Hoje vamos olhar para o Vitória SC, clube que tem na pessoa de Miguel Pinto Lisboa o seu presidente, eleito em julho de 2019, sucedendo assim a Júlio Mendes no cargo. A troca de direções trouxe também Carlos Freitas à Cidade Berço para ser o novo diretor desportivo.

O objetivo é dar estabilidade a um clube que na última década tem-se posicionado sempre na metade superior da tabela classificativa, próximo do pódio, em lugares que permitem disputar as competições europeias. Os adeptos são muito próximos da equipa e acompanham atentamente os jogos, em casa ou fora de portas, em grande número, o que reforça a ambição de conduzir o Vitória a outro patamar competitivo.

Em Portugal e fora da esfera dos três grandes, os clubes têm pouco dinheiro, o que implica uma gestão dos recursos tremendamente eficaz para, mais do que sobreviver, ambicionar-se crescer. Assim, é dentro de portas que por vezes se encontram os jogadores que podem aliar sucesso desportivo a retorno financeiro.

Já depois de iniciada a época de 2011/2012, Manuel Machado abandonaria o cargo para dar lugar a Rui Vitória, a quem mais tarde seria reconhecida especial apetência para lançar jovens jogadores. Nomes como Ricardo Pereira (jogador dos ingleses do Leicester City FC e internacional português, que passou com grande sucesso pelo FC Porto), Hernâni (também transferido para o Porto), Paulo Oliveira (com passagem pelo Sporting CP) ou Bernard Mensah (transferido para Espanha), são exemplos de jovens jogadores que se projetaram às mãos do então treinador do Vitória.

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Em qualquer dos casos mencionados, os valores das transferências foram na ordem dos milhões de euros, pelo que representa um encaixe financeiro muito importante para as contas do clube.

O período de Rui Vitória em Guimarães coincidiu também com a criação da equipa B do Vitória, em 2012/2013, onde começaram por participar na Segunda Liga. Foi deste modo que os jogadores mais jovens encontraram um espaço competitivo para evoluir e se prepararem melhor para os desafios da primeira divisão nacional.

O seu momento com maior impacto mediático ocorreu em maio de 2013, quando tombou o SL Benfica de Jorge Jesus no Estádio do Jamor, conquistando assim a primeira e única Taça de Portugal no palmarés do clube da Cidade Berço. Na equipa titular figuravam Ricardo Pereira, autor do golo da vitória, Paulo Oliveira e ainda Tiago Rodrigues, um jovem que transitou pela equipa B antes de ser integrado em definitivo no plantel principal.

O ex-técnico vimaranense viria a deixar o comando técnico do Vitória para suceder a JJ como treinador do SL Benfica, depois daquela que foi a sua melhor temporada no que ao campeonato diz respeito, em que terminou no quinto posto. Acima de tudo, o trabalho de Rui Vitória reforça a adoção do paradigma de que é possível ter sucesso desportivo apostando de forma sustentada nos jovens talentos.

No ano seguinte, a transição para o pós-Vitória não foi fácil, com mudança de treinador logo em setembro, que marca a passagem de Sérgio Conceição no comando técnico dos vimaranenses e também o despontar de dois “Silvas”: o guarda-redes Miguel Silva e o avançado Xande Silva. O primeiro ainda integra o plantel principal do Vitória, o segundo representou, anos mais tarde, um encaixe acima do milhão de euros.

É justo afirmar que as apostas nos técnicos por parte do Vitória têm sido bastante certeiras, pois tanto Rui Vitória como Sérgio Conceição viriam a ser, mais tarde, campeões nacionais ao serviço de outros emblemas, comprovando o seu valor. A época de 2016/2017 traz mais um nome muito interessante do futebol nacional, o treinador Pedro Martins, atualmente ao serviço dos gregos do Olympiacos FC e a receber bastantes elogios pelo trabalho desenvolvido.

Foi uma temporada muito positiva para os vitorianos, que terminaram na quarta posição e viram a equipa cair, na final da Taça de Portugal, aos pés do Benfica, então liderado por Rui Vitória. Chamo a atenção para alguns dos nomes que jogaram essa final do lado dos vimaranenses: Miguel Silva, Josué Sá, Ghislain Konan e Raphinha. No caso do jovem guarda-redes transitou diretamente dos juniores, mas todos os outros passaram por um processo de amadurecimento na equipa B, antes de serem integrados com sucesso no plantel principal e, mais tarde, vendidos por montantes consideráveis.

Neste caso, pudemos observar uma mescla de jogadores que já faziam parte da equipa, anteriormente, mas que obedeceram a este processo de amadurecimento, como era o caso de José Sá, com jogadores jovens entretanto lançados depois da passagem pela equipa B, como eram Konan e Raphinha, e que resultaram em sucesso desportivo e retorno financeiro. Tentando partir o processo, observamos primeiramente um trabalho muito bem feito ao nível do recrutamento, numa segunda fase, o acompanhamento ao jogador na fase de maturação na equipa B e, depois, a integração com sucesso na equipa principal. E, claro, o papel do treinador e restante equipa técnica que têm a responsabilidade de sustentar todo o processo através de resultados desportivos, indispensáveis no futebol.

As expetativas geradas pela época de sucesso resultaram num investimento recorde, sem frutos, com Pedro Martins a não resistir a uma série de maus resultados e a sair de cena ainda antes do fim da época, que termina com um dececionante nono lugar. Não deixa de ser curioso que foi num ano de maior investimento que se verificou tal quebra, relembrando-nos para a eterna verdade no futebol, de que comprar mais caro, não significa necessariamente comprar melhor. Terá sido sinal de alerta suficiente para os responsáveis vimaranenses, para que não se abandone o paradigma de gestão eficiente e realista que vinha sendo praticado até então.