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TRIBUNA VIP é um espaço do BnR dedicado à opinião de cronistas de referência para escreverem sobre os diversos temas da atualidade desportiva.

Ainda vamos em setembro e o futebol português já tem muito para contar: a jornalista Rita Latas levou com um processo de inquérito (felizmente já arquivado) por fazer uma pergunta fora do contexto do jogo numa flash-interview; todas as semanas existem acusações sobre a grande penalidade que foi ou não foi marcada, sobre o fora de jogo que existiu ou não existiu; depois há quem teime em encontrar bodes expiatórios para desviar as atenções após uma derrota; pelo meio temos tido a rábula das camisolas (ou falta delas) de clubes adversários na bancada e as provocações com crianças envolvidas no meio de tudo isto; voltou também a “alegria” por um resultado menos bom de um rival interno nas competições europeias; finalmente, as reações carregadas de “clubite aguda” ao anúncio de Rafa em relação à seleção nacional (não está aqui em causa essa decisão, completamente legítima, mas sim as reações).

De tudo isto, salta à vista um ponto em comum: a cultura de ódio que está instalada no futebol português. E fica uma pergunta: isso beneficia quem? Por mais que tente, não consigo encontrar uma resposta para esta questão. E quem sai mais prejudicado? Parece-me bem mais fácil encontrar uma resposta: o futebol, na sua essência. Todos, sem exceção.

Rafa Silva SL Benfica
Fonte: Carlos Silva/ Bola na Rede

Porque a partir do momento em que uma decisão de um árbitro tem sempre uma leitura transviada da realidade, a partir do momento em que um adepto desrespeita ou é desrespeitado por vestir uma camisola de cores diferentes da maioria dos adeptos presentes em determinada bancada, a partir do momento em que se festejam resultados negativos de equipas portuguesas nas provas da UEFA e se uma equipa ganha é porque o adversário está muito fraco, ou a partir do momento em que deixa de ser seguro ir a um estádio em família, nada está dentro do que devia ser a festa do futebol.

Não sendo muito antigo, já posso utilizar o termo “sou do tempo em que”. E, de facto, sou do tempo em que se podia ir várias horas antes para as imediações de um estádio, instalar um fogareiro e conviver com quem se aproximasse, fosse do clube visitado ou do visitante. A única condição seria, talvez, uma contribuição para os stocks de comida e bebida. E mesmo se não houvesse essa possibilidade, não me lembro de alguém ter sido sequer olhado de lado, quando mais insultado ou agredido.

Estamos a chegar a um ponto em que talvez só uma intervenção estatal possa ser suficiente para ajudar a controlar este clima de desrespeito pelo que deve ser o futebol. No entanto, como canta o Carlão, só ouvimos assobiar para o lado. A situação é grave, há que agir, há que estudar, mas nunca acontece nada. Aqui há tempos ouvia o Ricardo Araújo Pereira e ele referiu algo que, de facto, é comum a todos os problemas que acontecem neste país: quer seja referente aos incêndios, à seca, à falta de professores, ao caos nos hospitais, seja referente ao que for, há sempre três expressões que são aplicadas: o problema é sempre “estrutural”, é sempre necessário “um debate alargado” e o objetivo é sempre um “amplo consenso”. Claro que, no fim, fica tudo na mesma.

Termino com uma experiência que finalmente consegui ter a oportunidade de concretizar: ir ver um jogo do RC Betis ao Benito Villamarín. Num jogo com o Osasuna, estavam 53 mil adeptos nas bancadas. Claro que é importante recordar que não estamos a falar de um clube candidato ao título. Uma verdadeira festa, dentro e fora do estádio, com vários adeptos do Osasuna com as camisolas vermelhas e azuis vestidas a passearem tranquilamente entre os verdiblancos. Um exemplo! E, já agora, uma experiência que recomendo.

Durante aquelas horas vivi um clima que gostava de ver por cá. Salvem o nosso futebol. Porque tem de ser possível gostar de um clube sem odiar os outros.

Pedro Castelo
Pedro Castelohttp://www.bolanarede.pt
Desde que se lembra de ser gente que gosta de futebol, mas sabe que se apaixonou a sério pelo jogo em 1994, com 12 anos. Romário liderava o Brasil à conquista do Mundial dos EUA e tornou-se no primeiro ídolo do Pedro Castelo. O “Baixinho” e Iniesta são os seus jogadores preferidos de sempre. Na área da comunicação social desde 1998, o Pedro Castelo é daquelas pessoas com dias que parecem ter mais de 24 horas. Na televisão, é narrador na Eleven e na ZAP (Angola e Moçambique). Na rádio, é coordenador da Rádio Voz de Alenquer e relata na TSF - Rádio Notícias. Na imprensa, também em Alenquer, coordena o jornal Nova Verdade. No online, relata em flashscore.pt.

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