Não há dúvidas que o futebol português tem as suas qualidades e virtudes no âmbito do panorama futebolístico. Por cá já passaram grandes jogadores e treinadores que exportámos para esse mundo fora e que deram cartas por onde passaram. Somos atualmente o sexto país no ranking UEFA, logo a seguir aos big five, o que só pode ser motivo de satisfação.

Contudo, temos visto recentemente o nosso principal campeonato ser ‘’atacado’’ um pouco por toda a gente, devido à fraca qualidade dos nossos jogos. E é neste ponto que este texto se foca. As fracas prestações europeias da maioria dos clubes tem sido o principal combustível deste tema, mas há que refletir verdadeiramente sobre o que se passa por cá. O nível de competitividade do campeonato português não é visto como o ideal para encarar os jogos europeus, mas a verdade é que recentemente tivemos equipas nos quartos da Champions e da Liga Europa.

Vítor Oliveira afirmou, não há muitos dias, que o nosso campeonato «é competitivo mas nivelado por baixo». E não poderia estar mais de acordo. Ainda que existam vários fatores que contribuam para a fraca qualidade das partidas, gostaria de focar nalguns que assisto frequentemente e que estão diretamente ligados a situações de jogo, fazendo já parte do cardápio dos jogos de futebol em Portugal: paragens de jogo deliberadas, faltas marcadas excessivamente, punições exageradas.

Parece que cada vez se assiste mais, um pouco por todo o lado, ao fenómeno das paragens de jogo deliberadas. Se determinada equipa encontra um resultado que lhe agrada, a tendência é para abrandar o ritmo de jogo, conduzindo-o na direção dos seus intentos. O pior é que os recursos utilizados para esse efeito não são os mais agradáveis e chegam a irritar qualquer verdadeiro adepto de futebol. Hoje em dia, não é muito difícil apanhar uma partida em que se vejam, amiúde, jogadores caídos no chão a gesticular – muitas vezes, jogadores da mesma equipa. E a Primeira Liga não é alheia a este fenómeno, que se estende às restantes divisões.

O facto de ser complicado encontrar uma resolução concreta para este problema – o tempo de descontos apenas atenua a quebra de ritmo forçada anteriormente – leva algumas equipas, por vezes, a abusar destas situações. Por isso e como não me revejo na tática do anti-jogo, penso que, em situações recorrentes, uma equipa não deve enviar a bola para fora, a não ser que o árbitro interrompa. E mesmo este deve deixar seguir o jogo até que uma jogada termine de forma natural. Claro que pode ser difícil avaliar se a paragem é intencional ou não, mas quando existir essa dúvida, o jogo deve seguir o seu rumo.

A paragem do tempo de jogo – sempre que a bola estivesse fora ou quando a partida fosse interrompida – começa até a parecer-me mais justo… No entanto, começam a ser visíveis modificações para controlar as perdas de tempo, como a regra de um jogador ter de sair pela linha mais próxima, o que me parece ajustado.

As constantes interrupções são uma realidade do futebol nacional
Fonte: FC Paços de Ferreira

Obviamente que os árbitros tentam sempre defender-se. Ainda para mais no nosso país, onde o clima de suspeição está sempre presente e muitos árbitros acabam por se sentir pressionados, resultante da nossa questão cultural. Depois o que se vê são arbitragens demasiado defensivas que resultam em partidas constantemente interrompidas. E isso quase nunca favorece o espetáculo. Admito que, em certas ocasiões, chega a ser incómodo ver um jogo dos nossos campeonatos. Nas competições europeias nota-se bem a diferença, onde se ouve muito menos o apito do que aqui. Os jogos são muito mais fluídos – aliás, não devem existir muitos lugares onde se ouça tanto o apito como em Portugal.

Sobre este aspeto, considero Artur Soares Dias um dos melhores a gerir os jogos cá do burgo, sendo para mim, aquele que tem mais categoria e competência. Aquilo que transparece é que a maioria dos juízes, por norma, assinalam falta ao mínimo contacto e os jogadores, percebendo isso, sabem que basta caírem para serem beneficiados. Hoje, existe o auxílio do VAR para determinadas situações e sobre este mecanismo, penso até que os tempos de espera para se tomar decisões têm vindo a diminuir, de um modo geral, o que é sempre um sinal positivo.

Contudo, a arte do apito continua a ser uma marca registada do campeonato português e assim é muito difícil a Primeira Liga tornar-se interessante. Seja pela prática do anti-jogo ou pelas faltas marcadas em número excessivo, tudo isto se torna bastante aborrecido para os adeptos e contribui para o vergonhoso tempo útil de jogo que temos. Não pode ser muito normal que uma partida termine com perto ou mais de 40 faltas sancionadas e essa realidade não é assim tão incomum por aqui. Na última ronda, por exemplo, o FC Paços de Ferreira x CD Tondela terminou com 48 faltas, estabelecendo um novo máximo esta época. Curiosamente, o top de jogos com mais faltas tem sido preenchido com encontros das últimas jornadas.

Com certeza que as faltas fazem parte do encontro e existem para ser assinaladas, mas é preciso que os árbitros deixem jogar com maior regularidade e adotem um critério mais largo, sob pena de muitos jogos continuarem a ser enfadonhos e disputados num ritmo não muito alto, devido à excessiva intervenção do apito. E assim, é natural que lá fora o nosso futebol não seja muito apelativo, pois os atributos aqui descritos (apenas uma parte da questão) acabam por afetar a imagem do produto e qualquer intenção de internacionalização.

Foto de capa: FC Famalicão

artigo revisto por: Ana Ferreira

Comentários