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Joguem à bola!

Diogo Pires Gonçalves · 4 min

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O assunto tomou grande parte das discussões pós-jornada devido ao resultado negativo do FC Porto, no passado fim de semana. A luta pelo título fica assim relançada, e dissipa as dúvidas que existissem em relação à disputa do mesmo até ao final. Importa relembrar, no entanto, que o problema não é recente. O anti-jogo sempre existiu e tem vindo a tomar grande parte dos jogos de futebol nos últimos anos.

Neste último caso, o FC Paços de Ferreira – FC Porto mereceu destaque em todos os jornais e várias análises pelos piores motivos; confirmam-se, de facto, as queixas de Sérgio Conceição em relação ao tempo útil de jogo. Num total de sete minutos de compensação na segunda parte, apenas se jogaram pouco mais de dois e meio. Ou seja, a compensação de pouco serviu. Entre “lesões”, pontapés de baliza e outras reposições de bola em jogo, mal se jogou. Ainda na primeira parte, sob um temporal gelado e bem antes do golo de Miguel Vieira, já a equipa pacense fazia um pouco de tudo para resfriar ainda mais o que se passava no terreno de jogo. No entanto, nenhuma advertência foi feita nem nenhuma ameaça de cartão amarelo foi lançada. Curiosamente, ou não, o mesmo FC Paços de Ferreira foi alvo das mesmas contestações quando recebeu um dos outros candidatos ao título, o SL Benfica. Nessa altura, os encarnados viram-se no mesmo cenário, mas com desfecho diferente; perante um golo sofrido cedo, um adversário que se queixava bastante no chão e que demorava a repor a bola em jogo, a equipa de Rui Vitória não pecou tanto na finalização e conseguiu virar o jogo para um enganador 1-3.

Luiz Phellype fez o golo dos castores, mas um bis de Jonas e um golo nos descontos de Rafa garantiram os 3 pontos aos encarnados
Fonte: FC Paços de Ferreira

O problema não está no facto de ser o SL Benfica ou o FC Porto os clubes prejudicados. Certamente que noutras situações também o Sporting CP, o SC Braga, o CD Aves ou o próprio FC Paços de Ferreira foram prejudicados por este elemento extra futebol. O antijogo será sempre condenável, seja entre que equipas for, seja em que escalão for. O problema está na mentalidade do nosso campeonato e do nosso país. E por “campeonato” e “país”, refiro-me certamente às pessoas que neles atuam, interagem e integram. Numa análise cuidada da página de estatísticas goalpoint.pt, é apresentado um gráfico que traduz na perfeição a ideia que acima refiro; a Liga portuguesa tem demasiadas paragens por lesões. Ou melhor, “pseudo-lesões”. Nas Ligas espanhola e inglesa, para muitos as melhores do mundo, assistem-se apenas a cerca de uma ou duas paragens para assistência por jogo e cerca de seis e oito por cento dos jogos têm quatro ou mais paragens. Significa isto que em Espanha e Inglaterra, quando a assistência é forçada a entrar é porque realmente é necessária, uma vez que é um acontecimento tão raro. Em Portugal verifica-se uma estatística bem diferente; assistimos a cerca de três paragens para assistência por jogo e cerca de um terço dos encontros têm quatro ou mais paragens. Na Liga francesa, campeonato que muitos adeptos portugueses desvalorizam e caracterizam como inferior ao nosso, para-se o jogo apenas duas vezes para assistência e cerca de 14% dos jogos têm quatro ou mais interrupções.

Perante tais dados, deve dar-se lugar à reflexão. Perante tais factos, deve procurar-se melhorar. Para além de desacreditar o jogo em questão, o anti-jogo desvaloriza a própria competição e retira-lhe alguma credibilidade. Numa altura em que tudo é criticado, também os clubes pequenos se defendem atacando os três grandes e os seus diretores de comunicação e dirigentes, alegando que o seu campeonato é outro e estão cá apenas pela disputa dos pontos e pela manutenção. Assim dito, com tamanha hipocrisia, dá a entender que são os clubes pequenos que mais contribuem para a visibilidade do nosso futebol e são eles os principais promotores e praticante do bom futebol. Não é verdade. Claro que jogam com as armas que têm e a mais não são obrigados. Mas por “armas” deve entender-se os seus jogadores e características especiais, os seus redutos e dimensões particulares ou os seus adeptos e o ambientem que criam para empurrar o seu clube para a vitória. Por “armas” não se deve entender a agressão, o antijogo e a provocação.

Comparação entre a nossa Liga e as principais europeias
Fonte: Instagram GoalPoint

E neste problema, todos são chamados “à palmatória”. Não só os adversários que disputam os pontos, mas também a equipa de arbitragem que dirige o encontro. Não é admissível que o cartão amarelo já não intimide o jogador a não “queimar tempo”. O cartão amarelo, uma punição integrante do jogo, serve para admoestar o jogador que infrinja, de uma forma ou de outra, as regras do jogo e isso não acontece no caso do anti-jogo. O atleta que se recuse a repor a bola com a rapidez adequada só vê o cartão amarelo para lá dos 70 minutos de jogo, muitas vezes apenas nos descontos. Assim, o “crime compensa”! Qual o mal de levar um amarelo se isso significou que o jogador pudesse empatar o cronómetro por 10, 15 ou 20 minutos e, consequentemente, levar a sua equipa a pontuar? E amarelar um atleta nos descontos é alinhar nessa estratégia de jogar o menos tempo possível porque, adivinhe-se lá, também vai gastar segundos preciosos na possível conquista de pontos.

Nem tudo depende de tecnologia, de orçamentos elevados ou de ter o vento a soprar a favor. Às vezes é apenas uma questão de respeitar o desporto que lhes dá a ganhar a vida e lhes permite fazer dela o que mais gostam. E respeito pelo futebol é o que é raro nestes dias, lamentavelmente. Grandes e pequenos.

Foto de capa: FC Porto

Diogo Pires Gonçalves

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