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«Com 39 anos pareço o pai deles todos e penso se o “velhinho” ainda devia continuar aqui» – Entrevista BnR com Mário Sérgio

Flávio Fernandes · 13 min

«Com 39 anos pareço o pai deles todos e penso se o “velhinho” ainda devia continuar aqui» – Entrevista BnR com Mário Sérgio
Foto: Margarida Pinto

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Mário Sérgio é, com muito orgulho, natural da cidade de Lordelo, Paredes. Foi em Paços de Ferreira, a poucos quilómetros de casa, que deu os primeiros passos no mundo do futebol, chegando mesmo à Primeira Liga pela equipa principal. Passou pelo Sporting, jogou ao lado de Cristiano Ronaldo em Atenas e até teve de parar Messi, Neymar e Suarez na Champions League. Hoje, com 39 anos, continua aqui para as curvas, defende as cores do FC Felgueiras 1932 e enquanto o corpo deixar pretende continuar a desfrutar desta profissão que tanto lhe deu.

«Não ia ter as oportunidades que queria no Sporting CP e acabamos a rescindir por mútuo acordo»

Bola na RedeBoa tarde, Mário! Antes de mais obrigado por teres aceite o nosso convite. Vamos tornar isto uma conversa normal entre dois apaixonados pelo futebol, utilizando a tua carreira como fio condutor. Como é tradicional começamos pelo início. Como foi a tua entrada no mundo do futebol?

Mário Sérgio: Boa tarde! Por mim tudo bem, vamos a isso. Então, eu entro cedo no mundo do futebol, tinha oito anos quando comecei a jogar no Paços de Ferreira, sou de Lordelo e fiz a minha formação toda no Paços.

Bola na RedeCom que idade te estreias pela equipa principal?

Mário Sérgio: Estreei-me com 18 anos, estava no meu segundo ano de júnior quando fui chamado para equipa principal. Isto acontece no ano em que subimos à Primeira Liga. Começo a carreira em grande, subi pelos juniores e pelos séniores.

Bola na RedePreferencialmente a defesa direito, mas também jogavas a defesa esquerdo?

Mário Sérgio: Sim é verdade, mas para ser sincero não gosto muito de jogar a lateral esquerdo. Óbvio que se for preciso jogar nessa posição cumpro o meu papel sem problema nenhum, mas a minha preferência recai sob a ala direita. Nas camadas jovens joguei muitas vezes a médio, comecei a lateral direito no segundo ano de juvenil porque tínhamos muitas baixas no plantel. A partir daí viram que tinha potencial e ficou.

Bola na RedeTrês épocas na capital do móvel e chamas a atenção de um grande, o Sporting, como surge esta oportunidade?

Mário Sérgio: Acho que todos os jovens quando iniciam a sua carreira profissional ambicionam um dia poder jogar por um “grande”. Eu trabalhei muito para poder ter essa “sorte”, porque acho que é uma coisa que temos de procurar e trabalhar, não cai nada do céu. Fiquei muito contente quando aconteceu porque temos a oportunidade de jogar noutros palcos, como a Liga Europa e a Liga dos Campeões.

Bola na RedeApanhas um balneário recheado de craques, como João Vieira Pinto, Ricardo, Rui Jorge…

Mário Sérgio: Sim é verdade, na altura apanhei um bom plantel. Tinha o Paulo Bento, o Sá Pinto, o Liedson, o Beto… Todos grandes nomes e com grandes carreiras que representaram a nossa Seleção Nacional.

Fonte: FPF

Bola na RedeO ano de 2004 foi um dos melhores anos da tua carreira. Assinas pelo Sporting, vais ao Europeu de Sub-21 e és chamado à seleção olímpica portuguesa que vai a Atenas.

Mário Sérgio: Foi um ano muito bom, estava a começar a minha carreira profissional da melhor maneira. Tanto nos sub-21 como nos jogos olímpicos tínhamos uma grande seleção, com Cristiano Ronaldo, Raul Meireles, Bruno Alves, Bosingwa, e a prova é que todos eles acabaram por fazer grandes carreiras.

Bola na RedeComo foi representar o nosso país no europeu sub-21?

Mário Sérgio: Comecei a representar a seleção desde os Sub-20 treinado pelo Agostinho Oliveira e depois subi aos Sub-21 com o mister José Romão e fomos, salvo erro, à Alemanha disputar o Europeu. Ganhamos à anfitriã, que tinha estrelas como Schweinesteiger e Podolski e acabamos por ficar em terceiro lugar, o que nos permitiu estar presentes nos Jogos Olímpicos de Atenas.

Bola na RedeFala-nos dessa experiência em Atenas, outra vez pela mão do mister José Romão.

Mário Sérgio: É daquelas experiências que qualquer jogador gosta de ter no currículo, foi pena não conseguirmos ter um melhor desempenho na prova. Éramos um grupo jovem mas com talento e alguma experiência, porque podia-se chamar três jogadores mais velhos e se a memória não me falha, veio o Frechaut, o Fernando Meira e o Luís Boa Morte…

Bola na RedeJogas com o Cristiano Ronaldo…

Mário Sérgio: Sim, mas não foi a primeira vez. Quando assinei pelo Sporting ele ainda lá estava e fez a pré-época connosco. Depois fizemos o jogo de inauguração do estádio contra o Manchester United e foi quando eles o contrataram. Não é preciso dizer que era e é um jogador de grande qualidade, pela sua carreira acho que está à vista de todos. Assim como ele também apanhei o Quaresma, outro jogador que a carreira fala por si.

Bola na RedeFaltou a seleção principal?

Mário Sérgio: Faltou jogar, porque cheguei a ser chamado (risos). Foi num jogo amigável no antigo estádio do Braga contra a Escócia. Trabalhei com eles, conheci o ambiente e só foi pena não ter entrado se não tinha somado uma internacionalização A. Mas pronto, o futebol é assim.

Bola na RedeDepois de dois anos de leão ao peito surge empréstimo para o Vitória de Guimarães?

Mário Sérgio: Estive dois anos no Sporting, no primeiro ainda joguei, mas no segundo fui perdendo espaço. Como o meu foco sempre foi jogar com regularidade aceitei a oportunidade de representar o Vitória. Infelizmente esse ano acabou por não correr bem a nível coletivo, mesmo com uma boa equipa, descemos de divisão.

Bola na RedeNo fim da época a Naval resgata-te a título definitivo ao Sporting, sentiste que não ias jogar em Alvalade tanto quanto querias?

Mário Sérgio: Em conversa com os dirigentes percebi que não ia ter as oportunidades que queria e como ainda tinha mais um ano de contrato com o Sporting acabamos a rescindir por mútuo acordo. A Naval demonstrou interesse, tinha um bom projeto e contratou-me a custo zero.

Bola na RedeAlguma vez pensaste que essa decisão era um retrocesso na tua carreira?

Mário Sérgio: Não vou mentir, claro que me passou pela cabeça, são equipas completamente diferentes e que lutam por objetivos distintos. Contudo, acabaram por ser dois anos muito importantes na minha carreira, precisava de jogar com regularidade, de me sentir útil e lá encontrei tudo isso.

«A minha ida para o Apoel já foi a pensar na concretização do sonho de jogar na Liga dos Campeões»

Bola na RedeSurge a primeira experiência no estrangeiro, vais para a Ucrânia representar o Metalurgh, onde ficas quatro anos, como surge este convite?

Mário Sérgio: É uma história curiosa por acaso, na altura foi o Ricardo Fernandes (então jogador do Metalurgh), que me ligou porque o treinador tinha falado com ele e disse-lhe que precisava de um lateral direito. Ele andou a pesquisar laterais direitos cá em Portugal, podes lhe perguntar que ele vai-te confirmar a história (risos), e sugeriu o meu nome, arranjaram o meu número e ligaram-me. Na altura tinha outras propostas na mesa, mas aquela pareceu-me a melhor e então aceitei e ainda hoje acho que foi a melhor decisão.

Bola na RedeComo reagiu a família a esta mudança?

Mário Sérgio: Tanto para mim como para a minha família foi uma adaptação feita aos poucos, como é um “mundo novo” com um cultura diferente é normal que no início estejamos um bocado “a medo”.

Bola na RedeO facto de teres um plantel com portugueses e brasileiros ajudou na adaptação?

Mário Sérgio: Sem dúvida, porque eu quando cheguei lá nem inglês sabia falar (risos). Tive muita ajuda do Ricardo Fernandes. Depois vieram outros portugueses, como o China, o Filipe Teixeira o que tornava tudo mais fácil. Até o Mkhitaryan por causa dos meses que esteve no Brasil falava bem a nossa língua.

Bola na RedeÉ onde começas a mostrar o teu melhor futebol, tanto a nível exibicional como estatístico (golos e assistências) concordas?

Mário Sérgio: Sim, como me consegui adaptar bem, fui jogando sempre a titular, estava confortável e sentia-me útil, isso refletia-se nas minhas exibições.

Bola na RedeOutra mudança, desta vez para o Chipre. Foste uma das contratações de um poderoso Apoel que na época anterior tinha surpreendido toda a gente na Champions League?

Mário Sérgio: Mais uma vez, foi uma transferência com intervenção do Ricardo Fernandes, funcionava como meu agente (risos). Na altura ele tinha um empresário cipriota e como sabiam que o Apoel precisava de um defesa direito indicaram o meu nome, o mais curioso é que o Ricardo Fernandes já não jogava no Apoel, era meu adversário, nessa altura representava o Doxa. Ele ajudou-me muito. Mas sim quando cheguei, eles na época anterior tinham passado em primeiro no grupo do FC Porto na Champions, eliminaram o Lyon nos Oitavos de final e depois foram eliminados pelo Real Madrid nos quartos de final.

Bola na RedeFoi a fase mais titulada da tua carreira? (5x Campeão, duas taças do Chipre e uma supertaça)

Mário Sérgio: Foi, tanto coletivamente como individualmente foram anos muito positivos. Consegui adaptar-me bem, já tinha aprendido inglês (risos) e tive planteis sempre com nomes portugueses o que facilitava muito o ambiente no balneário. Mais uma vez, como me sentia bem, as coisas fluíam naturalmente e como o coletivo também era forte refletiu-se nos títulos todos que conquistamos.

Bola na RedeCompetes ao mais alto nível, Liga Europa e Champions League que memórias guardas desses tempos?

Mário Sérgio: Memórias muito boas, acho que jogar na Champions League é o topo para qualquer jogador de futebol, foi um sonho tornado realidade. A minha ida para o Apoel já foi a pensar na concretização desse mesmo sonho.

Bola na RedeChegas a fazer as laterais com o Jonh Arne Riise?

Mário Sérgio: Era ele do lado esquerdo, eu do lado direito. Lembro-me bem dele, um grande jogador, apesar de vir em final de carreira veio acrescentar muito ao plantel, ainda chegamos a marcar cinco ou seis golos cada um nessa época.

Bola na RedeTrocas de clube no Chipre, para o Appolon Limassol onde vences a taça do Chipre frente ao teu anterior clube, foi um projeto ambicioso que te interessou?

Mário Sérgio: No início da época era para eu sair do Apoel porque havia um limite de estrangeiros que podiam inscrever e eles queriam contratar um avançado, que se não me engano era o Orlando Sá. Não conseguiram e acabei a ficar lá meia época, que ainda me valeu a medalha de campeão. Como não joguei tanto quanto queria acabamos por rescindir contrato. A minha intenção era regressar a Portugal, tive uma proposta para jogar num clube da Primeira Liga, mas acabaram por não cumprir com a palavra e o Apollon estava a fazer muita força para poder contar comigo, então acabei por aceitar e jogar lá o resto da época. Essa meia época correu bem, ganhamos a taça frente ao Apoel mas a minha decisão já estava tomada, era altura de regressar ao meu país.

Bola na RedeRegressas a Portugal pela porta do Varzim, como surge o convite?

Mário Sérgio: Eu quando vim para Portugal estava convencido que vinha jogar no clube de Primeira Liga que me tinha abordado em Janeiro, mas por coisas extra futebol e demoras a tomar decisões, coisas que nem vale a pena falar, acabou por não se concretizar. Mas pronto, não deu, siga a bola para a frente e apareceu o Varzim. Surge através de um conhecido que falou em mim, o projeto agradou-me e assinei por dois anos.

Bola na RedeChegas para competir na segunda liga, depois de estares em palcos da Liga Europa e da Champions. Qual foi a sensação?

Mário Sérgio: Sabes que por muito bem que estejas fisicamente, o teu bilhete de identidade começa a falar por ti e eu assino com 36 anos. Em relação a isso estava tranquilo, quando tomei a decisão de regressar a Portugal já sabia para o que vinha. Mas atenção que a segunda liga é uma divisão muito competitiva.

Bola na RedeAos 39 anos estás na segunda época a disputar o Campeonato de Portugal pelo FC Felgueiras 1932.

Mário Sérgio: É verdade. Eu como sou cá de perto, sempre conheci o Felgueiras, conheço a história, as excelentes condições de trabalho, o Ricardo Fernandes mais uma vez falou-me muito bem do clube, o próprio Fernando Meira, o Pintassilgo e apesar de ter outras propostas disse logo que preferia vir para cá.

Bola na RedeNunca tiveste muitas lesões, estás próximo dos 40 e nestes últimos anos competiste na segunda liga e campeonato de Portugal que são mais exigentes de um ponto de vista físico. Sempre foste um jogador cuidadoso nesse aspeto, preocupado com o corpo e rigoroso no teu dia a dia?

Mário Sérgio: Claro, preocupo-me com isso e muito mais agora porque tenho consciência da minha idade. As minhas prioridades são o treinar bem e o descanso, acho que é fundamental e um não funciona sem o outro. Depois tenho alguns cuidados com a alimentação, como de tudo, mas não cometo exageros. Graças a Deus nunca tive muitas lesões o que me permitiu estar sempre em grande forma dentro de campo.

Bola na RedeContinuas a ser dos que mais se destaca no plantel, já marcaste um grande golo, enquanto sentires que podes contribuir continuas a jogar?

Mário Sérgio: Eu atualmente sinto-me muito bem. Quando chegar a altura em que sentir que não acrescento nada à equipa, que não posso ajudar eu vou ser o primeiro a retirar-me porque não quero andar aqui a enganar ninguém, muito menos a mim próprio. Temos um plantel muito bom e jovem que me ajuda a manter este nível, com 39 anos pareço o pai deles todos, às vezes penso se o “velhinho” ainda devia continuar aqui (risos). Mas esta época estou bem, marquei um bom golo, já estava a precisar (risos), tenho algumas assistências, só é pena já não podermos chegar ao primeiro lugar, porque acho muito sinceramente que eramos a melhor equipa. Vou continuar a dar o meu contributo à equipa e a dar o máximo em campo, enquanto assim for vou continuar a fazer aquilo que mais gosto e a desfrutar da minha profissão.

Passes-Curtos

Bola na RedeQual o melhor plantel, a nível de individualidades, com quem jogaste?

Mário Sérgio: Os dois anos no Sporting, joguei com grandes jogadores e promessas que viriam a dar cartas mais tarde.

Bola na RedeE a nível coletivo, onde sentiste haver mais trabalho de equipa?

Mário Sérgio: O primeiro plantel no Metalurgh e todos anos que estive no Apoel.

Bola na RedeMelhor jogador com quem jogaste?

Mário Sérgio: Apesar de ter sido pouco tempo, tenho de dizer o Cristiano Ronaldo, mas se for a fugir um bocado aqui à regra tenho de destacar o Pedro Barbosa.

Bola na RedeO extremo mais complicado que tiveste de travar?

Mário Sérgio: Já apanhei muitos, inclusive o Neymar e o Messi, mas um que me deu muitas dores de cabeça, foi um miúdo do Sparta de Praga que nem me lembro do nome (risos).

Bola na RedeTens algum jogo que nunca vais esquecer?

Mário Sérgio: A minha estreia na Liga dos Campeões em Camp Nou frente ao Barcelona, só a música no início dá arrepios.

Bola na RedeAlgum golo favorito?

Mário Sérgio: O meu primeiro golo pelo Apoel frente a uma equipa Dinamarquesa. Marquei de livre, foi um golo bonito, na gaveta.

Bola na RedeMelhor Treinador?

Mário Sérgio: O mister José Mota, que foi o que acreditou em mim e lançou-me no futebol.

Bola na RedeMelhor amigo no futebol?

Mário Sérgio: Tenho mais que um. O Ricardo Fernandes que teve um papel crucial na minha carreira, o Hélder Sousa, o Tiago Valente… são alguns, vou me esquecer de algum e depois vão me dar na cabeça (risos).

Bola na RedeMelhor cidade onde viveste?

Mário Sérgio: Nicósia, no Chipre, é uma cidade muito bonita que vale a pena e aconselho todos a um dia visitarem.

Bola na RedeHá alguma mágoa de não te teres estreado pela seleção principal?

Mário Sérgio: Sim alguma, o facto de ter jogado nos sub-20, sub-21, seleção olímpica, ser chamado à principal, mas não me estrear deixa sempre alguma mágoa. Mas fico contente de ter trabalhado com eles, na altura com nomes como Rui Costa, Figo, Pauleta já foi muito bom e é uma experiência que nunca vou esquecer. E a verdade é que nessa altura Portugal estava muito bem servido na minha posição, com o Paulo Ferreira e o Miguel.

Bola na RedeTens algum clube de coração, que acompanhes assiduamente?

Mário Sérgio: O Paços de Ferreira, é o clube que tenho um carinho especial. Passei lá muitos anos, foi o clube que me formou, que me ensinou muito e me deu tudo.

Bola na RedeDepois de pendurares as botas, pretendes continuar a trabalhar no mundo do futebol?

Mário Sérgio: Talvez, vou ser sincero, há dias que penso que sim outros que penso que não, mas no fundo sei que vou sentir muito a falta disto, por isso a probabilidade de continuar ligado ao futebol é grande.

Bola na RedeObrigado Mário, votos de muito sucesso para esta época e para o teu futuro!

Flávio Fernandes

Redação Bola na Rede · ver artigos