Cabeçalho Futebol NacionalA Taça de Portugal é vista pelos amantes do futebol como a Prova Rainha do futebol português. Onde há Taça, há festa. Porém, aquilo que se vai verificando no futebol mundial, também se vai verificando no nosso futebol, e a Taça de Portugal não foge à regra. O futebol está a tornar-se cada vez mais num negócio.

Como pretendo aplicar esta tese na Taça de Portugal? Bem, nos últimos 10 anos, tem-se vindo a tornar frequente as equipas não profissionais receberem os três grandes em campos neutros e a terceira eliminatória desta edição da Taça não será excepção. O diferendo entre o Sporting CP e o Oleiros ainda está por resolver. O São Martinho irá receber o SC Braga na Vila das Aves e o Lusitano de Évora irá receber o FC Porto no Estádio do Restelo, naquele que é na minha opinião, o caso mais incompreensível, mas já lá vamos.

Antigamente, o dia em que um clube de divisões inferiores recebesse um grande, era dia de festa de arromba de manhã à noite. Fosse qual fosse o resultado, haveria sempre motivos para comemorar, e lá uma vez por outra lá assistíamos à tal façanha heroica do tomba-gigantes. Uma cidade ou uma vila fora do mapa do futebol português ganhava uma nova vida por um dia. Víamos jogos em campos pelados e/ou sem bancadas, onde os adeptos se colocavam praticamente em cima do campo, ou se colocavam em cima das árvores ou em terraços de prédios para terem uma vista mais ampla do campo.

Voltando à actualidade, as condições impostas pela Federação Portuguesa de Futebol e também o desejo por uma receita maior fazem com que toda essa essência e esse espírito à volta da competição se vão perdendo. A última vez que um clube não profissional recebeu um grande na SUA casa, foi em 2013/2014, com o CD Cinfães a receber o SL Benfica na 3ª eliminatória. Curiosamente, o CD Cinfães já tinha recebido o FC Porto para a Taça de Portugal em 2008/2009, e o clube utilizaria a receita desse jogo para comprar uma carrinha.

O Estádio do Restelo vai receber o jogo entre o Lusitano GC e o FC Porto, que já na época passada foi palco do Real SC vs SL Benfica, bem como de um GD Pescadores vs Sporting CP em 2009/2010. Outro estádio já habituado a estas lides é o António Coimbra da Mota no Estoril, que nas últimas duas temporadas, acolheu um UD Vilafranquense vs Sporting CP e um 1º de Dezembro vs SL Benfica.

Quem acompanha o futebol português, certamente terá noção das dificuldades financeiras dos clubes não profissionais. Como tal, quando é o próprio clube a optar por transferir o jogo para outro estádio com o pretexto de obter uma receita maior, pode-se aceitar essa opção. Um bom exemplo disso mesmo foi quando o GDR Monsanto recebeu o Benfica na 3ª eliminatória da Taça de Portugal 2009/2010. O estádio do clube do concelho de Alcanena cumpria as exigências impostas pela FPF, mas o próprio clube optou por transferir o jogo para o Estádio Municipal Dr Alves Vieira em Torres Novas, estádio que foi palco de muitos jogos dos grandes nos anos 90.

No entanto, embora não esteja muito por dentro desses assuntos, creio que as possibilidades para transferirem o jogo devem ser muito bem analisadas. E francamente, não me parece compensador a equipa do Lusitano de Évora deslocar-se cerca de 260 Km (ida e volta) para receber o seu adversário na Taça. Será que o antigo estádio do SC Campomaiorense não servia?

Perante uma lei que estipula que os clubes da Primeira Liga iniciem sempre a Taça de Portugal, jogando em casa de um clube de um escalão inferior, creio que a FPF deveria tirar partido desse regulamento para contribuir para que a festa da Taça não se perca. E num país onde o futebol está cada vez mais a arrastar-se para o litoral do país, já nem a Taça chega aos pontos situados fora do mapa do futebol português.

Não apenas como alentejano, creio que as gentes de Évora mereciam mais. Bem como as gentes de Oleiros, que apesar de sempre terem estado fora do mapa do futebol português, a vila também precisava de um novo ânimo após os incêndios que a devastaram neste verão.

 

Foto de Capa: Alentejo Sport

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