Em abril de 2018, numa visita à ilha de São Miguel, nos Açores, o quartel-general do CD Santa Clara, tive o privilégio de conhecer o senhor Jaime, natural da ilha e fervoroso adepto do clube da sua terra. Após trocar algumas impressões futebolísticas com ele, fiz um exercício de memória, a tentar lembrar-me da última vez que o Santa Clara militara na primeira divisão, mas não me ocorreu nada.

Nessa época, o Santa Clara lutava por cada ponto com unhas e dentes, pois havia a chance real de subir à Primeira Liga Portuguesa e tinha consigo todos os Açoreanos. Essa viagem fez-me refletir sobre o futebol português e a distribuição das esquipas pelo território nacional: a esmagadora maioria das equipas situava-se no Norte; depois havia os da zona de Lisboa, o Portimonense no Algarve e o Marítimo na Madeira.

Um claro reflexo da centralização que se vive no país, sendo que até no futebol, Alentejo, Interior e Açores estavam esquecidos. Passar uns dias na remota e magnífica ilha no meio do Atlântico, rodeada por adeptos ferrenhos do Santa Clara, fez-me perceber que aquelas pessoas também mereciam ver o seu clube na elite do futebol nacional, por passarem a semana à espera que a sua equipa jogasse e por fazerem as contas aos pontos que faltavam para atingir a tão almejada promoção.

Por eles, até eu passei a torcer para que uma equipa Açoreana chegasse ao primeiro escalão do futebol português, para que mais um pedaço de Portugal tivesse o realce que bem merece. Para minha alegria e, sobretudo, para dos Açoreanos, nessa época, o Santa Clara subiu à Primeira divisão e desde aí, conseguiu permanecer no escalão em que merece estar, com um excelente 10º lugar na época transata e com exibições de encher o olho, muitíssimo bem orientado por João Henriques, quiçá um dos treinadores sensação da Liga.

Anúncio Publicitário

Esta época, os Açoreanos não têm ficado abaixo das expectativas: após um começo algo irregular, em que chegou a figurar nos últimos lugares da tabela classificativa, ocupa agora um fantástico 8º lugar, que muito deve orgulhar os seus adeptos. A isso se deve a competência defensiva, conferida por Marco Rocha, o guarda-redes e pelo patrão da defesa, Fábio Cardoso, que com muita justiça enverga a braçadeira de capitão da equipa, atuando ao lado do central goleador João Afonso, a robustez do meio-campo, oferecida por Francisco Ramos e Anderson, e a eficácia do ataque, com Thiago Santana, Schettine e a magia de Carlos Júnior.

Uma equipa com identidade própria, que joga sempre da mesma maneira, seja contra quem for, e que é muito forte a jogar em casa, com o apoio dos seus inesgotáveis adeptos. Além da vertente futebolística, veio acrescentar resistência ao, cada vez mais poderoso, centralismo nacional; é uma lufada de ar fresco no mundo do futebol, um exemplo a seguir.

Em fevereiro, pela primeira vez na história, o CD Santa Clara conseguiu atingir 4 vitórias consecutivas na Primeira Liga
Fonte: CD Santa Clara

O CD Santa Clara representa uma estirpe rara no futebol português: o ressuscitar de uma região esquecida. Veio trazer, à já turística região, os benefícios de se ter uma equipa na Primeira divisão. Honestamente, isso interessa pouco: para os Açoreanos, o que verdadeiramente importa é a raça da sua equipa, a sua ânsia de mostrar que vieram para ficar, para estender o futebol português a mais um local.

A comunhão entre adeptos e equipa é notória, e o orgulho em ser da equipa dos Açores é transmitida aos jogadores, que deixam tudo em campo para alegrar os seus. Que fiquem na Primeira Liga muitos e muitos anos. O senhor Jaime merece, os Açoreanos merecem e o resto do país também.

Foto de Capa: CD Santa Clara

Artigo revisto por Joana Mendes