Voltar ao “zero” 100 anos depois

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Em 1919, no pós-Grande Guerra, num banco de jardim em Belém e de frente para o Palácio Presidencial, nascia aquele que viria a ser um dos clubes históricos do futebol português e um símbolo de Lisboa. Desde o seu nascimento, a História do CF “Os Belenenses” é pródiga em episódios espetaculares, dramáticos e outros até insólitos, tendo tido o seu apogeu na época 1945/1946, em que se sagrou campeão nacional após bater O Elvas CAD no último jogo do campeonato. E, talvez por ironia do destino, passados esses 100 anos desde a sua fundação, o CF “Os Belenenses” volta ao “zero”. A cisão com a SAD ditou que o Clube do Restelo, o quarto clube português com mais presenças na primeira divisão, recomeçasse nos campeonatos distritais.

Entretanto, Lisboa vestiu-se de azul para homenagear o CF “Os  Belenenses” no dia em que soprou as velas do seu centenário. Até houve uma Gala no Centro Cultural de Belém para assinalar o marco.

É certo que não são muitas as Instituições centenárias do nosso país. Mas muito sinceramente, acho que os festejos deveriam ter sido mais contidos. Por uma questão de respeito para com os seus fundadores e os muitos adeptos (entre os quais alguns familiares meus), que se fossem vivos jamais iriam tolerar o estado de sítio em que se encontra o Clube do Restelo. No mínimo dos mínimos, que fosse decretada uma trégua entre os dois lados da barricada! Mas nem isso foi possível e já se sabia que nunca seria.

Lisboa iluminou-se de azul para homenagear o centenário do CF “Os Belenenses”
Fonte: CF “Os Belenenses”

É que a “Guerra Civil do Restelo” continua e continuará sempre nas bancadas, nos tribunais, entre velhos amigos, etc. E porquê? Porque o Estádio do Restelo tornou-se um vanity fair onde desfilam egos, vanglórias e vaidades de mãos dadas com interesses financeiros que se sobrepõem ao espírito de um clube que sempre competiu de forma leal e que foi uma referência no desporto nacional.

Por isso fico surpreendido e até mesmo chocado quando o Presidente do CF “Os Belenenses” vem exibir decisões judiciais sobre nomes, marcas, símbolos, etc., como se se tratassem de troféus ou como se fossem o antídoto para curar danos que são irreversíveis. Desengane-se.

Não consigo, pois, compreender o Presidente deste Belenenses quando referiu em declarações à Lusa que o Clube chegou aos 100 anos com “vitalidade”. Uma equipa de futebol que é expulsa do próprio estádio e uma massa associativa dividida são sinais de muita coisa, menos de vitalidade. Perdão, “expulsa” não é o termo correcto, mas sim despejada como se se tratasse de uma inquilina que foi posta na rua pela senhoria.

Mais, referiu que o Clube chegou aos 100 anos também com “sustentabilidade para o futuro”… Eu pergunto de onde é que vem essa sustentabilidade?! Será do arrendamento de parcelas do Restelo ao LIDL ou à Repsol?! Ou será que irão encher o Estádio do Restelo de betão e cimento armado?

E a sustentabilidade a nível desportivo/competitivo consegue-se através de uma equipa paralela no campeonato distrital?! A criação de uma nova equipa por iniciativa do Presidente do CF “Os Belenenses” é, salvo o devido respeito, uma atitude de infant terrible (recorro ao estrangeirismo para não lhe de chamar de miúdo pequeno) que por ter perdido uma acção em tribunal, resolveu fazer birra. Para já, parece tudo muito romanceado, até porque conseguiu mexer com as paixões de alguns adeptos, sobretudo os mais jovens que têm o “sangue na guelra”. Mas quando o Clube chegar ao Campeonato de Portugal ou à Segunda Liga, como foi preconizado, e for preciso “dinheiro a sério”, onde é que este Braveheart do futebol português o irá buscar? Será credível que algum investidor queira injectar dinheiro num Clube depois de toda a tragédia que se passou? Não seria mais fácil que fizesse parte da solução em vez do problema?

Do outro lado temos uma SAD dominada por uma empresa chamada Codecity liderada por alguém que se julga o “DDT” do futebol azul e branco. Como tive oportunidade de falar num outro artigo, os problemas entre as SAD e Clubes começam quando estes não têm ou deixam de ter a posição de acionista maioritário no capital social daquelas. E no Belenenses SAD isto foi sintomático: o Clube viu-se forçado a alienar a sua participação à Codecity por meia dúzia de tostões em virtude das dificuldades financeiras que o Clube sentia por andar à deriva na Segunda Liga.

Mas no meio da desgraça há sempre quem veja uma oportunidade de negócio. E foi assim que o Belenenses SAD passou a ser um veículo de apoio para negócios que em nada têm que ver com a competição desportiva e que a Operação Marquês tem vindo a revelar.

Entretanto, a equipa de futebol do Belenenses SAD, sem Silas no comando técnico, continua numa senda de maus resultados e as assistências do público no Jamor aproximam-se do miserável.

Enfim, feito este desabafo, dou os parabéns ao CF “Os Belenenses” pelo seu aniversário e faço votos para que, realmente, conte muitos mais anos, apesar das perspectivas futuras quanto à sua durabilidade não serem as melhores. Na verdade, o melhor presente de aniversário que o Clube poderia ter seria a resolução definitiva do problema, doa a quem doer.

Na verdade, Portugal e, sobretudo, a cidade de Lisboa precisa de um Belenenses forte, alternativo aos “dois grandes” da Capital e em simultâneo possuidor de uma massa adepta com identidade própria e união forte.

“Ubi concordia, ibi victoria”: assim diziam os antigos Romanos. Mas o que vemos no Restelo é precisamente o oposto, em que dois lados da barricada que convergem num único sentido: a destruição do Belenenses.

Foto de Capa: CF “Os Belenenses”

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão

 

 

Pedro Miguel Martins
Pedro Miguel Martinshttp://www.bolanarede.pt
O Pedro é licenciado em Direito e é advogado com prática no Direito do Desporto. Oriundo do Bairro de Alvalade, em Lisboa, é um fervoroso amante do Sporting CP, embora também tenha um carinho especial pelo Ericeirense. Adora assistir jogos de futebol pela Europa. Sonha em conhecer os grandes palcos do futebol sul-americano.                                                                                                                                                 O Pedro escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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