O processo de formação de um jogador está dividido em três etapas: iniciação, orientação e especialização. Esta última etapa, resume-se à capacidade que um jogador dar o salto para o futebol profissional. E nos últimos anos, tem-se assistido com frequência àquilo que se chama de especialização precoce.

A introdução das equipas B da Segunda Liga a partir da temporada 2012/2013 permitiu aos jovens jogadores que estabelecessem um primeiro contacto com o futebol profissional, estabelecendo assim a ponte entre as camadas jovens e a equipa principal situada na Primeira Liga. Contudo, tem havido cada vez mais jogadores juniores com um potencial acima da média a jogarem pelas equipas B, começando assim a competir profissionalmente ainda na sua adolescência.

Esta prática de queimar etapas na formação pode ser muito vantajosa, visto que submete o jovem jogador a um maior estímulo competitivo, defrontando jogadores mais velhos e com outra tarimba que lhe permitam desenvolver mais os seus atributos, podendo também encarar esse salto como uma motivação extra para trabalharem duro. No entanto, este salto é um processo que pode ser mais complexo do que muitos podem imaginar.

Uma coisa que todos necessitam de entender é que os jogadores não são máquinas e como tal, nem todos terão a mesma capacidade de se adaptar a um novo contexto competitivo. Mesmo que os jogadores mostrem aptidões técnico-táticas acima da média para o seu escalão, isso não significa necessariamente que já estejam preparados para saltar para o próximo patamar.

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Do ponto de vista físico, os jovens jogadores podem ainda não estar suficientemente desenvolvidos de modo a suportar treinos com maior carga física, e isso também poderá afectar a sua componente psicológica. Aliás, o lado psicológico é o que poderá ter um impacto mais decisivo nesta fase das suas carreiras, visto que abrange mais aspectos de um jogador, tanto dentro como fora das quatro linhas.

José Gomes tarda em afirmar-se no futebol sénior
Fonte: SL Benfica

Esta vertente psicológica, tanto poderá estar ligada dentro de campo com o choque que um jovem jogador pode apanhar ao esbarrar com um nível competitivo muito superior ao que está habituado, como também está ligada ao peso das expectativas que se criam em relação a um futebolista, tanto por parte de treinadores e dirigentes (pressão interna), como por parte dos adeptos e da comunicação social (pressão externa).

Fora de campo, a vertente psicológica está associada ao facto de que nesta faixa etária, os jogadores começam a ficar mais expostos, não só ao mediatismo, mas também aos “caprichos” típicos da juventude, tais como as saídas à noite, o consumo de álcool, etc. Também é nestas idades que as maiores promessas de um clube assinam o seu primeiro contrato profissional, passando a auferir um ordenado superior ao de muitos cidadãos comuns. Um miúdo de 17 anos ou 18 anos não está preparado para ganhar tanto dinheiro, e sem a devida orientação, os jovens esbanjam descontroladamente o seu dinheiro.

Todos estes fatores, poderão levar a um menor nível de compromisso, a um grande desgaste físico e emocional, à desmotivação e consequentemente, à estagnação da sua evolução e das suas habilidades técnico-tácticas.

Creio que o exemplo mais visível actualmente no futebol português é o do avançado José Gomes. Não há muito tempo atrás, José Gomes brilhava nas camadas jovens do Benfica e da selecção nacional, tendo sido o melhor jogador e melhor marcador do Europeu de sub-17 que Portugal conquistou em 2016. No entanto, seria promovido à equipa B na temporada seguinte, ainda como júnior de primeiro ano, tendo chegado mesmo a jogar pela equipa principal, mas a verdade é que a nível sénior, nunca veio a confirmar aquilo que prometeu. Aquele que era visto por muitos como o futuro 9 da selecção nacional tem 13 golos marcados em três épocas na equipa B dos encarnados.

Apesar de não ser deste tempo, é impossível abordar este assunto sem falar de Fábio Paim. O jogador que brilhou nas camadas jovens do Sporting e que muitos diziam que ia ser melhor que Cristiano Ronaldo, assinou um contrato profissional com os leões aos 16 anos, com um vencimento mensal de 20 mil euros. Ao chegar ao futebol sénior, entrou num declínio irreversível repleto de experiências fracassadas um pouco por todo o mundo e de episódios fora das quatro linhas que não são recomendáveis a quem quer singrar no futebol.

Existem ocasiões em que é preferível um jogador ser desafiado num escalão superior e existem outras ocasiões em que é preferível ser um peixe grande num lago pequeno.

 

Foto de Capa: Selecções de Portugal