Muitas vezes dou por mim a pensar: o que será mais importante num jogador de futebol? A técnica, a inteligência e a criatividade; ou o poderio físico, a intensidade e a agressividade?

Quando olhamos para os craques do futebol mundial nesta década, olhamos para jogadores como Messi, Xavi, Iniesta, Modrić, Sneijder… Tudo jogadores que sobressaíam pela sua qualidade técnica, inteligência e criatividade. Jogadores cuja principal arma é o cérebro. No entanto, também existem aqueles jogadores apelidados de génios incompreendidos, que têm técnica, têm criatividade, mas que são criticados porque são lentos, porque não gostam de correr, porque evitam confrontos físicos- não têm essa intensidade e agressividade de que falei.

Eu defendo que a intensidade é uma caraterística muito importante para se conseguir vingar no futebol de alta competição. O que muitos não entendem é que essa mesma intensidade não tem necessariamente de se tratar de uma questão física, mas sim de uma questão mental; não se trata necessariamente de ser um jogador agressivo e possante, mas sim de ser um jogador que leia e analise minuciosamente o jogo, que pense mais rápido do que os outros e que saiba o que fazer com a bola ainda antes de a receber.

Na gíria, aplicou-se a esse perfil de jogador o conceito de falso lento: aquele jogador que é lento com o corpo, mas rápido com o cérebro. Creio que o introdutor desse conceito em Portugal foi Tamagnini Nené, o avançado que tanto fazia vibrar os adeptos do Benfica pelos golos que marcava, porque aparecia sempre no sítio certo para encostar. Como os irritava por nunca sujar os calções, porque mesmo que o jogo fosse disputado num batatal, a chover torrencialmente, ele saía sempre de campo limpinho.

André Gomes é mais um falso lento em Portugal
Fonte: Everton FC

No meu tempo, o falso lento que apareceu em Portugal foi Pedro Barbosa, jogador que mostrou o perfume do seu futebol no Vitória SC e no Sporting CP. Muitas vezes incompreendido, muitas vezes criticado, ganhou a alcunha de “Pastelão” pela sua postura em campo, mas com a bola nos pés tornava-se num jogador diferenciado, daqueles que tratava a bola por “tu”.

Hoje, vejo em André Gomes o jogador português que mais se assemelha a Pedro Barbosa. De tão criticado que era em Barcelona por, supostamente, ter de pedir autorização a uma perna para mexer a outra, anda aos poucos a voltar a mostrar o perfume do seu futebol na Cidade dos Beatles.

Como uma vez disse Juan Riquelme, porque haveremos de correr quando a bola o pode fazer?

Foto de Capa: Sporting CP

Comentários