Publicidade

Futebol de formação: Resultados vs Evolução

Tiago Serrano · 6 min

Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google

Cabeçalho Futebol Nacional

O futebol de formação em Portugal tem vindo a ganhar muita visibilidade nos últimos anos. Com os grandes resultados nas selecções jovens e o número cada vez maior de atletas juvenis e juniores a irem para o estrangeiro, os nossos escalões de formação têm vindo a ser cada vez mais referenciados na Europa. No entanto, há uma questão que se coloca: o que é mais importante no futebol de formação? Os resultados ou o crescimento dos jovens atletas?

Ultimamente, tem-se vindo a aplicar cada vez mais uma expressão nas camadas jovens: formar a ganhar. Mas a maioria dos adeptos do futebol aborda essa expressão de forma superficial, pensando apenas no presente e nos resultados imediatos.

Conseguir bons resultados e conquistar títulos nas camadas jovens também tem a sua importância. Sempre defendi que implementar uma cultura e uma mentalidade de vitória nos miúdos e a conquista de títulos pode torna-los mais exigentes consigo próprios. Por outro lado, será que é a espetar goleadas todas as semanas que os jovens jogadores ganham “ferramentas” para o futebol profissional? Será que o simples facto de ganharem jogos e conquistarem troféus deixa os miúdos motivados e com o seu crescimento estimulado?

Quando se quer muito vencer jogos e conquistar troféus, será que os miúdos estão a trabalhar atributos essenciais no seu crescimento, como por exemplo, jogar em várias posições, arriscar o drible no um para um, desenvolver o pé não dominante? Vejamos as coisas da seguinte forma: para se vencer um jogo é preciso marcar golos, e se um jogador quer muito vencer e marcar golos tem de rematar com o pé que lhe dá mais garantias de fazer golo, consoante a posição em que se encontra. E por isso, é muito importante que um jogador desenvolva o pé não dominante.

Porque em cada escalão da sua equipa, existem miúdos com uma qualidade acima da média e que a partir de uma certa altura, não ganham nada em competirem contra miúdos da mesma idade e quando isso acontece, a solução passa por esses miúdos queimarem etapas, sendo promovidos para um escalão superior onde possam ter este estímulo competitivo para crescerem enquanto atletas. Como tal, faz todo o sentido que nestas situações, os jovens jogadores sejam desafiados num escalão superior, em vez de continuarem a ser um peixe grande num lago pequeno.

Outra questão a ter em conta: será que jovens jogadores que estejam mais habituados a perder e que não conquistem títulos serão automaticamente menos ambiciosos. Francamente, não me parece.

Sem ter ganho títulos na sua formação, Ronaldo tornou-se num atleta de topo Fonte: UEFA.com
Sem ter ganho títulos nacionais na sua formação, Ronaldo tornou-se num atleta de topo
Fonte: UEFA

As derrotas como aquela que a equipa de juniores do SL Benfica sofreu na final da Youth League também fazem parte do processo de crescimento dos miúdos. As derrotas na formação podem contribuir para que os jovens atletas desenvolvam a sua força mental e se tornem mais empenhados no seu crescimento para ganhar no futuro. Por exemplo, sabem quantos títulos o Cristiano Ronaldo ganhou na sua formação? Dois, e apenas a nível regional. E não foi por isso que ele deixou de evidenciar uma qualidade técnica acima da média quando chegou à equipa principal do Sporting. E não foi por isso que ainda hoje ele não se cansa de ganhar nem de trabalhar para ser o melhor.

Mas qual é o papel de um treinador das camadas jovens no meio disto tudo? Ora, ser treinador no futebol de formação é uma tarefa mais complexa do que parece, e é um cargo de muita responsabilidade. Porque, os treinadores das camadas jovens têm uma participação activa na vida dos miúdos. E como tal, para além de lançar as bases da aprendizagem, também terá de lhes transmitir os valores sociais durante o seu crescimento, para que, acima de jogadores, também se consigam formar homens.

Foto de Capa: UEFA

Mas no que é que consistem esses valores? Ora vamos por partes:

Nos escalões mais jovens (traquinas, benjamins e infantis), há que incutir às crianças o gosto pelo futebol, os valores sociais básicos na prática de qualquer desporto como o respeito pelo clube, pelo adversário, pelos árbitros, etc., e também há que saber discipliná-los, transmitir-lhes a importância de respeitar as regras e de cumprir horários. E mais do que valores sociais, também há-que saber transmitir-lhes valores colectivos, como o trabalho de equipa e o saber estar em grupo.

É nesse aspecto que a meu entender, os treinadores destas camadas jovens têm a tarefa mais dificultada, pois vivemos numa sociedade onde é cada vez mais frequente ver crianças de cinco anos fechadas em casa agarradas ao iphone ou ao tablet, em vez de irem brincar para a rua e conviverem num jardim ou num campo de futebol com crianças da mesma idade. Depois, outro aspecto que atrapalha o trabalho dos treinadores destas camadas jovens são os pais. Existem aqueles que reclamam porque o seu filho fica no banco de suplentes, existem aqueles que reclamam porque o seu filho joga numa certa posição. E também existem aqueles que são amigos do presidente ou do coordenador, ou que trabalham numa empresa que patrocina o clube e aproveitam-se dessa posição para condicionar o trabalho do treinador.

Depois, nos escalões mais avançados como nos juvenis e nos juniores, a responsabilidade dos treinadores também é muito grande. Primeiro porque aos 16 anos, o futebol já não é brincadeira nenhuma. Ali, os treinadores já estão a lidar com “homenzinhos”. Homenzinhos que começam a ganhar mais dinheiro com os contratos profissionais, que estão prestes a atingir a maioridade, que se estão a tornar mais independendentes, mas essa independência também tem o seu reverso da medalha, pois deixa os jovens atletas mais expostos aos “caprichos” que já arruinaram a carreira a muitas jovens promessas do futebol (fama, dinheiro, noitadas). Aí, compete ao treinador mante-los focados e comprometidos com o futebol e certificar-se de que as suas cabeças se mantenham no lugar.

O Benfica sagrou-se vice-campeão europeu de juniores com vários atletas que já jogam na equipa B Fonte: UEFA
O Benfica sagrou-se vice-campeão europeu de juniores com vários atletas que já jogam na equipa B
Fonte: UEFA

Outro aspecto que o treinador das camadas jovens deve ter em conta é qual o futebol mais indicado para que os miúdos possam crescer e desenvolverem-se enquanto futebolistas. Francamente, não me parece que seja com a táctica do autocarro ou do chuveirinho. O mais indicado é um futebol de posse onde se promova a possibilidade dos jovens jogadores poderem recriar-se com a bola, para que o treinador lhes possa ensinar a sair da zonade pressão, a jogar com um futebol ligado da defesa ao ataque, a jogar com a cabeça levantada, a entender os momentos do jogo, etc.

Mas afinal, qual é o meu veredicto? Ora, os resultados são importantes mas não são imprescindíveis. O mais importante é que os jovens atletas tenham sempre esse estímulo competitivo para que possam crescer e evoluir enquanto jogadores. E isso, passa muitas vezes pela promoção de jogadores juniores à equipa B para que possam mostrar o seu futebol contra “graúdos”. E é por isso que um treinador das camadas jovens (e também de uma equipa B, visto que esta é considerada a última etapa de formação) nunca podem ser avaliados e julgados da mesma forma que um treinador de futebol sénior.

Quanto ao “formar a ganhar”, creio que isso é perfeitamente possível. Com gosto pelo futebol e com a aprendizagem dos valores sociais necessários para o seu crescimento enquanto ser humano, ganharemos adultos bem formados. E com métodos bem definidos e com uma noção daquilo que se pretende dos miúdos, as vitórias aparecerão no futuro. Não só em títulos, mas também no crescimento dos jogadores. É aí que está o verdadeiro significado da expressão “formar a ganhar”.

Foto de Capa: UEFA

Tiago Serrano

Redação Bola na Rede · ver artigos

Continua a ler

as mais recentes
Fórmula 1

Antevisão GP Singapura: Max Verstappen conquista a 50.ª pole position da carreira

A ANTEVISÃO: MAX VERSTAPPEN CONQUISTA A PRIMEIRA POLE EM SINGAPURA, OS FERRARI PROMETEM DAR LUTA E A MERCEDES FICA AQUÉM DAS EXPETATIVAS Está a ser um fim de semana perfeito para Max Verstappen. Depois da vitória na corrida Sprint, o tetracampeão mundial foi o mais rápido no circuito de Marina Bay e conquistou a sua primeira pole position em Singapura e a 50.ª da carreira na Fórmula 1. Será que o Max Verstappen do final de 2025 está de volta?

Gonçalo Carneiro · 3 min de leitura
Ler a crónica
Opinião

Lamber as feridas do Dragão | Benfica x Vitória SC

Quase três semanas depois, e com muita polémica em torno da seleção nacional, as emoções do campeonato estão de volta. O Benfica é o último dos três grandes a apresentar-se nesta jornada. Após os triunfos de Sporting e FC Porto os encarnados estão obrigados a vencer para não se atrasarem ainda mais na corrida pelo título. As águias vão defrontar o Vitória SC, que tem estado a realizar um campeonato aquém das expetativas, e este poderá ser o adversário ideal para sarar as feridas provocadas no Estádio do Dragão. Marco Silva tem algumas dores de cabeça para esta partida, mas nada que não se resolva. O treinador encarnado não vai poder contar com os lesionados Daniel Banjaqui, Alexander Bah, Jaden Umeh, Jakub Kaminski e Enzo Barrenechea. Georgiy Sudakov é o único do departamento médico que está em dúvida. Clément Lenglet também não vai a jogo por estar a cumprir castigo após a expulsão frente ao FC Porto. Oportunidade para Alessandro Circati estrear-se como titular no eixo da defesa.  Com Banjaqui e Bah indisponíveis, Fredrik Aursnes irá ocupar o lado direito da defesa. Nada que o médio norueguês já não esteja habituado, pois recentemente desempenhou essa função ao serviço da sua seleção. Em relação a Sudakov, mesmo que entre na convocatória não será titular. Andreas Schjelderup deverá ocupar novamente a posição 10 atrás de Vangelis Pavlidis.

Rui Alves Maria · 5 min de leitura
Ler a crónica

Newsletter Bola na Rede

Estamos a preparar a newsletter do Bola na Rede. Deixa o teu email e és dos primeiros a recebê-la. Sem spam.

Feito. Ficas na lista e avisamos-te quando arrancar.