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«Depois da época em Chaves, aconselhei-me com o Sérgio Conceição» – Entrevista BnR com Rafael Lopes

Miguel Ferreira de Araújo · 19 min

Foto: Facebook Rafael Lopes

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Mortífero na grande área, descreve-se como um predador à solta, em busca do golo perdido. Não falamos de Marcel Proust, mas de Rafael Lopes, também ele um incrível contador de histórias. Desta feita, o Bola na Rede entrevistou um avançado que faz jus ao nome do nosso site e vai deixando o rasto do golo pelos estádios da Polónia. Por uma hora, roubámos a atenção de um pai a caminho do terceiro golo mais importante da vida e que nos recebeu, ainda que virtualmente, de mãos pintadas e coração aberto.

– A escola varzinista e uma subida a pulso –

“Muita gente fala do Varzim porque a característica comum a todos os jogadores que de lá saem é a entrega, a raça”

Bola na Rede [BnR]: A previsão da temperatura mínima para hoje são 2ºC em Cracóvia, de onde nos falas. Se quisesse começar por aquecer o ambiente para esta entrevista, devia perguntar-te qual a sensação de jogar um Wisla vs Cracovia?

Rafael Lopes [RL]: Em relação à temperatura erraste: neste momento estou de calções de banho e estava na varanda a apanhar sol e a pintar com os miúdos [risos]. Já a temperatura no dérbi atinge os 50ºC. Não consegues estar completamente focado nos aspetos táticos do jogo, porque é mais na base das confusões, porrada… é um dérbi aceso e quente.

BnR: É comparável a outro dérbi que também já tenhas jogado?

RL: Em Portugal, talvez – mas menos, muito menos (!) – o Boavista x Porto. Muito parecido é o Omonia x APOEL; não consigo escolher qual destes tem o ambiente mais complicado.

BnR: Já regressamos à Polónia. “Um campeão já foi um dia apenas um sonhador que se recusou a desistir. Pelos adeptos”. Há exatamente um mês, escreveste esta sentença na tua página do Facebook. Por quem te recusaste a desistir quando, primeiro em Esposende e, depois na Póvoa, a bola não entrava ou o gesto técnico não saía?

RL: Por mim, principalmente. Considero-me um sobrevivente porque, desde que comecei a jogar futebol, nunca era o escolhido para ir treinar aos clubes grandes. Naquela altura, os pais de outros jogadores tinham mais conhecimentos, mas na altura nem pensava nisso. É quando chego ao futebol profissional que tenho a perceção que penso “Neste momento, sou o único daquele tempo que cheguei ao mais alto nível”.

BnR: Reconhecido como um viveiro de talentos, é no Varzim que te estreias como sénior, depois de vários anos nas camadas jovens do emblema varzinista. Como explicas o sucesso na formação de atletas deste clube?

RL: Muita gente fala do Varzim porque a característica comum a todos os jogadores que saem de lá é a entrega, a raça, o nunca desistir. Foi assim que fui formado e crescendo. Desde miúdos que é a ideia mais incutida e valorizada pelo clube. Até os extremos, que são conhecidos pelo drible, as pessoas vão dizer “aquele gajo é raçudo, não desiste”. No futebol, podes ter a maior qualidade técnica, a maior capacidade de drible, mas se não tiveres essa vontade e resiliência, muito dificilmente vais jogar ao mais alto nível.

BnR: Por falar em extremos, a tua ascensão à equipa principal do Varzim faz-se acompanhar de Salvador Agra e chegas a um plantel que já contava com Luís Neto, e ao qual se juntaria André André. Esta tríade, que viria a distribuir-se pelos grandes do nosso campeonato, já dava nas vistas na altura?

RL: Começando pelo Neto, ainda antes de eu subir a sénior, já se notava uma diferença abismal entre nós e o Luís quando o defrontávamos na Liga Intercalar. É claro que agora ficava bem eu dizer que, na altura, já sabia que ele ia ter a carreira que teve, mas não; sabia que ia triunfar e chegar ao mais alto nível.

Em relação ao Salvador, jogámos juntos quatro anos na formação, depois nos seniores do Varzim, voltámos a encontrar-nos na Académica… Temos uma história de muitos anos juntos. O Salvador é daqueles casos em que tem qualidade com a bola nos pés, mas a característica que as pessoas mais admiram nele é não desistir. Aliás, tu vês o Neto jogar e ele, que não tem aquele corpão de bicharoco, é um animal noutras coisas: se tiver de ir com a cabeça onde o outro vai com o pé, ele vai; vês o Bruno Alves: igual! É a marca do Varzim.

O André chegou em Janeiro, porque estava emprestado ao Deportivo de La Coruña B. Mais ou menos em Novembro/Dezembro, ele pediu para voltar para o Varzim e começou a jogar assim que foi possível.

BnR: Pegando nestes exemplos, e não obstante a garra e determinação que referes, transportam também outra característica para dentro de campo: o espírito de liderança.

RL: São líderes por natureza. O Neto, por exemplo, está numa fase da carreira em que podia não estar para se chatear, mas o que ele sente e a pessoa que é vem ao de cima. Quer sempre o melhor, não só para ele, mas, principalmente, para a equipa e para o clube.

BnR: Já disseste que o momento-chave para a construção da tua carreira foi a “grande época a nível individual” nos poveiros, mas coletivamente o rendimento não foi suficiente para que o Varzim se mantivesse na Segunda Liga.

RL: Sei lá, amigo… Ainda hoje penso – e se perguntares a todos os outros jogadores do plantel – “Como é que é possível termos descido de divisão? Como?”. É incrível o que a gente jogava, incrível… Muitas vezes foi falta de sorte e sofríamos golos aos 93’ a ganhar 1-0 e foram cinco ou seis vezes… se calhar, destas cinco ou seis, se tivéssemos ganho uma ou duas, não tínhamos descido. E acabámos a primeira volta em sétimo lugar!

– Colômbia e Setúbal: do café ao choco frito –

“Assinei pelo Setúbal antes do Mundial”

BnR: Os 11 golos em temporada de estreia foram o cartão-de-visita com que te apresentaste à primeira divisão e a Ilídio Vale. O Mundial sub-20 na Colômbia ainda é o melhor momento da tua carreira?

RL: Sem dúvida! Foi na mesma época em que me estreei pelos seniores do Varzim – quando comecei a ir à Seleção – e há um antes do Mundial e um pós-Mundial.

Fonte: Facebook Rafael Lopes

BnR: O que é que mudou após aquele desempate por penáltis frente à Argentina de Battaglia, Lamela e Iturbe?

RL: Quando começámos, queríamos chegar o mais longe possível, mas não pensávamos em ganhar ou chegar à final. Nada disso! Queríamos era fazer um bom trabalho e, mesmo a Federação, não acreditava que chegássemos tão longe; só queriam que fizéssemos boa figura e não retirássemos o cartão ao árbitro como fez o Zequinha. Depois, foi passo a passo.

Nesse desempate por penáltis, pensávamos que já estava perdido: falhámos dois seguidos e estava 3-1 para a Argentina. Quando fui bater o penálti, se falhasse, íamos à vida. E mesmo que eu marcasse, se eles marcassem a seguir, ganhavam. Acabámos por ter sorte e mérito – o Mika esteve muito bem – e seguimos em frente.

Não foi depois desse jogo que mudámos a nossa maneira de pensar; depois desse jogo dissemos “Venha outro! Siga!”.

Na final tivemos um bocadinho de azar…se fores a ver, o Óscar não tinha marcado nenhum golo até à final e marca três; já o Mika não tinha sofrido golos até à final e sofre três também. São coisas que acontecem uma vez na vida, mas penso que merecíamos. Atualmente, tu vês onde estão os jogadores da seleção sub-20… na altura, poucos eram conhecidos, poucos jogavam nas equipas onde estavam e, os que jogavam, faziam-no na Segunda Liga. Só faltou a cereja no topo do bolo.

BnR: Jogaste 96 minutos, divididos por quatro jogos. Como é que o ego de um jogador, que vinha de uma grande época, gere esta utilização intermitente no contexto de uma grande competição?

RL: Fica-se sempre triste e eu até comecei a titular, contra o Uruguai. Estávamos a jogar em 4-4-2 e, neste sistema, seria sempre a primeira opção para jogar ao lado do Nélson [Oliveira]. Depois, o treinador mudou para 4-3-3 e, jogando apenas com um na frente, obviamente que, naquela altura, sabia que não iria jogar estando lá o Nélson. Nos jogos seguintes ficava triste quando não jogava, mas pensava que o mais importante era a equipa e o país que estava a representar.

BnR: Deixaste Bogotá ainda mais valorizado e assinas pelo Vitória FC no regresso a Portugal. Tendo outras possibilidades em carteira, porque é que optaste pelo histórico sadino?

RL: Já passaram muitos anos, já posso dizer: assinei pelo Setúbal antes do Mundial. A oficialização foi só quando regressámos, mas já estava tudo feito. Se fosse, não o faria: não porque tenha algo contra o Vitória, até porque gosto muito do clube e das pessoas, adoro a cidade e tive colegas espetaculares… na altura era miúdo, tinha 18 anos, estava na Segunda Liga e ganhava pouco… surgiu a oportunidade de ficar logo vinculado a um clube da Primeira Liga, um clube histórico e decidi assinar. Hoje, teria esperado até ao final do Mundial.

BnR: Chegas a Setúbal com 20 anos e encontras um plantel que misturava juventude e veterania de forma exímia. O que é jogadores como Ricardo, Hugo Leal ou Meyong te ensinaram nesse ano?

RL: Ensinaram-me tudo: fosse como profissional ou como pessoa. Quando cheguei, estava com um bocadinho de receio, chegar a um balneário daqueles… Foi dos melhores anos que tive de balneário, foi espetacular. Antes de ir para lá, fui espreitar a equipa que tinham e vi Ney, Ricardo Silva, Miguelito, Zé Pedro, Neca, Hugo Leal, Jorge Gonçalves, Bruno Amaro… e eu assim “Jesus, o que vai ser de mim?”. Em Janeiro ainda se juntam o Meyong e o Targino: só gente com muito futebol, muitos anos daquilo e grandes carreiras! Foi mesmo incrível!

Deixa-me contar-te uma história do Hugo Leal: o meu primeiro jogo pelo Vitória foi frente ao FC Porto no Dragão, foi a minha estreia na Primeira Liga. No autocarro para cima, o Hugo virou-se para mim e perguntou-me “Oh miúdo, o que é que achas que vai acontecer amanhã?” e eu respondi-lhe que se tivéssemos um bocadinho de sorte podíamos ganhar e ele “Ok, miúdo. Amanhã falamos”. Acabou o jogo, perdemos 3-0 e ele vem e diz-me assim “Então?” e eu “Fo****! Não dá…” [risos].

Desse ano tenho tantas… Tenho uma hilariante com o Zé Pedro, mas não posso contar.

BnR: Estamos entre amigos.

RL: Está bem, vou contar, mas espero é que ele não fique chateado comigo! Fomos a um churrasco na casa do Diego e ele tinha dois cães, dois pugs. Estava lá a equipa toda, mulheres, filhos… todos a comer, a beber cerveja… Ao fim de algum tempo, já estávamos animados e o Igor vira-se para o Zé Pedro e disso “Oh Zé, opá, manda os cães à piscina” ao que o Zé respondeu “Não mando nada!”. “És mesmo cobarde! Porque é que não mandas?” e o Zé Pedro pega no cão e atirou-o à piscina: mas atirou-o para aí uns dez metros para o ar. O cão cai à piscina e a filha do Diego começa a correr; descobrimos que o cão tinha problemas respiratórios e mal conseguia respirar quando saiu da piscina… Pensávamos que ia morrer! Depois ficou um clima estranho, mas lá passou e continuámos.

Outra: em Janeiro veio o Targino (…) que personagem! Esta com o José Mota. O Targino estava a falar ao telemóvel no balneário e não se podia. Onde ele se sentava no balneário, tinha uma televisão por cima e metia lá o telemóvel a carregar; ficava lá a baloiçar. Um dia, está a falar ao telefone e o Mota entra de repente; ele largou o telefone, mas não desligou. Na palestra, o Mota assim “Fo****, mas quem é que está a falar?” e o Targino discretamente pegou no telefone e desligou a chamada. O mister viu e pediu-lhe para ir à última chamada e ligar de volta. “Epá não, mister! Desculpe lá!”. “Não, vais ligar!” e o Mota começa para a pessoa do outro lado “Ouve lá, achas que ele pode estar aqui a falar no balneário? Que seja a última vez que ligas a esta hora” e a outra pessoa, como não sabia com quem estava a falar, começou a insultar o José Mota. [risos]

BnR: O mister José Mota é um treinador muito autoritário?

RL: É exigente – tem essa imagem e corresponde ao que ele é enquanto treinador -, mas fora do campo é espetacular: no balneário, quando vamos jantar… Quer sempre que o grupo vá jantar reunido. Ele é capaz de, no intervalo, chamar-te os piores nomes possíveis, e depois, no final do jogo, chega à tua beira e dizer “Grande jogo! Espetáculo!” e tu ficas assim (..) depois percebes que ele é assim e que não diz aquilo para te ofender. É espetacular como pessoa e como treinador.

– Vitamina G(olo) –

“O futebol é estatística para um ponta-de-lança”

BnR: Após uma época menos exuberante no Moreirense, voltas a brilhar em Penafiel, onde, com Miguel Leal ao comando, apontas 15 golos em 34 jogos. É-te essencial um papel de destaque na equipa para teres confiança suficiente?

RL: Se hoje estou onde estou e sou quem sou como jogador é muito graças ao Miguel Leal. Vim de uma época muito má em termos individuais no Moreirense e psicologicamente estava muito abatido, sem confiança. Tinha voltado à Segunda Liga, algo que não queria e ele, para além de ressuscitar-me a carreira, mudou a minha forma de jogar. Quando cheguei ao Penafiel, ele perguntou-me “Rafa, quantos golos queres fazer esta época?” e eu disse “Mister, se fizer dez golitos, já fico todo contente”, porque a minha confiança estava de rastos. “Dez golos? Nem pensar! Vais fazer 20 golos! E olha, sei como é que jogas, mas vais mudar: vais deixar de pedir a bola no pé. Não quero mais disso”. Cheguei a Dezembro e tinha 15 golos.

Para nós, avançados, a nossa vitamina é o golo. Quando estava em Portugal – e até ao ano passado – cometia muitos erros e um deles era não ficar chateado quando não marcava: dizia “Ah, mas em dez lances aéreos, ganhei nove” e baseava-me nessas coisas. Quando vim para a Polónia, já vim com outra mentalidade “Que se lixe jogar bem, Não quero saber. Eu quero é marcar golos. Nos treinos e tudo.” Tinha sempre o golo na cabeça! As coisas começaram a correr bem neste sentido, porque também mudei muito a minha maneira de pensar.

Fonte: Facebook Rafael Lopes

BnR: Então por mais ações acertadas que um avançado tenha durante o jogo, é impossível lidar com o peso da ausência de golos nessa posição?

RL: É muito difícil. Podes estar dois anos sem fazer golos e as pessoas dizem “Ah e tal, é bom jogador, é um gajo porreiro”, mas passas mais um ano sem marcar e começas a cair. O futebol é estatística para um ponta-de-lança. Quem disse o contrário está a mentir. Um clube quer ir buscar-te e eles vão ver, no máximo, dois ou três jogos completos; de resto vão ver o rácio de golos/jogos. É claro que podes ter a sorte de “Atenção: este gajo bem trabalhado (…) a nossa equipa tem estas características, pode encaixar”, mas é uma percentagem mínima.

BnR: Na Académica és treinado por um Sérgio Conceição em início de carreira. Como o descreves dentro e fora de campo?

RL: Eu gosto muito do Sérgio Conceição como treinador e como pessoa e sempre disse isso em todo o lado, inclusive na Polónia porque toda a gente o conhece. Só tenho pena que as coisas, naqueles seis meses (…) se houvesse vídeo-árbitro, tinha sido tudo diferente. Quando cheguei lá, marquei seis ou sete golos e cinco deles foram anulados injustamente, porque depois víamos que não estava fora-de-jogo. E ele dizia mesmo “Tu não tens sorte nenhuma”. Tenho a certeza que, se aqueles golos não tivessem sido anulados, se calhar no ano a seguir tinha-me levado com ele para Braga.

É um treinador muito exigente dentro de campo e muito acessível fora dele, tanto é que, depois da época no Chaves, tinha duas possibilidades em cima da mesa para assinar e vou confidenciar que houve dois treinadores a pedir conselhos: ao Jorge Simão e ao Sérgio Conceição. Foram dois treinadores que me marcaram muito.

BnR: Em Chaves encontras uma massa adepta fiel e uma região sedenta do regresso ao principal escalão do futebol português. A ambição, o espírito de grupo e o balneário de uma equipa recém-promovida são diferentes de outro cuja continuidade na primeira divisão é quase um dado adquirido?

RL: Antes de chegar ao Chaves, estive três anos em Coimbra e já me sentia em casa (…) se a Académica tivesse ficado na primeira divisão, tinha-me mantido por lá, até porque havia essa vontade e já tínhamos falado sobre isso. Foram muitos erros de toda a gente: jogadores, direção… como é sempre. O clube e a cidade não merecem estar onde estão, porque a Académica tem umas condições fantásticas. Foi mesmo pena.

Em relação ao Chaves, encontrei um balneário novo e estavam ali, como eu, a começar do zero; alguns já conhecia, como o Paulinho, o Nélson Lenho, o João Patrão… foi muito fácil, até porque as pessoas de lá são espetaculares. Foi muito bom o ano que estive lá e desportivamente os resultados falam por si. Jogávamos muito bom futebol, fizemos um grande trabalho na Taça de Portugal (…) quase chegámos à final, foi aquele o penálti aos 93’ que o Douglas defendeu… Deixámos uma grande imagem e representámos muito bem o clube e a cidade.

– O apelo do estrangeiro –

“Tinha outra opção: ir para Itália, para uma boa equipa da Serie B”

BnR: Aos 26 anos aventuras-te pela primeira vez no estrangeiro e rumas a Nicósia, para representar o Omonia. Ao lado de Alex Soares, apuram-se para o play-off de campeão, mas perdem o campeonato para o APOEL. Como é vivido o futebol no Chipre?

RL: É muito diferente da maneira como se vive em Portugal. Para começar, antes de mais, a minha vontade sempre foi ir para o estrangeiro. Quando estava no Chaves, confidenciei-o ao Presidente, porque ele queria que ficasse “Senhor Francisco, não tem a ver com o clube e dou-lhe a minha palavra que, se ficasse em Portugal, ficava no Chaves. Mas quero ir para o estrangeiro”. Precisava de um novo desafio, porque a Primeira Liga já não estava a permitir-me tirar o melhor de mim e estabelecer objetivos.

Tinha outra opção: ir para Itália, para uma boa equipa da Serie B; foi para esta equipa que tanto o Jorge Simão como o Sérgio Conceição me aconselharam a ir e era a minha primeira opção, mas percebi que são um bocadinho “mafiosos” e queriam “roubar-me”. Então aceitei ir para o Omonia. A cultura é diferente, as pessoas são mais fanáticas, mas há algo que admiro bastante e que me Portugal deixa-me triste: os cipriotas são adeptos de clubes pequenos, da terra, e não têm outro clube.

O Omonia em percentagem de adeptos é o maior; dizem que 60% da ilha é daquele clube. Notei isto logo no primeiro treino que fiz: fomos para as montanhas, onde no Verão é mais fresco, e estavam cinco mil adeptos. As pessoas iam no dia anterior, acampavam e viam o treino no dia a seguir. E atenção que ainda era a uma hora de Nicósia.

BnR: Por falar em adeptos, também tens uma história menos boa naquele país.

RL: Sim! Estávamos numa fase menos boa e perdemos um clássico contra o AEK Larnaca por 5-0. Nessa semana, o treinador foi despedido e o nosso capitão avisou-nos que os adeptos iam lá. Estávamos a treinar e começámos a ouvir tipo fogo-de-artifício, petardos… “Atenção, vêm aí os adeptos, mas não reagimos e juntamo-nos ali no meio-campo”, disse o capitão. E nós tranquilos, pensávamos que vinham para aí 20/30… de repente começam a entrar pelo portão e eram para aí 150/200 e só se viam os olhos. Começaram a agarrar-nos e a separar-nos, uns para ali, outros para acolá, e foi um momento de alta tensão. Depois veio a polícia, mas eram uns dez… Foi assustador e pensei que ia dar para o torto.

Fonte: Facebook Rafael Lopes

BnR: O modelo do campeonato cipriota faria sentido em Portugal?

RL: Acho que sim e vou explicar-te: chegas a Abril e, nos últimos sete jogos, divides o campeonato em dois. Os nove primeiros disputam o play-off de campeão e os outros nove o de despromoção. Assim, evita-se que as equipas que ficam entre o 7.º e o 12.º desvirtuem a classificação final do campeonato por já não terem por que lutar nas últimas jornadas.

BnR: “O bom filho à casa torna” e, antes da derradeira experiência fora de portas, regressas ao futebol português para representar o Boavista. O que te fez voltar?

RL: Foram questões familiares. Numa consulta de rotina, descobrimos que o Francisco, o meu filho mais novo, tinha um pequeno problema cardíaco e que iria necessitar de cirurgia. Graças a Deus correu tudo bem, mas foi nesse momento que decidi voltar. Queria tê-lo feito em Janeiro, quando soubemos, mas os especialistas disseram-nos que a operação também não ia ser logo, então ainda acabei a época no Chipre. A minha vontade não era voltar a Portugal porque, quando fui para o Chipre, a ideia era manter-me no estrangeiro, mas apareceu este obstáculo. O Boavista abriu-me as portas e deu-me oportunidade de fazer lá uma temporada, que me permitiu acompanhar toda a evolução do estado de saúde do meu filho e estar presente na cirurgia. Felizmente o Francisco está bem, sem qualquer sequela ou limitação.

– Da Polónia com amor –

“Sinto que me descobri como jogador” 

BnR: Mudas-te para a Polónia no último Verão e por lá tens brilhado ao serviço do KS Cracovia. Em meio ano, estreias-te a marcar nas competições europeias, integras por duas vezes a equipa da semana e és nomeado para jogador do mês. Encontraste o clube e o campeonato ideal para as tuas características?

RL: Encontrei-me a mim mesmo, principalmente. Sinto que me descobri como jogador. As coisas começaram a correr bem antes de chegar, quando comecei a meter na cabeça que era um momento-chave na minha carreira. “Tem de ser agora. Não vou para passar férias.” Foi quando comecei a moldar o meu cérebro, a minha maneira de pensar. Estreei-me na Liga Europa e logo a marcar, no primeiro jogo do campeonato marquei logo golo…

BnR: Consegues descrever o momento em que, 13 anos depois, o Cracóvia voltou a vencer em Poznan?

RL: O treinador disse-me que já não vencíamos lá há 13 anos e para tu veres como está a minha mentalidade aqui eu disse logo “Não faz mal, a gente ganha. Não te preocupes”. Fomos lá, demos chocolate e foi incrível. Atropelámo-los completamente. A minha mentalidade neste momento está ao mesmo nível de quando estava no Penafiel.

BnR: Ainda vais para casa “na azia” quando não marcas?

RL: Ainda vou, ainda fico chateado… mas fico mesmo! Não é algo que demonstre no final do jogo, mas a minha mulher sabe. Mesmo quando ganhamos, festejo com todos e faço uma grande festa, mas se não marquei venho para casa e fico “Não marquei golo. Mas porque é que eu não marquei golo?” e fico a penar naquilo e a remoer. Mesmo quando marco e vejo que podia ter feito mais um (…) “Ca****, porque é que não fiz aquilo?”. Tem que ser assim e acredito que os jogadores top, os que estão mesmo lá em cima, pensam assim.

BnR: A Seleção Nacional é um objetivo?

RL: Não. Nem sequer penso nisso, para ser sincero.

BnR: A caminho do hat-trick no que a filhos diz respeito, é a estabilidade do seio familiar um dos pilares que edificam a carreira de um atleta?

RL: Sem dúvida. É claro que uma carreira também pode correr mal e teres estabilidade familiar, mas ajuda. Quando tens problemas em casa, acabas por transferir isso para o trabalho, acabas por estar no treino a pensar nisso e depois, aquele cinco segundos em que estás a pensar nisso, tiram-te o foco e já não estás a fazer as coisas a cem por cento. Se estiveres só preocupado em jogar futebol, vais conseguir tirar o melhor rendimento de ti.

Fonte: Facebook Rafael Lopes

BnR: E ainda manténs o ritual de falar com a tua mulher uma hora antes dos jogos?

RL: Sempre! Antes de ir para o balneário para equipar-me, falo sempre. Quero saber se está tudo bem, se ela e se os meninos estão bem.

BnR; “Deus está connosco nesta luta. Protejam-se. Estamos juntos nesta batalha. Ninguém fica para trás. Obrigado a todos os profissionais de saúde. Vocês são os verdadeiros heróis.” Este agradecimento público é teu. Num momento tão crítico para a sociedade em geral, entendes que o alcance mediático dos jogadores pode contribuir para alertar e informar as pessoas?

RL: Claro. Enquanto jornalista, também tens as tuas referências na tua profissão e é neles que vês um exemplo. Connosco é igual. As pessoas tentam seguir o que fazemos porque, para além de jogadores de futebol, também somos exemplos e veem o que fazemos. Se pusermos vídeos no Instagram a passear na rua, com os filhos… As pessoas vão olhar para isto e repetir. Se, por exemplo, publicares algo em casa a brincar com os teus filhos, em dez pessoas, vais sensibilizar umas oito. Temos de ser um exemplo a seguir. Sempre.

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão

Miguel Ferreira de Araújo

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