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O terceiro mundo no futebol nacional

Rui Pedro Cipriano · 4 min

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Cabeçalho Futebol NacionalNa semana passada o futebol português foi abalado por mais um caso de salários em atraso, desta vez o Sport Clube Freamunde. Os jogadores deste clube nortenho apenas receberam três de onze meses deste ano (!), o que já levou em alguns casos que jogadores tenham ordens de despejo por parte dos senhorios por muitos meses sem pagamento de renda. Esta é uma triste face do nosso futebol, uma face que nos últimos anos têm acompanhado e muito o futebol português, os jogadores, felizmente, por intervenção do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol, que celebra cinco anos desde a sua criação este ano, têm tido cada vez mais uma voz ativa e têm sido cada vez mais protegidos e ajudados nas situações mais urgentes.

Já se perdeu a conta de vezes que nós últimos anos temos tomado conta de problemas em clubes, desde jogadores que vêm com promessas e sonhos, acabando a viver na rua, até a situações como esta no Freamunde, em que devido aos problemas financeiros dos clubes, o plantel acaba por não receber os seus salários. Estes problemas têm sido cada vez mais recorrentes nas equipas do Campeonato Nacional de Seniores, muito por culpa do mau planeamento de época que estas equipas fazem, acho que estará na altura da Federação pensar em organizar formações para os dirigentes desportivos dos clubes mais pequenos do nosso futebol.

José Fonte, hoje um dos mais consagrados jogadores portugueses, já sentiu na pele o drama dos salários em atraso   Fonte: DailyStar
José Fonte, hoje um dos mais consagrados jogadores portugueses, já sentiu na pele o drama dos salários em atraso
Fonte: DailyStar

Os clubes mais profissionais do nosso futebol, na Primeira e Segunda Liga, não tem sido “órfãos” deste tipo de problemas. Recuando na nossa memoria facilmente recordamos o caso do Vitória de Setúbal, que desde há alguns anos tem sido constantemente ligado a casos de salários em atraso e de épocas muito turbulentas, José Fonte assina pelo Benfica em 2005/2006 depois de rescindir com justa causa, por salários em atraso, o seu contrato com a equipa de Setúbal, em 2009 o plantel sadino recusou-se mesmo a treinar perante os salários em atraso.

Os casos mais graves acontecidos até hoje no nosso futebol profissional são sem dúvida os do Estrela da Amadora e do União de Leiria. O plantel do clube da Amadora recorde-se ameaçou antes dos jogos contra os “grandes” não comparecer devido aos salários em atraso e ainda assim conseguiu a manutenção em 2008/2009, mas acabaria por descer aos campeonatos amadores por problemas financeiros, o Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol ainda apoiou o clube da Reboleira com um mês de salários, mas a dimensão dos problemas financeiros, com dividas a jogadores, funcionários e segurança social, era tal que o clube acabaria mesmo por desaparecer em 2011.

O segundo caso mais grave que aconteceu no futebol português ocorreu em Leiria, e este tomou proporções praticas muito mais graves e vergonhosas para o futebol português do que no caso do Estrela da Amadora. Devido aos salários em atraso, a grande maioria plantel de 2011/2012 decidiu rescindir com justa causa, ainda com três jornadas por disputar-se no campeonato, e o inacreditável aconteceu mesmo a 29 de abril de 2011, quando num jogo da Primeira Liga Portuguesa (!) o União de Leiria entra em campo para disputar o seu jogo contra o CD Feirense com apenas 8 jogadores, um deles é neste momento um dos melhores guarda-redes do mundo, perdendo 4-0. O resultado seria o menos importante, a imagem que ficou do futebol português para o exterior foi o pior, uma imagem vergonhosa e que devia envergonhar quem manda no nosso futebol.

Um dos dias que mais deveria envergonhar o adepto português Fonte: Blog 11 contra onze
Um dos dias que mais deveria envergonhar o adepto português
Fonte: Blog 11 contra onze

Verifica-se por isso que o problema dos salários em atraso, é já um problema recorrente no futebol português infelizmente, muito por culpa da mentalidade que existe no dirigente português que gosta de construir planteis com meios que sabe que não têm, tudo para atingir os objetivos desportivos, mas esquecendo-se sempre do lado mais humano e quando as coisas não começam a correr bem então, é quando mais rapidamente os problemas com os salários aparecem. Felizmente que esta mentalidade vai-se alterando aos poucos, cada vez mais vemos equipas que são forçadas a apostar na formação por não possuírem meios para ter melhores jogadores, olhemos para o caso do Vitória SC na era Rui Vitória, que devido aos problemas financeiros que o clube atravessava foi obrigado a apostar na formação, conseguindo ainda assim uma época bastante positiva finalizando com a conquista da Taça de Portugal em 2013/2014 e dando jogadores como Ricardo Pereira , atualmente no FC Porto, ao futebol português.

Desejo pessoalmente como adepto de futebol que estes casos diminuam drasticamente e que os jogadores de futebol, responsáveis muitas vezes por nos proporcionarem as alegrias ao fim de semana, sejam cada vez mais respeitados e recebam aquilo que merecem por direito contratual.  Episódios como estes não dignificam em nada o futebol português, o futebol do campeão europeu em título.

Foto de Capa: SC Freamunde

Rui Pedro Cipriano

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