“- Papá, quem são aqueles ?” Pergunta o meu filho, quando estávamos de regresso a casa um sábado à noite.

A sua mão aponta para um grupo de adeptos que se aproxima da estação. Alguns deles têm um cachecol, outros têm grandes bandeiras enroladas e o mais “robusto” leva a mochila com a faixa. A  conversar e a provocar, há aqueles que já comem antes de sair e os que já vão na terceira cerveja.

Um carro pára perto deles e depois arranca velozmente para estacionar, outros já estão em frente da bilheteira.

Perante a admiração do meu filho respondo que são adeptos do clube do pai dele e que os que ele vê irão acompanhar a equipa em mais uma deslocação. Atento ao modo como afastou o olhar, não entendeu o que lhe disse. Aprendeu que as coisas só existem se forem vistas na televisão e é difícil explicar que ainda existem aqueles que preferem viver as emoções e não simplesmente olhar para elas.

Aí parei para pensar que, há uns anos atrás, também, eu estava ali mas depois casei, vieram os filhos, a estabilidade num bom emprego e as coisas mais importantes passaram a ser outras. Tal, quase me fez acreditar que a vida certa é aquela que sigo, umas voltas no shopping, jantar à noite e ao domingo na casa dos sogros, “podes ver a bola na TV dos meus pais” diz a minha esposa. Abrando o passo para ver quem está lá e descubro que ainda há alguns rostos familiares.

Sim! Ainda conheço quem está a falar com o responsável do comboio para conseguir pelo menos mais uma carruagem. Com ele passei mais noites no comboio do que com a minha mulher. Vejo que não mudou nada, e afasto-me enquanto o vejo a distribuir os cartões e bilhetes para o jogo. Chego a casa com mil pensamentos. Assim que terminei o jantar fui imediatamente para o quarto e abri a gaveta que deixei fechada por tantos anos. Peguei no cachecol das minhas cores com uns pequenos pontos pretos um dia em que um cinto na cara fez-me jorrar o sangue, sem que se conseguisse estancar. Ainda cheira ao fumo das tochas que abrimos nos anos noventa e começo a ver umas fotos, mas as lágrimas impedem-me de me focar.

Fonte: Bola na Rede

“Onde andas tu?” Perguntei a mim mesmo, “Onde estão os teus companheiros que nunca te deixaram sozinho?” Valeu a pena trocar aquela vida pela “tranquilidade? O que vou dizer ao meu filho? Quantas lojas tem o novo shopping ou quão bom é o pai no trabalho? Não! Não é assim que vou viver. Aquelas cores pelas quais perdi horas de sono, pelas quais abandonei  a casa, amigos, festas e namoradas são um sonho bom demais para não ser capaz de vivê-lo ao máximo!

Então, fechei aquela gaveta chamei o meu filho. Ele olhou para mim como se estivesse à espera do que estou prestes a dizer: “- Vou levar-te à bola no domingo, quero te mostrar como são os adeptos do nosso clube!” Vejo que ficou feliz e eu mais ainda. Ele vai aprender a dormir com sete ou oito dentro de um compartimento e a compartilhar uma sanduíche com aqueles que não conhece, vai aprender que ninguém é deixado no chão e que nunca se vira as costas para aqueles que o atacam, aprenderá a exultar com elegância e não se desesperar com a derrota. Ele aprenderá a amar e a defender os seus passos. Aprenderá a comportar-se de modo corajoso e honesto, aprenderá numa palavra, o que significa ser adepto de um clube de futebol, a viver em comunhão numa bancada…

Artigo de opinião da autoria de Idalécio Guimarães

Foto de Capa: BVB Dortmund

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