O domínio de uma dada zona geográfica dos clubes que disputam a Primeira Liga 2019/2020 é das mais desequilibradas que já assistimos nos últimos anos. Se existisse um mapa de calor para esta análise, como existe para analisar as performances dos jogadores, o Norte era de longe a zona mais quente. Das 18 formações que compõe a nossa Liga, dez são do Norte, cinco pertencem à zona Sul e as restantes três dividem-se entre o Centro e as Ilhas. Mas este domínio não é de agora, pois este fenómeno sucede há bastante tempo.

A maioria das equipas que costumam formar o principal escalão são originárias do Norte e do Sul do país e ao longo dos anos tem se verificado uma interessante disputa sobre qual das regiões coloca mais formações na Primeira Liga. Vamos então espreitar este panorama que coloca frente a frente a velha rivalidade entre Norte e Sul.

Numa análise global, pode-se dizer que a história se divide em dois períodos de domínio e que desde o início da democracia que o figurino se alterou, se é que pode ser assim entendido. Há que ter em conta, ainda, que o quadro competitivo do principal campeonato sofreu alterações ao longo do tempo, nomeadamente ao nível do sistema de integração dos participantes e do seu alargamento e redução em várias fases.

Viajando até aos meados dos anos 30 do século passado, altura do início da principal prova, a realidade era bem diferente daquela que conhecemos hoje. Tudo começou com apenas oito equipas, em que cinco pertenciam à região de Lisboa e Setúbal, isto é, referentes à zona Sul do país e duas pertenciam à região do Porto, tendo se mantido assim a distribuição durante cinco épocas. Em 1939-40 houve o primeiro alargamento e a partir de 1946-47 estabilizou-se nos 14 participantes durante 25 anos. Ora, a verdade é que durante todo este período, os clubes situados a partir da região de Lisboa para Sul dominavam em comparação com os homólogos nortenhos, pois representavam quase sempre metade ou mais de metade do total de participantes.

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Só em finais dos anos 60 é que esta disputa entre Norte e Sul começou a equilibrar, mas foi apenas uma pequena ameaça, pois as formações do Sul continuaram a liderar em representatividade até 1977. Aí, já com novo alargamento para 16 equipas começaram a verificar-se os primeiros sinais de mudança e na época 1977-78 registou-se um empate no número de formações para cada lado, mantendo-se este cenário de equilíbrio durante as quatro épocas seguintes.

O SC Braga representa atualmente a segunda maior força da zona Norte do país
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Sentia-se uma ascensão dos clubes do Norte e a ultrapassagem dá-se finalmente na época 1982-83, onde, pela primeira vez, se superiorizaram aos do Sul em representatividade, ou seja, contando com aqueles a partir do distrito do Porto para Norte. Entre alargamentos e reduções no número de equipas no campeonato ao longo dos anos, a verdade é que não mais se alterou o domínio da zona Norte que se estende até aos dias de hoje. Ao mesmo tempo que esta região foi ganhando representatividade, com pequenas quebras pelo meio, a região contrária foi perdendo representantes em relação ao período em que dominava e nunca mais conseguiu passar para a frente nesta interessante disputa histórica.

A segunda metade da década de 70 representa, então, uma mudança de paradigma e serve como delimitador do domínio entre cada uma das regiões. Por exemplo, o CF “Os Belenenses” é o quarto clube com mais presenças na história da Liga Portuguesa e o Vitória SC ocupa essa mesma posição em relação ao número de jogos. Seguem-se Vitória FC, SC Braga e Boavista FC, que compõe os principais clubes das duas regiões extra grandes. O legado de todos eles é enorme e nesta mini disputa a cinco, os do Restelo começaram por sobressair até 1963. Logo a seguir, os sadinos passaram para o controlo até 1974. A partir de 1975 dá-se a tal inversão e os nortenhos passam a dominar, mais através dos axadrezados numa primeira fase e através do SC Braga numa fase mais recente.

Mesmo em relação ao número total de títulos, e apesar de os clubes do Sul vencerem de goleada, pois a maioria deles estão distribuídos entre os três grandes e SL Benfica e Sporting CP juntos superam o FC Porto, o caso muda de figura se analisarmos o antes e o depois do célebre 25 de Abril.

A partir daí entramos claramente numa nova fase do futebol português, onde o eixo de poder muda de direção. Basta dizer que, antes deste período, os clubes do Norte tinham arrecadado 14 títulos no total e que, depois, arrecadaram 80. Pelo contrário, os clubes do Sul mantêm um registo mais equilibrado, tendo vencido 69, isto é, menos nove títulos do que aqueles que venceram antes de 1974.

A história deu então uma viragem a Norte e mesmo se olharmos para a atual classificação do campeonato, até à última paragem, verificamos que sete das 10 formações nortenhas se encontram no top 10 da tabela.