Queremos centralizar ou reformular? Esta é a pergunta que quero deixar para reflexão. A Liga Portugal já submeteu uma proposta de modelo de centralização dos direitos televisivos à Autoridade da Concorrência (AdC) e o processo deverá entrar em vigor a partir da época 2028/2029.
A centralização dos direitos televisivos é um dos temas atuais do desporto em Portugal e que até faz agitar as eleições no Benfica. Não é um tema simples ou leve, mas é possível simplificá-lo: foi aprovado um decreto-lei que dita a venda centralizada dos direitos televisivos da primeira e segunda divisão do futebol português.
A Liga criou um departamento denominado Liga Centralização para a negociação e realização deste mesmo feito e teria que apresentar uma proposta à AdC até 30 de junho de 2026, mas fê-lo 11 meses antes. A Liga aponta para uma venda destes direitos na ordem dos 300 milhões de euros (aproximadamente) e apresentou um modelo de distribuição que sugere uma divisão 50% equitativa e 50% com base no mérito desportivo.
Relembre-se que a França, uma das ligas pertencentes ao Top 5, vendeu os seus direitos televisivos por 375 milhões de euros. Tendo isto em conta, poderia questionar o valor pelo qual a nossa Liga pretende vender os seus direitos, no entanto, há estudos de mercado realizados por entidades com mais recursos e com uma complexidade financeira que ultrapassam este artigo – o meu foco é outro: não faria sentido pensarmos numa reformulação dos quadros competitivos internos?
Com isto não quero dizer que me oponho à centralização dos direitos televisivos (pelo contrário), mas creio que antes de vendermos o produto, temos de o melhorar, à semelhança do que fizeram os Países Baixos há seis anos, num processo que terminou com a Eredivisie a ultrapassar a Liga Portugal no ranking da UEFA.
Portugal não tem uma liga capaz de competir na Europa, e isso também se prova pela quantidade de equipas portuguesas que conseguiram chegar à fase final da Conference League: uma, Vitória SC, na temporada 2024/2025. O que temos são cinco equipas capazes de competir na Europa nas diversas competições, e mantém-se as cinco melhores equipas do país porque também jogam nesses torneios, e os três grandes são os três grandes porque jogam regularmente a competição milionária, a Liga dos Campeões. É aí que está o dinheiro, e é aqui que nos devemos focar.

Há seis anos, a Federação Neerlandesa decretou que iria começar a distribuir os lucros oriundos da participação em competições europeias. Na fase inicial (na altura, fase de grupos, hoje, fase de liga), cerca de 5% das receitas totais de cada um dos clubes neerlandeses participantes seria dividido pelos clubes que não participaram nas competições europeias. O mesmo aconteceria com as receitas das fases a eliminar, passando a 3,75% da receita. Destes valores, 85% seria distribuído pelos restantes clubes da Eredivisie e os restantes 15% pelas equipas da segunda divisão neerlandesa.
Com uma rede de distribuição de dinheiro imposta, a Federação impôs regras ao seu investimento como, por exemplo, cada clube teria que ter uma academia de desenvolvimento de talento, maiores penalizações monetárias a clubes que queiram comprar jogadores das camadas jovens de outro clube e investimento em relvados de relva natural. Além disso, os clubes neerlandeses concordaram em ser mais flexíveis e mais predispostos a alterar o seu calendário, de modo que os clubes com jogos importantes nas competições da UEFA pudessem ter uma melhor preparação para tal. Ainda, clubes participantes nas competições europeias entrariam mais tarde na TOTO KNVB (Taça Neerlandesa).
Em suma, não só os Países Baixos estabeleceram uma rede de distribuição de dinheiro focada em boas prestações europeias, como colocou regras que favoreceram projetos a longo prazo com ónus na formação e desenvolvimento de talento. Posteriormente, os Países Baixos venderam os seus direitos televisivos num negócio com duração de 12 anos, ou seja, com foco no futuro, porque o objetivo sempre foi aumentar a visibilidade e qualidade da liga. Seis anos depois, já ultrapassaram Portugal há muito no ranking.

A meu ver, está na altura (ou já passa disso) de Portugal copiar o TPC do colega do lado. Benfica, Porto, Sporting, Braga e Vitória SC são capazes de grandes prestações europeias e de trazer para Portugal uma boa soma de dinheiro a ser distribuído pelos demais com regras específicas de alocação desse rendimento, a fim de ter condições para uma melhor prática desportiva, a contínua formação e desenvolvimento de talento, aumento da visibilidade e qualidade do campeonato português.
Para tal, creio que seria necessário ajustes aos quadros competitivos internos. A redução e otimização de um calendário já apertado seria essencial para melhores prestações em provas UEFA – diminuir o número de equipas da Liga Portugal de volta para 16 seria fulcral e, por matemática, significaria que mais dinheiro seria distribuído pelas equipas do mais alto escalão competitivo português.
Há ainda quem defenda a extinção da Taça da Liga, ao qual discordo. Nesta reformulação que proponho, faz sentido pensarmos na Taça da Liga como uma competição exclusiva às equipas que não participem em competições europeias dessa mesma temporada e tornar os prémios aliciantes, de modo a aumentar o prestígio da competição e os índices competitivos de quem participa. O prémio em si poderia até não ser monetário como, por exemplo, a qualificação direta para as eliminatórias da Conference League da seguinte época.
Ao dia de hoje, é possível imaginar o Benfica ou o Sporting a chegarem aos quartos de final da Liga dos Campeões, o que por si só já origina receitas na ordem dos 70 milhões de euros. Já é possível imaginar o FC Porto e o Braga como dois dos principais candidatos a vencer a Liga Europa, agora imagine-se o que se poderia fazer se o seu calendário fosse aliviado e com um país inteiro a permitir mais dias de descanso a estes clubes antes de datas UEFA importantes. Assim, ganhavam os clubes e ganhava Portugal.

As próprias regras que a Federação poderia impor aos clubes na forma como estão a investir o dinheiro que lhes foi distribuído poderia ser até aliciante para investidores externos, que já é uma realidade. O grupo detentor do Paris Saint-Germain é um atual investidor da SAD do Sporting de Braga. Marinakis, proprietário do Nottingham Forest e Olympiakos, é um investidor e acionista da SAD do Rio Ave. O fundo Black Knight Football Club, que detém o Bournemouth, é acionista maioritário da SAD do Moreirense. O investimento em Portugal já existe, só que a Federação não o controla.
Ao melhorarmos as condições para a prática desportiva, estamos a incentivar projetos, tanto internos, como externos. Contra mim falo, assumido velho do Restelo e que simpatizo muito mais com clubes de origens populares e humildes do que com clubes comprados por fundos. No entanto, reconheço um bom projeto quando vejo um, e o Moreirense é um deles: há uma visão (lugares europeus) e um caminho que assenta na prática desportiva com forte aposta em talento jovem e num dos mais proeminentes treinadores portugueses: Vasco Botelho da Costa.

São estes projetos que têm que aparecer em Portugal, como apareceu o AZ Alkmaar, nos Países Baixos. Mas tal só é possível com as condições certas, como uma academia funcional, campos de treino devidamente equipados e uma identidade de jogo focada em ideias modernas. Olhe-se para o Brighton. Olhe-se para o Bournemouth. Olhe-se para o Royale Union Saint-Gilloise.
A primazia pelo desenvolvimento técnico de jogadores e em modelos de jogo assentes em futebol moderno, apoiado e dinâmico precisa da formação local como base. Ao penalizar os outros clubes (principalmente os três grandes) por contratar na formação, torna-se possível parar o monopólio da formação que os grandes detêm. As equipas de menor expressão podem construir com base na sua própria formação e os grandes têm que olhar novamente para o seu mercado interno, ou ainda, para as academias espalhadas pelo mundo, como nos PALOP ou na Ásia.
Não me oponho à centralização dos direitos televisivos, pode ser um passo importante na ascensão do campeonato português. Mas, há medidas que podem ser implementadas já, antes de 2028/2029 e que promovem o aumento da competitividade interna.
Termino este artigo com a mesma pergunta com a qual o comecei: centralizar ou reformular?