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“É para falar sobre o quê?”, perguntou. “Futebol de A a Z”, respondemos. Não mentimos, ainda que nos tenha faltado uma ou outra letra. André Pinto, Benfica, Capdevila, David Luiz, Emerson, Fábio Coentrão, Gaitán, Hulk, Jesus, Luisão, Mendes, Nuno Gomes, Peter Canyon, Quarto do Aimar, Rio Ave, Sampdoria, Tarantini, Vítor Pereira, Zé Gomes. Em exclusivo para o Bola na Rede, eis Fábio Faria.

– Filho de peixe sabe nadar –

“Coentrão dizia que eu ia ser um craque”

Natural de Vila do Conde, passaste a tua infância nas Caxinas. Se tivesses feito o 7-1 de livre direto naquele Padroense x Rio Ave, qual era a probabilidade de nunca mais por lá apareceres?

[risos] Era um jogo de tudo ou nada para o Rio Ave, porque para subirem de divisão tinham de nos ganhar por uma diferença de sete golos, uma vez que estavam em igualdade pontual com o então segundo classificado, mas com uma diferença de seis golos negativos. Recordo-me de que os seus adversários diretos acabaram o respetivo jogo cinco minutos mais cedo e o Rio Ave precisava de mais um golo para ficar em primeiro; conseguiram-no, mas no último minuto houve um livre a nosso favor e era eu o encarregado de marcá-lo. Quando vou para bater a bola, o Fábio [Coentrão] – que já tinha aquele feitio que todos conhecem, aquela raça, aquela vontade de ganhar sempre – chegou ao pé de mim e ameaçou-me, mas é algo normal no futebol, onde fazemos tudo para poder ajudar o nosso clube. Por acaso a bola foi ao lado, mas se entrasse ia ser complicado para mim, ainda por cima sendo eu da terra. Curiosamente, no ano seguinte, sou dispensado pelo FC Porto e vou para o Rio Ave.

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Onde voltas a encontrá-lo, desta feita como colega.

Exatamente. Se hoje já não somos colegas no futebol, somo-lo no pádel: todos os dias me liga para irmos jogar e mantemos uma amizade desde esses tempos. Já agora, conto-te o início da nossa relação.

O palco é teu.

O Fábio já me conhecia dos dois jogos contra o Padroense, em que as coisas me tinham corrido bem. Quando os diretores do Rio Ave souberam que fui dispensado, ligaram-me para ir fazer captações e fiquei logo; como vinha do FC Porto, era normal. No meu primeiro ano de juvenil no clube, o campeonato correu-me tão bem que subi diretamente para os juniores, onde o reencontrei – apesar de já treinar com os seniores, vinha jogar por nós – e comecei a destacar-me: era sempre o segundo melhor jogador da equipa, só atrás dele; limpava tudo lá atrás e foi nessa altura que ele começou a ficar com uma boa impressão minha. No final da época, assinei contrato profissional com o Rio Ave, comecei a treinar na equipa principal e lembro-me de, logo a seguir, ir escolher o número para a camisola: o 23 de Michael Jordan, o meu ídolo. A partir daí andava sempre com o Fábio e lembro-me de ele dizer aos colegas que eu ia ser um craque e que se fosse bem trabalhado podia ser um grande central. Sempre me deu muita moral e temos uma relação forte até hoje.

Oriundo de um núcleo piscatório, filho de peixe tem de saber nadar. Qual a influência do teu pai, Chico Faria, no caminho que escolheste?

Nenhuma. Toda a gente dizia que ele era um craque, mas que não queria nada com aquilo: que era um preguiçoso, nunca treinava e só queria jogar. O meu pai, apesar de ter feito o seu percurso quase todo na Primeira Liga e ter ganho uma Taça de Portugal, acabou a carreira de uma forma que não gostou: com salários em atraso. Como ficou magoado com o futebol, fez tudo para que eu não passasse pelo mesmo: meteu-me a jogar basquetebol aos cinco anos – e joguei até aos 12 -, mas quis o destino que a minha vida passasse pelo futebol. Ele só começou a olhar verdadeiramente para a minha carreira quando assinei contrato profissional com o Rio Ave; até então não me dava moral e dizia-me “Não jogas nada. Dedica-te mas é aos estudos”. A partir dessa altura começou a dar-me conselhos e a ser mais presente, apesar de sempre ter ido ver os jogos todos. Desde então foi sempre o meu braço direito.

Facebook Fábio Faria

O teu pai que, como tu, é um fervoroso adepto do Benfica. É verdade que choraste quando ele foi a Vigo?

É verdade. Eu era doente pelo Benfica desde pequenino e era para ter ido com ele, mas à última da hora não conseguiu arranjar bilhete para mim e foi com amigos. Recordo-me de ver o jogo em casa e o Benfica perder 7-0; chorei tanto (…) porque sabia que no dia a seguir, na escola, ia ser gozado.

Tens 1,90m e aos olhos dele continuas a ser o “baixinho”.

Sim, é uma alcunha pela qual ele sempre me chamou e, curiosamente, um dos meus melhores amigos, o André Pinto, também me trata por esse nome, apesar de só ter mais um ou dois centímetros; a ele o meu pai chama-o “fraquinho”, porque nós fizemos a formação juntos no FC Porto e andávamos sempre um com o outro. É uma forma carinhosa de me tratarem. Outro gesto terno era uma forma muito especial de me chamar através de um assobio: quando eu jogava, e ele via que as coisas não estavam a correr bem, bastava-lhe dar aquele assobio, que eu olhava para ele, concentrava-me e as coisas começavam a correr melhor. Os meus pais foram sempre pessoas importantes: a minha mãe mais galinha, o meu pai mais distante, mas sempre presentes.

Fonte: Facebook Fábio Faria

Menos amor havia nos treinos do FC Porto se alguém levasse calções vermelhos.

Isso foi quando fui às captações! O meu pai tinha uma escolinha de futebol e o equipamento eram as cores de Vila do Conde: camisola amarela e calções vermelhos. Como joguei basquetebol durante sete anos, só tinha calções dessa modalidade, então levei os vermelhos da escolinha do meu pai e uma camisola branca para não ir todo de vermelho; só que estas eram as cores do Benfica! Mas não fui numa de provocar, nem de chamar a atenção. Quando ia a entrar para o campo, um diretor chamou-me logo “Ó, onde é que vais com esses calções?”. “São os únicos calções que tenho”, disse-lhe. “Não, não, não! Vai ali falar com o roupeiro; se não tiver outros calções não podes treinar”. Foi aí que percebi que a mística do FC Porto é transmitida logo desde pequenino. Lembro-me que, mais tarde, o meu pai ofereceu-me no Natal umas Predator todas vermelhas, iguais às do Simão Sabrosa, e quando volto aos treinos, cheio de estilo com umas botas novas, não me deixaram treinar e tive de pintá-las de preto.

O roupeiro foi teu amigo.

Arranjou-me uns calções azuis e lá fui treinar, muito envergonhado porque nunca tinha jogado futebol e só sabia o básico. Era muito maior em relação aos outros – eu e o André Pinto – e essa semana correu-me lindamente, porque apesar de taticamente andar perdido em campo, tinha qualidade técnica. O treinador achou que podia evoluir, gostou da minha altura e decidiram assinar comigo.

Qual é o processo de alguém que começa a formação a extremo-esquerdo e se afirma como defesa?

Foi muito difícil. Comecei a extremo-esquerdo, fui baixando para “10”, depois meio-campo, mas nunca fui defesa. No meu primeiro ano de Padroense – o FC Porto utilizava este clube para ter duas equipas a competir na Nacional e para estarmos mais preparados quando voltássemos – o lateral-esquerdo foi chamado à equipa principal do FC Porto e o treinador meteu-me nessa posição; como era esquerdino… fiz uma época muito boa, fui o melhor marcador da equipa. Apesar disto, fui dispensado e vou para o Rio Ave para jogar a ponta-de-lança. Passados dois ou três dias, vamos fazer um jogo de treino e o treinador foi falar comigo e disse-me que ia jogar a central. Fiquei com uma azia… então todo cego, todo maluco, fiz tudo para que as coisas corressem mal, sabes? Mas tudo me saía bem: queria dar cuecas dentro da área e saíam-me bem, tudo me saiu bem. No final do jogo o treinador disse-me “Fábio, não gostei daquelas coisas que andaste a fazer, mas acho que se fores bem trabalhadinho podes ganhar muito dinheiro naquela posição”. E eu “Mister, desculpa lá, mas a central não quero jogar. Se não jogar a ponta-de-lança, não jogo em mais lado nenhum” e ele ficou doente comigo. Cheguei a casa e disse “Mãe, não quero jogar mais futebol” e estive uma semana sem treinar. Até que o treinador ligou à minha mãe, fomos a uma reunião no Rio Ave e a minha mãe gostou da forma como o treinador explicou a sua opção e fez-me um ultimato “Fábio, ou jogas a defesa-central ou não jogas mais futebol e é só escola”. Entretanto, as coisas começaram a correr bem, fui chamado à Seleção Nacional passados apenas dois meses, comecei e treinar com os juniores e foi tudo muito rápido. Quando assino contrato profissional com o Rio Ave, aparece uma proposta do FC Porto para voltar – achavam que tinham cometido um erro, não sabiam que ia evoluir tão rápido -, mas não aceitei, preferi ficar em Vila do Conde e o resto é história.

Nas camadas jovens cruzas-te com o já falado André Pinto, mas também com Candeias, Ukra ou Wilson Eduardo. Tens alguma história com algum destes que possas partilhar?

Nós dávamo-nos muito bem, fazíamos muitas asneiras, mas histórias (…) lembro-me de que, quando estava no segundo ano de iniciados no FC Porto, o nosso treinador era o Vítor Pereira.

Como foi ser orientado pelo mister Vítor Pereira?

Adorei! Tinha uma personalidade muito vincada e era um treinador muito exigente, que inclusive me mandou a mim e ao André Pinto para a equipa B, porque achava que nós éramos altos, mas não tínhamos estilo nenhum de jogadores – até foi um bocado mau, porque o André tinha rejeitado uma proposta para ir para o Sporting -, mas passado uma semana chamou-nos de volta e fizemos o campeonato inteiro a titulares. Guardo muito boas memórias do mister. Queres saber uma curiosidade?

Chuta.

O ídolo do Vítor Pereira era o meu pai. Como o mister é de Espinho e o meu pai jogou lá durante dois anos, ele dizia-me muitas vezes “O teu pai é o meu ídolo! Adorava vê-lo jogar!”. Começámos a ter uma amizade, porque ele tinha uma relação muito boa com os jogadores. Tinha quase a certeza de que ele ia conseguir singrar no futebol.

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