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Antigo jogador do Boavista e do Vitória SC, Paulo Turra é, atualmente, um dos treinadores adjuntos de Luiz Felipe Scolari, tendo sido o seu braço direito no Guangzhou Evergrande e no Palmeiras. Fiel aprendiz de Felipão, que carinhosamente chama de professor, explica a importância dos treinadores adjuntos. Revela-se preocupado com a robotização que o talento do jogador brasileiro está a sofrer e fala-nos das suas ideias de jogo. Aos 46 anos, sem nunca esquecer as peripécias vividas no Porto e em Guimarães, diz ainda ter muito que aprender, mas não esconde o desejo de ser treinador principal.
– A nova peça no xadrez do Boavistão –
Bola na Rede (BnR): Vamos começar pela sua passagem em Portugal enquanto jogador. Chegou ao Boavista em 2001/2002 como é que surgiu a oportunidade de vir jogar para a Europa?
Paulo Turra (PT): Eu estava no Palmeiras no ano de 2000. Tínhamos perdido a semifinal da Libertadores para o Boca Juniors e o meu contrato com o Palmeiras acabou em junho de 2001. O Palmeiras fez-me uma proposta. Naquela época ainda existia a lei do passe. Recebi a proposta de renovação do Palmeiras. Não aceitei e fiquei a treinar em separado. Nessa altura, já sabia que tinha o Boavista a observar‑me. Um dia, o pessoal do Palmeiras chamou-me para me dizer que havia um olheiro de Portugal que me queria ver a treinar. Eu, prontamente, aceitei, porque eu sabia do interesse do Boavista. Quem estava aqui no Brasil para me ver treinar era o Jaime (Alves) que foi lateral do Boavista há muito tempo atrás. Ao sair do treino, o pessoal disse-me para ir à sede do clube, no estádio do Palmeiras. Fui lá, entrei em contacto com o meu empresário, falei com o presidente e acertámos tudo. O Boavista era o atual campeão português e tinha vaga garantida para a fase de grupos da Liga dos Campeões. Cheguei, fui apresentado e incorporei-me na equipa, que já estava a treinar.
BnR: Vir jogar para a Europa era o seu principal objetivo?
PT: Na verdade, quando fui para o Palmeiras não tinha esse objetivo. Só que fui abrindo a mente para outras oportunidades, fui observando o futebol de mais alto nível e, por incrível que pareça, no ano em que o Boavista foi campeão e eu estava no Palmeiras, acompanhei o Campeonato Português por um canal já extinto que passava os jogos aqui no Brasil. Como estava no topo do campeonato, passavam muitos jogos do Boavista. Fui-me familiarizando com o Boavista, com a camisola axadrezada, com os comentadores a dizerem que era a sensação… Por coincidência, foi o clube para onde eu acabei por ir. Com o passar dos jogos no Palmeiras, fiquei com vontade de jogar no futebol europeu. Nas concentrações, à tarde, acompanhava os jogos da Liga dos Campeões que, naquela época, já era uma competição muito boa e que hoje é ainda mais. Isso foi aguçando a minha vontade.
Paulo Turra, ex-zagueiro, agora será auxiliar do @Palmeiras. Aqui uma foto do beque sendo marcado por um holandês qualquer, um tal Van Nistelrooy =D pic.twitter.com/Zr7BBYA4dH
— Francisco De Laurentiis (@f_delaurentiis) July 27, 2018
BnR: Como era o Paulo enquanto jogador?
PT: Era um defesa-central muito prático. Se eu jogasse hoje, teria dificuldade. Naquela época, eu era um jogador inteligente, porque eu não tinha muita qualidade técnica, mas tinha muita raça, velocidade, bom posicionamento…
BnR: Um jogador à imagem do Boavista daquela altura…
PT: Isso! Hoje, acho que os centrais jogam muito no risco. Tanto os centrais como os guarda-redes jogam muito na roleta russa por causa dessa moda, que existe no futebol mundial, de sair a jogar a partir de trás a todo o instante.
BnR: Enquanto treinador, gosta disso?
PT: Eu gosto de sair a jogar de trás quando tenho possibilidade de o fazer sem risco. Posso sair a jogar com sucesso várias vezes, mas, se erro uma, tenho 95% de chance de sofrer golo. Temos que ter um equilíbrio nessas ações. Acompanhei o regresso do futebol português e fiquei surpreendido pela negativa com golos que nascem de erros de guarda-redes e centrais a jogarem por dentro, a quererem sair a jogar a toda a hora. Há momentos em que a bola vem e o guarda-redes tem que dominar e jogar longo, o central a mesma coisa. Por isso, acho que hoje eu teria dificuldade. Eu jogava muito seguro, prático e eficiente.
Bnr: Hoje, quando tem que decidir sobre se a sua equipa vai sair a jogar a partir de trás ou não, olha para as características dos seus jogadores do setor mais recuado e avalia se eles têm capacidade para o fazer ou depende daquilo que o adversário oferece, isto é, se pressiona alto ou não?
PT: Jogo com as duas situações. Se os meus quatro defesas, o meu guarda-redes e os meus dois trincos têm qualidade suficiente para sair a jogar, treinaria situações onde, com segurança, o pudesse fazer. Estudaria também a equipa adversária. Por exemplo, se hoje eu fosse enfrentar o Flamengo, dificilmente eu iria sair a jogar de trás. Posso até tentar, mas é uma, duas, três, à quarta vez eu vou perder a bola e, contra uma equipa como o Flamengo, tenho 99% de hipótese de sofrer golo, porque são jogadores com essa característica e têm muita qualidade. Depende muito da qualidade dos teus jogadores, mas também das características e qualidade dos jogadores adversários.
Bnr: O Paulo Turra treinador contrataria o Paulo Turra jogador?
PT: Contrataria! O Paulo Turra jogador, na sua boa fase, tinha, como disse, muito bom posicionamento, jogava sempre sério, com responsabilidade, tinha boa velocidade e tinha bom jogo aéreo. Hoje, dificilmente vemos se um defesa-central é bom cabeceador ou não, porque o futebol mudou um pouco. Eu dou-te um exemplo, o Campeonato Alemão. O jogar deles é protocolar. A defesa, independentemente do adversário, joga em bloco alto. Bola longa nas costas da defesa e o atacante, de frente e com mais velocidade, normalmente, que os defesas, e é golo a toda a hora. Então, hoje, não tens condições de ver se um central tem bom cabeceamento ou não, exceto nas bolas paradas, principalmente nos cantos, mas é difícil. Não tenho dúvida nenhuma, eu contrataria o Paulo Turra e, ao mesmo tempo, fazia-o evoluir em lances em que ele chutava para a frente por chutar. Ensinava-o a direcioná-la.
Bnr: Se se tivesse que comparar a um jogador da atualidade, qual seria?
PT: Gustavo Gómez, que foi nosso defesa-central no Palmeiras. Ele tem mais qualidade do que eu, mas em termos de raça, determinação, recuperação… eu comparo-me muito a ele.
“O Boavista é o quarto grande”
BnR: Entrou num Boavista treinado por Jaime Pacheco e que tinha acabado de conseguir o incrível feito de ser campeão nacional. Tal como referiu, também ia jogar a Liga dos Campeões. Que memórias guarda desse tempo?
PT: Nesse tempo, o Boavista já jogava um futebol moderno. Era criticado, porque era um futebol muito duro e viril, de muito contacto, mas tinha grandes jogadores. Naquela época, os dois extremos do Boavista acompanhavam os dois defesas laterais do adversário. Hoje, vemos muito isso acontecer. Por exemplo, vês um Vinícius Júnior ou um Rodrygo no Real Madrid a fazer esse trabalho. O Boavista fazia isso em 2001/2002 com os extremos Duda, Martelinho… Era uma equipa que, por estar há muito tempo junta e com o mesmo treinador, tinha um padrão de jogo bem definido. Foi um modelo de jogo com muito sucesso, porque ser campeão português, num país como Portugal, com três grandes clubes, chegarmos à segunda fase da Liga dos Campeões, defrontando Borussia Dortmund, Liverpool, Manchester United, Dínamo Kiev e Nantes, não é qualquer equipa que consegue obter sucesso. Mais, no ano seguinte, chegámos às meias-finais da Taça UEFA, onde perdemos com um golo aos 79 minutos do jogo da segunda mão frente ao Celtic. O Boavista tinha jogadores extremamente técnicos, com qualidade e, acima de tudo, identificavam-se com o clube.
BnR: Falou no acompanhamento dos laterais. É por isso que os sistemas de três centrais têm pegado tanto pela Europa fora?
PT: É mais uma moda do futebol moderno, tal como marcar em bloco alto. Aqui, no Brasil, ainda há poucas equipas a jogar com três centrais, mas em breve isso vai acontecer. No Brasil temos um problema: tudo o que vem de fora é bom, o que é feito aqui não é bom. Temos a mania de copiar. É por isso que no Brasil não estão a aparecer tantos bons jogadores, particularmente atacantes com velocidade, com habilidade, com improviso e com discernimento, porque os treinos que são dados durante a semana são todos burocráticos. Eu e o professor Felipe (Scolari) não fizemos isso. Nós priorizamos, do meio campo para a frente, toques livres para os nossos avançados, porque eles têm que ser instigados a driblar, com responsabilidade, e a decidir. Não é simplesmente robotizar um jogador. O Brasil sempre foi conhecido pela qualidade individual, pelo improviso, pela técnica e pelo jogar bonito, mas nos últimos tempos estamos a robotizar. Voltando aos três centrais, não me surpreende. Daqui a uns anos vai ficar para trás. São momentos no nosso futebol.
BnR: Ainda no Boavista, que histórias tem para contar desse tempo?
PT: Muitas. Tenho guardados todos os recortes de jornais, que falavam de mim ou da minha equipa, do tempo em que estive no Boavista e no Vitória de Guimarães. Lembro-me que quando fomos jogar pelo Boavista contra o Liverpool, na estreia na Liga dos Campeões, foi a 11 de setembro de 2001… atentado terrorista… World Trade Center… Estávamos em Liverpool e a minha irmã liga-me: “Paulo, vocês estão bem? Ligue a televisão!” Depois percebi o que estava a acontecer. Empatámos esse jogo 1-1 e o nosso voo de volta teve que ter uma autorização especial do governo inglês, porque o espaço aéreo estava fechado. Lembro-me também que quando fomos jogar contra o Borussia Dortmund apanhei o Jan Koller, um ponta-de-lança com 2,13m e que calçava o 53. O Jaime Pacheco disse que os centrais iam ter que calçar saltos altos para o poderem enfrentar [risos]. Outra, durante um treino, na semana em que íamos jogar a meia-final da Taça UEFA em Glasgow, fraturei o nariz. Disse que ia jogar com o nariz partido. O doutor disse que podia fazer pior se jogasse, então fui até Lisboa e fiz uma máscara à minha medida. No dia do jogo, sou informado de que o árbitro podia não autorizar a máscara e eu disse: “Eu jogo com ou sem máscara!”. No fim, acabou por autorizar e eu joguei com ela.
Paulo Turra marcando Henrik Larsson
Celtic x Boavista
2001 pic.twitter.com/J3uhi5A0A6— Passagens Esquecíveis (@esqueciveis) January 12, 2020
BnR: Em 2003/2004 é treinado por Erwin Sánchez com quem já tinha partilhado o campo. Como foi essa adaptação?
PT: Foi uma grande surpresa. Ele era acima da média, dentro e fora de campo. Dentro de campo, deve ter sido o melhor “10” com quem joguei. Era um líder, apesar de não ser o capitão. Fora de campo era espetacular. Sendo treinado por ele, tínhamos muita intimidade. Ele ouvia muito a opinião dos jogadores.
BnR: Jogar nos axadrezados foi o melhor momento da sua carreira?
PT: Foi. No Palmeiras também tive bons momentos. No Caxias conquistei um título inédito. Tive vários bons momentos, mas no Boavista foi um momento especial. Identifico-me muito com o clube e, hoje em dia, ainda tenho muitos adeptos que me contactam.
BnR: Depois, em 2004/2005, muda-se para o Vitória de Guimarães. Fale-me dessa experiência.
PT: O Vitória de Guimarães era o maior rival do Boavista. Acabei por ir para o Vitória de Guimarães por uma situação inusitada. Quando cheguei lá, os meus companheiros (outrora adversários) disseram-me que ficaram com muita raiva quando souberam que eu ia para o clube, porque eu era muito chato quando jogava contra eles. Eu tinha a minha maneira de jogar. Gritava e entrava firme. Contra o Vitória de Guimarães, por ser um clássico, os nossos jogos eram quentes. Quando fui para lá eles achavam isso. Tínhamos um grupo muito forte, com adeptos muito apaixonados e muito fiéis, foi um grande ano.
BnR: Tinha contrato por um ano com outro de opção. Porque não quis renovar?
PT: Era opção do presidente. Tivemos essa grande campanha, íamos disputar a Taça UEFA no ano seguinte, mas o presidente resolveu fazer uma reformulação no plantel, incluindo o treinador. Quem acabava contrato foi dispensado. A equipa tinha provas dadas e não tinha que ser reformulada, pelo contrário, devia ter sido dada continuidade. A prova de que ele estava errado é que, no ano seguinte, o Vitória de Guimarães desceu de divisão.
BnR: Quem é o quarto grande de Portugal?
PT: Pelo histórico que tem, o Boavista é o quarto grande. O Vitória de Guimarães e o Braga estão numa ascensão muito boa, mas o Boavista foi campeão português, disputou a Liga dos Campeões contra grandes equipas… Por mérito, o Boavista hoje é a quarta equipa, mas não vou tirar mérito ao Vitória de Guimarães e ao Braga que têm duas massas associativas muito fortes. É bom para o futebol português ter equipas que façam frente aos três grandes e que tenham bons desempenhos nas competições europeias.
– O aprendiz de Scolari –
“O professor Felipe é uma marca”
BnR: Como surgiu a oportunidade de ser treinador?
PT: Em 2004, quando estava no Vitória de Guimarães, já pensava em ser treinador. A partir daí, fui-me preparando. Disputei, em 2007, o meu último campeonato na Série B brasileira pelo Avaí. Em junho de 2008, iniciei a minha carreira de treinador como adjunto no Novo Hamburgo. Fui fazendo cursos e hoje sou treinador com licença PRO CBF/FIFA.
BnR: De onde veio a ligação com Luiz Felipe Scolari?
PT: A minha ligação com o professor Felipe veio desde 2000, quando eu jogava no Palmeiras. Foi ele e o Murtosa (adjunto de Scolari à época) que me levaram para lá. A partir daí sempre mantivemos contacto. Fui-lhes mostrando treinos, fomos trocando ideias e quando eles foram para a seleção portuguesa perguntaram-me pelo Ricardo, pelo Petit, pelo Jorge Silva, pelo Bosingwa, pelo Frechaut… vários jogadores do Boavista que acabaram por ser convocados para a seleção portuguesa. Eles ligaram-me antes para saber como eram esses jogadores. As informações que eu passei foram confirmadas por eles. Os jogadores foram para a seleção e deram-se muito bem. Inclusivamente, quando eu jogava no Vitória de Guimarães, ligaram-me a perguntar pelo Alex. Quando eu cheguei ao Vitória, ele era extremo-direito. Por necessidade, o mister Manuel Machado colocou-o a defesa-direito e o Alex gostou. No final da temporada, a seleção portuguesa ia ter dois jogos. O Murtosa ligou-me para saber do Alex. Eu disse: “Murtosa, pode levar que eu assino em baixo”. Levaram‑no e o Alex jogou bem nos dois jogos. Depois, ligou-me a agradecer as indicações que eu dei e foi uma grande honra receber esse telefonema. Por isso, a minha ligação com o Murtosa e com o Felipão vem de há muito tempo. Em outubro de 2016, o professor estava na China e recebi um e-mail dele a convidar-me para treinar na China, no Guangzhou Evergrande, com ele, e prontamente aceitei.
BnR: Como são divididas as tarefas entre os elementos da equipa técnica?
PT: Todas as equipas técnicas têm o seu protocolo. Vou falar no nosso caso. Na nossa equipa técnica, o professor é manager. Numa semana com seis treinos ele dá dois.
BnR: Que tipos de treinos são esses?
PT: Ele dá os treinos de bolas paradas, tanto ofensivas, como defensivas, com transições e dá o treino tático do dia antes do jogo. Os restantes treinos sou eu e o Carlão (Carlos Pracidelli). Ele fica a observar fora ou dentro do campo. Se ele vê que algo não está a correr bem intervém ou chama-me a mim ou ao Carlos Pracidelli para termos atenção a algum pormenor. Eu faço o planeamento dos treinos e explico à equipa técnica o objetivo dos mesmos, tendo em conta o adversário que vamos defrontar e aquilo que fizemos mal no último jogo. O professor analisa e vê se seguimos aquilo ou não. É sempre ele que toma a decisão final.
Pracidelli e Paulo Turra já chegaram na Academia de Futebol e estão acompanhando o treino.#AvantiPalestra #DiaDeTreino pic.twitter.com/g7Ar8evvQQ
— SE Palmeiras (de 🏡) (@Palmeiras) July 27, 2018
BnR: Scolari corrige os jogadores, mas também dá dicas aos seus adjuntos.
PT: E mais, ele dá-nos total autonomia. Para teres uma ideia, quando ele assumiu, em 2018, o Palmeiras, inicialmente, eu e o Pracidelli é que controlámos os trabalhos, porque ele estava em Portugal a resolver uns problemas. Ele confia muito na equipa técnica. Aprendemos diariamente.
BnR: Ser treinador adjunto é uma função de extrema importância?
PT: Com certeza! Isso não acontece só com o professor Felipe. Hoje, o treinador adjunto não serve apenas para carregar cones, trocar as balizas de um sítio para o outro e ir buscar as bolas. O trabalho do treinador adjunto é importantíssimo.
BnR: No meio disso tudo, que espaço é que o treinador adjunto tem para implementar as suas ideias? O treinador adjunto tem que aceitar cegamente o que o treinador principal diz ou há espaço para debate?
PT: Com a evolução do futebol, é importante um treinador não ser refém de apenas um modelo de jogo. Eu gosto de verticalidade, sou fã do Liverpool e do (Jürgen) Klopp. Inclusivamente, o Palmeiras de 2018 era muito parecido com o Liverpool: uma equipa vertical, que defendia bem e marcava pressão em bloco alto. Se eu fosse para uma equipa e os jogadores não tivessem essas características, eu tinha que mudar o meu modelo de jogo. Eu e o professor vemos futebol muito parecido e é por isso que as minhas ideias coincidem muito com as dele, principalmente de treino. Dentro disso, eu não tenho que concordar com 100% do que ele diz. Nós debatemos muito. No entanto, a palavra final é sempre do professor Felipe. Após o debate, se ele disser que vai ser assim, eu compro a ideia e vamos até ao fim.
Felipão e seus auxiliares Paulo Turra e Carlos Pracidelli antes do jogo conversando com os analistas Gustavo Nicoline e Rafael Costa. Técnico disse que a ideia de usar três zagueiros no segundo tempo veio do estudo sobre o Colo-Colo. A foto é de Cesar Greco. pic.twitter.com/ZjaYm1ybyC
— Thiago Ferri (@b_ferri) September 21, 2018
BnR: Qual é o peso atribuído à componente física, tática, estratégica e técnica ao longo da preparação de um jogo?
PT: Aqui no Brasil é complicado. Uma equipa de alto nível, que dispute todas as competições, tem quatro treinos por semana. Dentro disso, colocamos a parte tática no primeiro treino na semana. Ressalvo que todo o tipo de treino onde existe golos e duelos dividimos o campo, independentemente do tamanho, em dois: ataque e defesa. No ataque, há sempre liberdade de toques. Não restringimos o atacante. Na defesa, montamos sempre uma linha de quatro, mesmo em jogos em campo reduzido, e assim já trabalhamos essa componente. Assim, colocamos o aspeto tático em todo o tipo de treino.
BnR: Ou seja, essas componentes estão interligadas, não há uma separação…
PT: Não, não há.
BnR: É verdade que os jogadores se sentem mais à vontade com o treinador adjunto do que com o treinador principal?
PT: É. O professor Felipe é muito gente boa no treino, mas ele hoje é uma marca. Uma coisa é entrar o Paulo Turra naquela porta, outra é entrar o Luiz Felipe Scolari. O pessoal é capaz de se levantar [levanta-se]. Dá um impacto diferente. No treino dado pelo Paulo Turra, o jogador vai-se sentir mais na liberdade de questionar, dar ideias e até discordar. Com o professor Luiz Felipe, o jogador não tem essa liberdade. Acho que até é bom eles terem esse respeito a mais, não que não o tenham comigo. Quem tem que se “desgastar”, elogiar e bater palmas sou eu e o Pracidelli que somos os auxiliares. O professor está num patamar que, quando ele intervém, os jogadores sabem que a coisa está feia.
– Um teste à prova de fogo –
BnR: Em 2017 vai para o Guangzhou Evergrande e tem a primeira experiência com Scolari. O que conhecia da equipa?
PT: O que eu conhecia era o que o professor me dizia e que eu via em jogos que acompanhava pelo Youtube. Era uma boa equipa, taticamente tinham alguma dificuldade, mas estavam a melhorar. Tinham lá jogadores brasileiros que eu conhecia. Foi tranquilo para mim. O mais difícil foi decorar o nome dos jogadores, levou uns 20 dias.
BnR: Foi tranquilo, porque estava acompanhado de pessoas da sua confiança, deduzo.
PT: Sim. Para teres uma ideia do nível de confiança, no jogo contra o Shanghai SIPG, a equipa do Hulk, do Oscar e do treinador português, o Vítor Pereira, o professor Felipe estava castigado. Eu pensei que o Murtosa ia assumir os treinos e o jogo e que eu o ia auxiliar, mas ele disse-me “quem vai trabalhar no jogo vais ser tu”. Estava com eles há apenas 40 dias… Foi isso que aconteceu. Preparei todos os treinos da semana e, inclusivamente, o segundo golo que fizemos nasce de uma jogada que eu desenhei. Ganhámos o jogo 3-2.
BnR: Viu isso como um teste?
PT: Com certeza! Foi um teste à prova de fogo. Ainda por cima, vínhamos de uma derrota e o jogo era contra o nosso principal rival pelo título.
BnR: Quais são as principais diferenças entre o futebol asiático e o brasileiro e até europeu?
PT: São bastantes. A China, particularmente, está à procura de uma identidade que eles ainda não têm. No momento do boom do futebol na China, em que o Governo resolveu investir para qualificar o futebol, eles foram buscar grandes jogadores e grandes treinadores para divulgarem o futebol chinês. O segundo passo deles foi limitar os estrangeiros. Hoje, o que eles estão a fazer é colocarem jogadores sub-23 a jogar e a investir nas estruturas. Tenho um amigo meu brasileiro que está lá a treinar na formação e que tem um centro de treino só para as camadas jovens. Nenhum clube de primeira divisão do Brasil tem um centro de treinos só para a formação. Ainda assim, continuam à procura de uma identidade dentro de campo. Eles estavam muito virados para o mercado espanhol. Muitos treinadores espanhóis da formação eram espanhóis, inclusivamente, o Guangzhou tinha parceria com o Real Madrid. Hoje, viram que o futebol europeu preza muito a parte tática na formação e não lapida muito a parte individual. Agora, eles querem-se voltar mais para o lado sul-americano só que não sabem que aqui, no Brasil, por exemplo, a formação está assim também. O Brasil tem uma característica única que é a individualidade, o drible, a finta e o improviso. Isso tornou o jogador brasileiro uma referência, mas hoje já não é assim, porque estamos a robotizar o jogador de futebol na sua formação.
BnR: Acha que isso está a causar problemas à seleção brasileira?
PT: Não tenho dúvida nenhuma que esse é um dos maiores problemas do futebol no Brasil! O jogador tem que ser incentivado a driblar. Agora, o jogador brasileiro chega a profissional e não sabe driblar. Um atleta chega à área e passa a responsabilidade a um colega. A área é amiga do avançado. Nenhum defensor do mundo vai tentar desarmar o atacante que está com bola dentro da área, porque pode fazer penálti. O futebol brasileiro está num dilema que não passa.
Paulo Turra: O homem de confiança de Felipão na China: https://t.co/1vHZZsXiSu pic.twitter.com/e9c6qrYAEE
— China BR Futebol (@chinaBRfutebol) August 7, 2017
BnR: Tiveram tanto sucesso na China, porquê sair?
PT: Em setembro de 2017, o professor reuniu com a equipa técnica e comunicou que não ficaria mais no Guangzhou, porque ele teve uma reunião com o dono do clube e com o CEO e dentro do que eles conversaram e do desgaste de três anos longe da família, chegaram à conclusão que o ciclo se encerraria no final do campeonato. Foi mútuo acordo. Quando faltavam dois jogos para acabar o campeonato, o CEO chamou-o novamente para falarem da possibilidade de o professor mudar de ideias. Inclusivamente, propuseram‑lhe pegar na formação e atrair treinadores brasileiros para irem para a China, enquanto ele continuava na equipa principal, mas o professor disse que a decisão já estava tomada, apesar de gostar da ideia e admitir, no futuro, essa possibilidade.
– O Palmeiras à Liverpool quebrou –
BnR: Depois, em 2018, agarram num Palmeiras que estava em sexto lugar, a oito pontos do primeiro, e acabam campeões com uma vantagem de oito pontos… Como foi esse trajeto?
PT: Foi um trajeto espetacular. 23 jogos invictos para o Brasileirão. Não te esqueças de reforçar isso aí [afirma sorrindo]. Foi um trabalho muito bom. A equipa já era bem treinada pelo Roger (Machado), mas tinha um modelo de jogo diferente do que nós queríamos implantar. Nos primeiros treinos, o que mais pedi aos jogadores foi para encurtarem o espaço ao portador da bola com o objetivo de evitar que o adversário tivesse tempo de receber, dominar, conduzir e pensar o jogo. Aproveitámos a verticalidade que já era uma característica deles. Fizemos uma campanha espetacular. 23 jogos invictos, onde 14 jogos foram realizados pela equipa considerada alternativa. Alternativa, porque não se pode dizer que era de reservas. O plantel do Palmeiras é muito bom.
BnR: Na Libertadores chegaram à meia-final, mas perderam perante o Boca Juniors…
PT: É… Mas jogámos contra o Boca, que não é uma equipa qualquer, e que, a par do River Plate e do Flamengo, é um dos clubes mais conhecidos da América do Sul. Perdemos para uma grande equipa. Como nós perdemos, eles podiam ter perdido também.
Vocês têm apenas uma palavra para definir esse trio! E aí, qual vai ser? 😎#AvantiPalestra pic.twitter.com/f2EkJmERAw
— SE Palmeiras (de 🏡) (@Palmeiras) March 28, 2019
BnR: Em 2019, após uma série de jogos sem ganhar, saem do Palmeiras. Estavam em terceiro e só tinham menos três pontos que o primeiro. Achou ingrato?
PT: Totalmente ingrato, mas é a realidade nua e crua do futebol brasileiro. Para teres uma ideia, quando Klopp chegou ao Liverpool esteve dois anos sem ganhar nada e teve vários momentos menos bons e não foi mandado embora. Connosco foi o contrário. Chegámos à semifinal do Campeonato Paulista 2019 e fomos a melhor campanha na fase de grupos da Taça Libertadores. Até à paragem para a Copa América, estávamos invictos no campeonato com oito vitórias e um empate, o que nos dava 25 pontos ao fim de nove jogos. Depois da paragem para a Copa América, não sabemos o que aconteceu, mas houve uma quebra. Esse momento menos bom coincidiu com os quartos de final da Copa do Brasil e com uma eliminatória da Libertadores. Esse foi o nosso problema. Tratando-se do Brasil, tiraram o professor do comando técnico. Quando fomos jogar com o Flamengo (último jogo de Luiz Felipe Scolari no comando técnico do Palmeiras) estávamos três pontos abaixo deles, mas ainda faltava jogar uma volta inteira. Com o modelo de jogo que tínhamos e com o regresso dos jogadores que não estavam por lesão, sabíamos que podíamos dar a volta por cima. Infelizmente, mandaram-nos embora.
– Jorge Jesus e o casamento perfeito com o Flamengo –
BnR: Achava que o Palmeiras tinha capacidades de bater o Flamengo de Jorge Jesus e voltar a ser campeão?
PT: Com certeza! Não tenho dúvida nenhuma! A prova disso é que, nesse jogo em que perdemos 3-0 contra o Flamengo e fomos demitidos, em dois dias, após a eliminação da Libertadores, montámos um plano de jogo onde iríamos explorar o bloco alto do Flamengo. Aos oito minutos de jogo, marcámos precisamente através do que nós treinámos: bola longa nas costas da defesa do Flamengo. Só que o Willian estava um dedo em fora-de-jogo e o lance foi anulado. Depois foi a questão psicológica. Nós tínhamos a certeza absoluta que, com tempo de recuperar psicologicamente a equipa e treinar mais, a questão era pontual, mas… Brasil, não é?
BnR: O treinador português é valorizado no Brasil?
PT: É muito valorizado. Quando fui para a China, também fui muito valorizado e respeitado. Esse intercâmbio de profissionais é muito importante.
BnR: Jorge Jesus talvez seja o expoente máximo da representação portuguesa no Brasil. Como está a ver o trabalho dele no Flamengo?
PT: Tem feito um trabalho espetacular. O Jorge Jesus implantou o modelo de jogo dele num clube onde os jogadores tinham esse perfil. Mais, quando ele veio para cá, teve muito tempo para treinar por causa da pausa para a Copa América. Nessa altura, ele trouxe o Pablo Marí, o Filipe Luís, o Rafinha e o Gerson. Quatros jogadores que estavam na Europa e que estavam fisicamente frescos. Depois, Gabigol já tinha jogado na Europa, Diego já tinha jogado na Europa. Resumindo, ele tinha muitos jogadores que já tinham jogado na Europa, o que, aliado à qualidade que eles têm e à estrutura que o Flamengo disponibiliza… o Jorge Jesus foi a cereja no topo do bolo, o casamento perfeito.
BnR: O que é que ele trouxe de novo ao futebol brasileiro?
PT: A marcação em bloco alto ele não trouxe, porque nós no Palmeiras de 2018 e no de 2019 já fazíamos isso. Talvez não fosse com a mesma regularidade, mas já fazíamos. O que ele trouxe de novo para o futebol brasileiro foi a defesa, em bloco alto, jogar constantemente em linha sem compensação, o que eu não concordo. Muitas equipas no Brasil estão a fazer isso. A única compensação que existe é feita pelo guarda-redes, mas, às vezes, nem ele consegue fazê-la. Acho que tem que haver um equilíbrio e a compensação tem que existir. Se não consegues limitar o portador da bola e ele mete um passe nas costas dessa linha, acabou.
– Ganhar asas para voar –
BnR: O Paulo tem o desejo de ser treinador principal ao alto nível?
PT: Tenho. Eu considero-me um treinador principal, mas tenho o privilégio de ajudar o professor Felipe. Quem não gostaria de estar no meu lugar? Muitos! Além de o estar a ajudar, eu estou a aprender com um dos melhores treinadores do mundo e que mais títulos conquistou. Quando o professor Felipe resolver parar e disser para eu seguir a minha vida, aí volto a ser treinador principal.
BnR: Quando for treinador principal que ideias vai querer implementar?
PT: Se for treinador de uma equipa média/alta, e puder começar o trabalho do zero, vou montar uma equipa vertical. Uma equipa que defende muito bem, que não tem problemas em defender atrás da linha da bola e que encurta o portador da bola e os espaços, fazendo compensações verticais e horizontais. No momento da recuperação da posse de bola, transita com muita rapidez. Ao mesmo tempo, quando tiver posse de bola, do meio campo para a frente, vai ser dado espaço à individualidade. Contra equipas fechadas, é a individualidade, o drible ou o remate de fora da área que fazem a diferença. A minha equipa não vai ter posse de bola lenta, com passes para trás. Não concordo que, quando a bola está na frente, volte para o guarda‑redes. O meu guarda-redes vai ser um “gatilho” de início de jogo, mas ele só vai jogar com certeza e responsabilidade. Não vai sair a jogar por um jogador de costas para o jogo, nessas situações vai bater longo, mas direcionado, na frente. Do meio campo para trás, a minha equipa vai ser segura e com responsabilidade. Não vou fazer da minha equipa uma roleta russa.
BnR: Prefere uma equipa com qualidade de jogo ou com bons resultados?
PT: Para uma equipa ter bons resultados achas que não tem qualidade? Depois a qualidade varia. Qual é a qualidade do Liverpool? Qual é a qualidade do Barcelona? É uma qualidade diferente, mas igualmente eficiente.
BnR: Desde que saiu do Palmeiras, o que tem feito?
PT: Estudado, debatido e assistido muito futebol.
Conheça Paulo Turra, o auxiliar moderno de Felipão que os jogadores adoram: https://t.co/fzFhnrFGww#TudoPeloFutebol pic.twitter.com/UKQirY1huZ
— ESPN Brasil (de 🏠) (@ESPNBrasil) November 18, 2018
BnR: Já afirmou publicamente que gostava de viver em Portugal. Essa mudança está para breve?
PT: Para breve não sei. Só se uma equipa portuguesa contratar o Felipão. Por agora, continuo com o professor até ele acabar a carreira ou dizer para eu ir à minha vida.
BnR: Alguma proposta de trabalho para um futuro próximo?
PT: Desde que saímos do Palmeiras, no mínimo dez equipas, brasileiras e de fora, fizeram-lhe propostas oficiais. Ele está num patamar em que estuda a equipa para onde vai. Vê se é para ganhar títulos e vê se tem condições para implementar o seu modelo de jogo ou não. Agora, está a falar com duas equipas de fora do Brasil.
BnR: Quer revelar-me que equipas são?
PT: Não posso [risos].
BnR: Obrigado, Paulo!











