Terminado período estival de transferências, é altura de se fazer uma retrospetiva (com especial enfoque nas contratações mais surpreendentes) à atuação de vários emblemas da Primeira Liga. Desde a vinda de um talentoso e promissor extremo internacional sub-20 inglês, passando pela aquisição de dois goleadores magrebinos, o passado defeso reservou-nos diversas movimentações atípicas por parte de muitos clubes nacionais.

Marcus Edwards, um talento inglês que emergiu na Holanda:

Formado no Tottenham Hotspur FC e internacional por todos os escalões jovens da seleção inglesa desde os sub-16, Marcus Edwards contabilizou, somente, uma aparição pela equipa principal dos Lilywhites, ao participar em 25 minutos de um encontro referente à terceira eliminatória da EFL Cup, ante o Gillingham FC, em setembro de 2016. Posteriormente, e já no ano passado, o jovem extremo direito foi emprestado ao SBV Excelsior de Roterdão, formação pela qual alinhou em 25 encontros da Eredivisie – a primeira divisão do futebol holandês -, marcando dois golos e efetuando, ainda, quatro assistências. Assim sendo, e não obstante a temporada negativa a nível coletivo protagonizada pelos Kralingers, o jovem extremo inglês conseguiu causar impacto nos «relvados» holandeses, afigurando-se como o principal elemento desequilibrador da sua equipa. A título de exemplo, destaque-se o facto de ter sido o futebolista da competição que maior número de dribles completou por jogo, efetuando uma média de (3, 3), o que equivale a uma percentagem de sucesso na ordem dos (63, 5%), face ao número total de tentativas. Para além disso, este virtuoso extremo tratou-se do segundo jogador sobre o qual foram cometidas mais faltas (sofrera, em média, três infrações, por jogo), sendo, apenas, superado pelo médio holandês Mark Diemers, do Fortuna Sittard. Em suma, os adeptos do Vitória Sport Clube poderão contar com um driblador nato, capaz de conferir uma maior criatividade ao futebol vitoriano no último terço.

Magrebe, um mercado apetecível:

Com uma população estimada em 98 milhões de habitantes (de acordo com dados de 2017) e tendo no futebol o seu desporto dominante, esta região da África do Norte que agrega cinco países, entre os quais se destacam as duas maiores potências do continente no que ao «desporto-rei» diz respeito (a Argélia, cuja seleção A, recentemente conquistou a Taça das Nações Africanas e Marrocos), tem vindo a ganhar alguma expressão em termos de transações de jogadores para o mercado europeu. Ora, para além da qualidade dos seus jovens, também os salários que aí se praticam – para que tenha noção, o futebolista mais bem pago do Raja Club Athletic, um dos clubes mais ricos de Marrocos, auferia, em julho de 2018, 36 000 dirhams mensais (valor que ronda os 3360 euros, à taxa de câmbio de 5 de setembro de 2019) constituem um atrativo para que inúmeros clubes de baixa e/ou média dimensão no contexto do futebol do «Velho Continente» (sobretudo franceses, mas não só) o tenham em (boa) consideração, na hora de reforçar os seus plantéis.

Decorria o passado dia 26 de junho, quando o Vitória Futebol Clube anunciou a contratação de Khalid Hachadi, um jovem ponta de lança (21 anos) marroquino proveniente do Olympique Club de Khouribga, equipa que almejara o 11.º posto na edição transata do Botola Maroc D1 (o principal escalão da hierarquia do futebol de Marrocos). Ao serviço do Club Fousfate, Hachadi, autor de 14 golos em 23 encontros, assumiu-se como o melhor marcador da formação «verde e branca» (somou mais três tentos que o compatriota Reda Hajhouj) e, paralelamente, como a principal atração do campeonato, ao ponto de suscitar, segundo a imprensa marroquina, a cobiça de dois dos mais emblemáticos clubes do país: os gigantes de Casablanca, Wydad Athletic Club e o Raja Club Athletic, atuais campeão e vice-campeão do Botola, respetivamente.

Do outro lado da fronteira e para a cidade de Barcelos veio o argelino Zakaria Naidji, de 24 anos. Formado na academia do Paradou AC, que integra a prestigiada rede internacional de centros de formação da JeanMarc Guillou (JMG), este móvel avançado natural de Bordj Bou Arréridj foi o melhor marcador e uma das revelações da Ligue 1, o principal escalão do futebol da Argélia. Note-se que, ao longo da temporada passada, o dianteiro se tornara o primeiro futebolista que nos últimos 24 anos logrou a marca dos 20 golos naquele campeonato. Zakaria, que, em fevereiro passado, numa entrevista concedida a um conhecido OCS argelino afirmara que «não fecharia nenhuma porta» que lhe possibilitasse atuar na Europa, dispõe agora dessa oportunidade no Gil Vicente FC, após confirmar o seu instinto «matador» no país natal (marcou 31 golos em 53 jogos, no conjunto das duas últimas épocas). Ao serviço dos “Galos”, o jogador que enverga a camisola número nove da formação treinada por Vítor Oliveira até já se estreou como titular, num encontro referente à terceira jornada da Primeira Liga, ante o SC Braga.

Gil Vicente FC e Belenenses SAD à pesca no Báltico:

Os países do Norte da Europa desde há muito que têm vindo a ganhar reputação, no que toca à exportação de futebolistas para campeonatos mais competitivos: clubes alemães, ingleses e italianos estão entre aqueles que, tendencialmente, recrutam nesses países. Portugal, por seu turno, não consta de entre os destinos habituais dessas transações e, por conseguinte, qualquer que seja a incursão de uma equipa lusa neste mercado é motivo de surpresa. Na passada janela de transferências, quer Gil Vicente FC, quer Belenenses SAD recorreram a esse mercado, a fim de reforçarem os seus plantéis. Os Gilistas recrutaram o jovem Bozhidar Kraev ao FC Midtjylland, o atual vice-campeão dinamarquês. Os “Azuis”, por sua vez, procederam à contratação do nigeriano Chima Akas ao Kalmar Fotbollsförening, um emblema centenário que atua na Allsvenskan – o principal campeonato da Suécia.

Kraev é um médio internacional búlgaro de 21 anos, que, desde muito cedo, mereceu a atenção dos principais clubes europeus (casos de Manchester City FC e FC Barcelona). Tratando-se de um futebolista extremamente versátil (tanto pode atuar a médio ofensivo, como a extremo ou, até, a segundo avançado) e dotado de uma excelente capacidade para ler o jogo, este jovem nascido em Vratsa tem tudo para ser uma mais-valia para a, recém-promovida, equipa da cidade de Barcelos – como de resto o tem vindo a demonstrar nas rondas iniciais do campeonato.

 

Bozhidar Kraev, camisola 24 do Gil, iniciou de forma bastante positiva a sua trajetória na Primeira Liga
Fonte: Gil Vicente FC

Já “Chima”, um lateral esquerdino de 26 anos, é um futebolista que se destaca, acima de tudo, pela contribuição que oferece à sua equipa a nível defensivo.

A aposta no mercado japonês: «Primeiro se estranha, despois entranha-se»

Quando há sensivelmente dois anos o Portimonense SC anunciava a contratação de Shoya Nakajima, um (até então) desconhecido extremo japonês, oriundo da J League (o principal campeonato local), pairou uma certa desconfiança em relação à viabilidade dessa aposta.

No entanto, pouco tempo bastou, para se perceber que tal houvera sido uma escolha mais que acertada. Em abono da verdade, pode dizer-se que a mesma superou as melhores expetativas, atendendo ao êxito que o «baixinho» nipónico tivera no nosso campeonato.

Assim, e talvez por isso, não seja de estranhar que volvidos dois anos o mesmo clube continue a recrutar na “Terra do Sol Nascente”, com a escolha a recair desta vez em Koki Anzai, um lateral direito de forte propensão ofensiva que tem vindo a sobressair neste início de campeonato.

Todavia, não só os algarvios se reforçaram neste mercado asiático. Também o CS Marítimo o fez, contratando o avançado de 21 anos Daizen Maeda, futebolista descrito pelo site oficial da Japanese Football Association (JFA) como “[…] um avançado veloz, capaz de explorar o espaço nas costas da linha defensiva adversária […]”.

À semelhança de Koki Anzai, também Daizen Maeda (na imagem acima) já é internacional A pelos Samurai Blue
Fonte: JFA

Por fim, e ainda que seja prematuro fazer qualquer tipo de avaliação no que concerne ao sucesso ou insucesso da aposta nesses mercados, os indicadores evidenciados por alguns desses futebolistas parecem antever que, mais cedo ou mais tarde, os seus clubes acabarão por obter dividendos (seja no plano desportivo, seja a nível financeiro).

Foto de Capa: JMG Management (site oficial)

Revisto por: Jorge Neves

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