Estão a matar o futebol português. Dava um filme de terror, mas é a realidade. É algo que me incomoda particularmente desde sempre, mas que nos últimos anos ganhou uma repercussão nunca antes vista, fundamentalmente devido à difusão das redes sociais e da quantidade de meios que temos à nossa disposição para espalhar informação e manifestar a nossa opinião sobre os mais diversos temas.

A ideia de que o futebol português atravessa uma crise de resultados internacionais e que a culpa é da falta de competitividade e de qualidade do campeonato português é debatida e discutida praticamente todas as semanas nesses que vocês chamam de programas de debate desportivo. Aí está o primeiro erro colossal numa lista que ganha novos dados todos os dias.

A partir do momento em que a televisão portuguesa dá destaque a programas com três pessoas, sempre dos mesmos clubes, que passam duas horas a gritar uns com os outros e a chamar de corrupto e ladrão ao clube do respetivo comentador, algo de muito errado se passa, não no futebol dentro das quatro linhas, mas na forma como o divulgamos. E isto não é propaganda ao futebol. É falar de três, de casos judiciais, de alegações e polémicas que dão audiências porque contaminam um povo que gosta de futebol mas que gosta ainda mais de casos e de intrigas. A verdade é essa. A necessidade de audiência supera a necessidade de bem informar e de bem tratar aquela que é a qualidade, neste caso, do jornalismo português.

O erro começa quando definimos três clubes como grandes e os restantes 18 como pequenos. Todos os clubes são iguais. É evidente que há clubes mais fortes, com mais historial ou com maior orçamento mas o facto de fazermos esta divisão reforça ainda mais o facto de que nenhum clube se pode aproximar desse patamar de “grandeza” porque está reservado para três. Os três e o resto. Clubes como o SC Braga, que estruturalmente cresceu imenso ao longo da última década, ou como o Vitória SC, conhecido por ter uma massa adepta única e vibrante, não se conseguem aproximar do título nacional porque não lhes deixam. Se a atenção dada aos três do costume fosse a mesma a todos os outros clubes, teríamos um campeonato muito mais interessante e muito mais apelativo.

Há muito mais, infelizmente. Se há coisa que me tira do sério e que foge completamente ao meu raio de compreensão é a forma como tratam os clubes na praça pública. “Hoje joga o SL Benfica” ou “Vamos analisar ao pormenor o desempenho dos jogadores do FC Porto”.

Em Portugal enraizou-se uma cultura de veneração ao grande, que assenta em dar um grande destaque a tudo o que envolve uma equipa grande, menosprezando por completo o adversário. Leva-me a pensar que SL Benfica, FC Porto e Sporting CP são clubes portugueses e que todas as outras equipas do campeonato são estrangeiras e inimigas e não merecem o mesmo respeito e a mesma igualdade de tratamento.

Dou o exemplo real do que aconteceu no passado domingo, em Barcelos. O Gil Vicente FC venceu de forma justíssima o Sporting por 3-1 mas a abertura dos noticiários desportivos não realçou em nada o mérito na exibição Gilista. “Escândalo em Barcelos”, “Crise no Sporting” ou “Varandas contestado” foram algumas das pérolas a que pude assistir, sem surpresa. Não é de agora que quando um clube pequeno vence um clube grande, o destaque vai inteiramente para o demérito do derrotado e não para o mérito de quem venceu. E quando esse elogio surge é quase por obrigação, como se alguém lembrasse esses jornalistas ou esses comentadores que houve, efetivamente, uma equipa vencedora. Mais do que uma questão moral, é uma questão de ética profissional tratar de forma imparcial e justa todos os clubes e todos os agentes desportivos.

Sporting perdeu…ou Gil ganhou?
Fonte: Gil Vicente FC

É impensável para um clube pequeno ganhar a um grande sem que haja uma profunda crise nesse clube ou sem que haja um árbitro a inclinar o campo. A qualidade dos jogadores ou do treinador não existe porque o clube A pagou a árbitro B para prejudicar o clube C. Há clubes que perdem sempre contra um determinado grande porque os presidentes são amigos e pagam favores por trás. O jogo terminou empatado porque a relva estava num estado impraticável. Esta é a mentalidade pequena do futebol português.

Claro que não é só nas palavras nem na forma como vendemos o produto que está o mal. A Liga acarreta, para mim, a maior percentagem de culpa no assassinato diário que estão a fazer ao futebol português. Como organismo máximo de uma competição de 18 clubes, é obrigação da Liga fazer com que exista justiça e igualdade em todos os parâmetros para todos os clubes. Tudo o que a Liga faz é gerir tudo de forma a que Benfica, Porto ou Sporting não reclamem porque, um clube como o Rio Ave FC ou o CD Tondela pode ser injustiçado à vontade mas se o Benfica, Porto ou Sporting são de alguma forma injustiçados, aí já cai o Carmo e a Trindade, já há comunicados em fartura e denunciar “a podridão do futebol” e uma súbita preocupação em mudar as coisas. É tudo fachada, amigos. O que querem mudar é a forma como as coisas se desenrolam para que seja justo para eles, não para os outros clubes.

O que aconteceu ao Gil Vicente na temporada transata é um exemplo crónico de uma gestão danosa e incompetente. Ter acatado uma decisão final judicial e fazer disso algo leviano e insultuoso nunca aconteceria com um clube como o Benfica ou o FC Porto. É impensável num panorama mundial ter uma equipa de futebol profissional a jogar numa divisão inferior, sem fins competitivos porque sabia que na época seguinte iria estar na Primeira Liga. Tudo valeu por parte da direção de Pedro Proença. Tudo valeu para que o Gil Vicente tivesse de construir um plantel à pressa, formado por jogadores de todo o lado, sem qualquer conhecimento do futebol português. O campeonato que o Gil Vicente está a fazer, com essas condicionantes todas, devia ser digno de registo e, se em maio terminar nesta posição, deve ser até motivo de estudo. Mas isso nunca acontecerá. Portugal não tem futebol. Portugal tem clubite.

É recorrente, com a paupérrima campanha do Benfica na Liga dos Campeões e com a fraca prestação do FC Porto na Liga Europa até ao momento, que o discurso dos seus dirigentes e treinadores reverta para a falta de competitividade do campeonato português, tendo uma influência negativa na forma como se preparam para os jogos europeus para além de orçamentos reduzidos face a quase todos os clubes que participam nas duas maiores provas de clubes a nível europeu. Pois eu pergunto, e o Braga que fez uma fase de grupos irrepreensível e está já qualificado para a próxima fase? E o Vitória que, embora não se tenha qualificado, bateu-se de igual para igual com candidatos a vencer a competição?

Esses clubes são pequenos em Portugal, mas jogam como grandes na Europa. É mesmo o orçamento o problema? E aqui em Portugal? O orçamento não conta? Um salário de um jogador do Benfica paga duas ou três épocas a qualquer clube português. Porém, a mentalidade da clubite e da pequenez leva as pessoas a desculparem-se com ninharias quando devem reconhecer que o futebol português está mal por sua culpa.

Portugal é o país com maior disparidade nas suas receitas televisivas, pois há uma diferença abismal entre o que recebem Sporting, FC Porto e Benfica e os restantes clubes. Não sou eu que o digo. É a UEFA, esse organismo que tutela o futebol europeu. Querer falar de falta de qualidade esquecendo que não há dinheiro nos outros clubes é o mesmo que pedir uma omelete sem ovos. Benfica, FC Porto e Sporting recebem cerca de 30 milhões por época, que lhes permite, juntamente com os patrocínios e outras fontes de rendimento financeiro, ter capacidade para juntar os melhores jogadores.

A partir desse momento, os restantes clubes recebem migalhas que lhes servem acima de tudo para honrar os seus compromissos salariais. No futebol português reclama-se de falta de qualidade, mas não providenciam as equipas de meios para melhorar. Quando um clube grande empata ou perde, a culpa é da outra equipa que queimou tempo. Não apoio nenhum tipo de prática antidesportiva (e Portugal já esteve pior neste aspeto) mas é incoerente reclamar disto e daquilo quando as armas não são as mesmas. As condições de trabalho não são iguais. Há clubes que treinam no estádio onde jogam e outros têm de saltar de campo em campo para preservar a relva do seu estádio. Isto que parece retirado de uma distrital acontece na Primeira Liga e ninguém quer ver. É incomodativo e não convém levantar muito o véu.

Assistências. Estádios praticamente vazios é uma regra na generalidade dos jogos do campeonato português, com epicentro nos jogos do Belenenses SAD no Jamor, passando por vários estádios por esse país fora. Há algumas felizes exceções (principalmente se consideramos 2 ou 3 mil pessoas uma boa casa), mas a fraca quantidade de pessoas num estádio deveria ser motivo de vergonha para quem manda.

Agendar jogos para uma sexta feira ou segunda feira às 21h é o mesmo que pedir para as pessoas não virem ao estádio. O interesse em obter audiências num canal televisivo é superior ao interesse em ter pessoas no estádio a apoiar as suas equipas e a dar receita bilhética aos seus clubes. Quando uma cadeia televisiva manda numa Liga de Clubes, algo de muito errado e grave se está a passar. Porque é que ninguém se debruça sobre isso?

Vivemos numa era em que todos os meios que temos à nossa disposição deviam ser canalizados para vender o produto nacional do desporto mais mediático do mundo. Contudo, preferimos ser arcaicos, incoerentes e fazer de tudo para que apenas três clubes sejam conhecidos, para que apenas três clubes sejam protegidos, para que tudo gire à volta de três clubes. Os outros servem apenas para fazer número. Como diz o outro… “Peguem nesses três e façam um campeonato só para eles”.

Foto de Capa: CD Tondela

Artigo revisto por Joana Mendes

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