São clubes históricos do futebol português. Alguns deles, já com várias passagens pela Primeira Liga e um até já conta com a conquista desta no palmarés. Falamos de emblemas que um dia conheceram o sabor da glória, mas que mergulharam num rio de infortúnios futebolísticos e financeiros que conduziram à sua extinção. E agora tentam voltar à tona.

É o caso do União Desportiva de Leiria, popularmente conhecido por União de Leiria. Fundado em 1966, o clube atingiu o seu ponto alto com subida ao primeiro escalão do futebol português na época 1978/79, além de contabilizar duas presenças na Taça UEFA e de ter sido o primeiro clube português finalista da Taça Intertoto.

Os problemas começaram pouco tempo depois. A relação entre a SAD e a Câmara Municipal de Leiria azedou, sendo a primeira acusada de dever dezenas de milhares de euros pela utilização do Estádio Municipal Dr. Magalhães Pessoa, palco do mítico Euro 2004. Não tardaram a surgir relatos de ordenados em atraso, confirmados pelos jogadores, que chegaram mesmo a recusar treinar por contabilizarem quase três meses sem receber.

O descalabro aconteceu na época 2012/13, quando não conseguiu garantir a permanência na Primeira Liga e, por incumprimento dos requisitos financeiros, apenas conseguiu inscrever-se no Campeonato Distrital. A SAD acabou por ser extinta em 2013, devido ao elevado número de dívidas, sendo posteriormente constituída uma nova no ano de 2015.

As sucessivas más decisões financeiras e desportivas levaram à queda do emblema de Leiria, um clube muito acarinhado e seguido na cidade. Apesar dos objetivos da nova SAD passarem por restaurar o clube e de proporcionar novos investimentos no mesmo, é necessária muita cautela e identificação dos erros cometidos anteriormente, para que seja possível retomar o sucesso de outros dias. O facto de este ano os jogadores do clube terem novamente reclamado salários em atraso, é um grande sinal de alerta para a necessidade de ajustes e de mudanças, de forma a evitar uma repetição da história.

Homenagem ao antigo Clube Desportivo Estrela da Amadora no Estádio José Gomes
Fonte: Clube Desportivo Estrela

Já um pouco mais a sul e com uma história idêntica fica o antigo CD Estrela da Amadora. Contabiliza várias presenças na Primeira Liga e também nas competições europeias, nomeadamente na Taça das Taças e na Taça Intertoto. O seu maior feito foi a inédita conquista da Taça de Portugal em 1990, altura em que contava com os internacionais portugueses Paulo Bento e Abel Xavier no plantel e com o técnico João Alves ao leme da equipa. Foi, de resto, a rampa de lançamento de muitos jogadores portugueses reconhecidos, como Miguel, Jorge Andrade, Calado, entre outros.

No entanto, o clube fundado em 1932 começou a “afundar” há cerca de uma década. Apesar de ter garantido a permanência na Primeira Liga, viu-se despromovido ao terceiro escalão do futebol português por razões financeiras. Entra aqui numa espiral negativa, com sucessivos relatos de salários em atraso e ameaças de greve e de rescisões por parte dos jogadores. Em 2009, o Tribunal de Sintra considerou-o insolvente, levando à sua extinção no ano seguinte. Assistia-se, assim, a mais uma morte de um histórico do futebol português.

Mas como é dos adeptos que vive o futebol, foram eles que fizeram renascer o emblema da Amadora. Em 2011, um grupo de sócios criou o Clube Desportivo Estrela. O objetivo é honrar a memória do Estrela da Amadora e voltar a unir os tricolores no Estádio José Gomes, entretanto recuperado e palco do novo clube. Os apoiantes do clube, encabeçados pela claque Magia Tricolor, têm sido os maiores impulsionadores do (res)surgimento do clube com um apoio constante desde o primeiro dia.

Muitos outros clubes assistiram ao término abrupto da sua história, ora por escândalos financeiros, como é o caso do Sport Comércio e Salgueiros e do SC Beira-Mar, ora por divergências entre clube e a SAD, como o CF Os Belenenses. Após entrar em litígio com a SAD, o clube do Restelo separou-se desta e recomeçou do zero, com a inscrição da equipa no Campeonato Distrital. O clube que completou esta semana 100 anos, prepara-se para cortar na totalidade o vínculo que o liga à SAD, anunciando que está para breve a venda dos 10% da participação social que ainda detém nesta sociedade comercial.  Já o clube de Paranhos recuperou recentemente a sua designação inicial, após 10 anos obrigados a utilizar a denominação Salgueiros 08 depois de um processo de insolvência.

Estes emblemas históricos do futebol nacional já conheceram o sabor da glória e lutam agora para encontrar a mística que outrora tiveram. Impera-se, para tal, uma grande noção de responsabilidade financeira, elevado sentido crítico e capacidade de análise para que erros do passado não se voltem a repetir. A paixão dos adeptos, essa, mantém-se sempre como o principal motor nos processos de reconstrução.

Foto de Capa: UD Leiria

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