir fazer os tratamentos já era outra. Eu não ia fazer os tratamentos para me curar, ia para me “manter”, porque o linfoma já tinha desaparecido. Já estava curado.

Bola na RedeO que é que esta luta te ensinou?

Nuno Pinto: Ensinou-me que não vale a pena haver guerra, não vale a pena chatearmo-nos. Tentar resolver, tentar falar com as pessoas, sempre com respeito. A vida são dois dias e um já passou.

– Passes curtos –

Bola na RedeQual é para ti o melhor momento da tua carreira?

Nuno Pinto: A luta [contra o linfoma] vencida.

Bola na RedeE qual o momento mais difícil?

Nuno Pinto: Foi quando soube que fiquei doente.

Bola na RedeUm estádio?

Nuno Pinto: O do Vitória.

Bola na RedeQual foi o melhor jogador com quem jogaste?

Nuno Pinto: Rúben Micael.

Bola na RedeUm guarda-redes?

Nuno Pinto: Makaridze e o Bracali.

Bola na RedeUm defesa?

Nuno Pinto: Vasco Fernandes.

Bola na RedeUm médio?

Nuno Pinto: Semedo.

Bola na RedeE um médio criativo?

Nuno Pinto: Rúben Micael.

Bola na RedeUm avançado?

Nuno Pinto: Edinho.

Bola na RedeQual foi o jogador mais difícil de defrontar?

Nuno Pinto: Gelson Martins.

Bola na RedeQual foi o treinador que mais te marcou?

Nuno Pinto: José Couceiro.

Frederico Seruya

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