Wenderson de Arruda Said de batismo, mas somente Wender para o mundo do Futebol. O gosto pelo Desporto Rei surgiu desde muito cedo devido ao seu pai professor de Educação Física, que inclusive o treinava a guarda-redes. O “Mirim” percebeu que era mais à frente no terreno que poderia fazer a diferença e deu certo: estreia-se aos 19 anos no Brasileirão, mas confessa que isso o fez deslumbrar um pouco. Como é sabido, no Futebol há sempre tempo para alterar a forma de abordar o jogo, algo que o extremo entendeu na perfeição e assim conseguiu conquistar uma passagem para jogar pela Naval. Em Braga, teve a oportunidade de brilhar ao mais nível, o que lhe levou até a Alvalade onde acabou por não ser muito feliz e optou pelo regresso ao Minho, onde viria a meter os arsenalistas na Europa. Lisboa e Chipre foram as paragens seguintes antes de arrumar as botas e abraçar a carreira de treinador. Em mais um exclusivo Bola na Rede, eis então Wender Said.

– Do início como guarda-redes até à galinha de Aprígio Santos –

Bola na Rede (BnR): Como surgiu o Futebol na tua vida?

Wender (W): Surgiu desde criança. O meu pai era professor de Educação Física, então o Desporto sempre esteve em voga na minha família. Desde muito cedo, acompanhava-o em algumas aulas de Andebol, Voleibol, Atletismo, Futsal, e também o meu pai foi treinador de algumas equipas amadoras na minha cidade e árbitro. Sendo assim, o Futebol e o desporto estiveram sempre presentes desde muito cedo na minha vida.

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BnR: E com que idade exatamente começas a jogar?

W: Como disse anteriormente, comecei desde muito cedo. Quando era mais novo, ia para a rua brincar e jogar futebol, e ali havia muita gente da minha faixa etária e lembro-me de disputar aqueles torneios na terra batida, dois contra dois, três contra três, em que as balizas eram feitas de pedras que encontrávamos no chão. Foi aí que comecei a jogar com alguma frequência e a alimentar o sonho em ser jogador de Futebol. Tive de sair da minha cidade que é uma cidade pequena no interior do Mato Grosso para ir para Cuiabá jogar numa equipa maior, tinha 14 anos.

BnR: A tua posição era de extremo, mas no início da carreira ainda te aventuras a jogar como guarda-redes. O que teve peso na escolha de um lugar mais avançado no campo?

W: Era engraçado, pois era uma posição que me atraía. Usar luvas e o poder tocar a bola com a mão cativava-me muito. Realmente tinha alguma técnica, não tinha medo da bola e era muito ágil. Recordo-me que o meu pai me chutava bolas durante muito tempo para me treinar nessa posição, caía para um lado e para o outro, mas de repente percebi que era bom com os pés e por vezes na baliza, a decisão que temos durante um jogo é salvar um ou outro lance, e vi que jogando na linha poderia ter mais poder de decisão sobre o resultado final da partida. Muitas vezes estava na baliza e a equipa precisava de ganhar, lá ia eu jogar na linha e quando já estávamos a vencer por três ou quatro, voltava para a baliza.  

BnR: Sei que a primeira alcunha no Futebol era “Mirim”. Como surgiu esse nome e em que momento passas a ser apenas Wender que todos os adeptos em Portugal facilmente reconhecem?

W: Tu estudaste bem (risos). Isso foi quando cheguei a Cuiabá com 14 anos, e é uma história engraçada e fui treinar para o Uirapuru com os juvenis que eram mais velhos que eu três anos. Há um jogo em que a equipa está a perder por um a zero, sou lançado e faço a assistência para o golo do empate. A seguir, faço uma grande jogada, deixo a bola para o meu colega marcar que faz o 2-1 e vencemos a partida. No dia seguinte, o mister no balneário falou sobre esse jogo e disse que a equipa tinha jogado muito mal e não era aceitável, e teve de recorrer a um garoto que era um “mirim” e ainda falou: “Olha lá para ele, nem corpo tem, tanto que é magro e tal! Tive de colocá-lo para virar o jogo” e assim ficou essa alcunha (risos). Todos começaram a chamar-me de “Mirim”. Aos 17, eu ia estrear-me na equipa principal do Dom Bosco, e o treinador – o professor Hélio Machado – e o preparador físico Gilmarzinho – que foi um grande amigo, trabalhou muitos anos comigo quando estive em Mato Grosso e infelizmente já faleceu -, olham para mim e comentam: “Não podemos ter um jogador no elenco com o nome de Mirim, porque não é nome de jogador de Futebol”. Perguntaram pelo meu nome e disse que era Wenderson, e eles voltaram a falar entre si: “Mirim? Nunca conheci um jogador com esse nome, e muito menos Wenderson. Vamos acertar isso!”. Eles repararam no meu nome, tiraram a parte final (-son), ficou só Wender. “O que é que você acha?” e eu disse que era perfeito, porque para eles (Wender imita a voz dos treinadores) “Mirim não é nome de jogador, e até acabar de dizer Wenderson no jogo, você já perdeu a bola!” (risos). E assim ficou Wender.

BnR: Em 1994 ao serviço do Operário de Mato Grosso, fazes um hat-trick na final do campeonato estadual. Foi nesse momento que passas a acreditar de que irias ser jogador de Futebol?

W: Sem dúvida. Eu estreei-me em 1992 no Dom Bosco, no ano seguinte vou para o Operário, onde faço um ano consistente, ainda para mais num clube com maior poder financeiro e torcida em Mato Grosso, e vamos à final do estadual e perdemos. Em 1994, eu começo a fazer golos e torno-me no artilheiro do campeonato estadual, e quando chegámos outra vez à decisão, fiz esses três golos. Até hoje, eu sou o único jogador que fez três golos na final do estadual mato-grossense, e olha que o maior jogador da história do futebol mato-grossense é conhecido como o Bife que jogou no Porto e Belenenses na década de 80 e ainda hoje é o maior artilheiro de sempre do campeonato estadual, mas não conseguiu fazer três golos na decisão e eu sim (risos).

BnR: Aos 19 anos, dás um grande salto e estreias-te no Brasileirão pelo Sport Recife, onde jogas ao lado do Juninho Pernambucano. Como foi essa mudança?

W: Foi uma mudança radical para mim. Sair de um estado onde o futebol não é tão divulgado e visto por muitos, e depois estar logo de seguida no campeonato brasileiro a jogar contra os grandes clubes e com grandes “feras”. Nesse ano, tínhamos o Juninho Pernambucano, o Leonardo que fez história no Sport Recife e Vasco da Gama e até esteve no Belenenses no final da sua carreira, e algo que começas a olhar ao teu redor e reparas que estás a jogar no Maracanã contra o Flamengo ou Morumbi contra o São Paulo, e apercebeste da realidade totalmente diferente. Tem também aqueles contratempos, ser tão jovem e chegar a esse patamar, de repente a cabeça em alguns momentos não ajudou muito.

BnR: Começam a aparecer algumas distrações fora de campo que podem prejudicar o rendimento.

W: Sem dúvida, na minha opinião o mais complicado é o ‘extracampo’, a vida fora dos relvados. As coisas vêm muito fácil, todo o mundo te conhece e começas a sair mais vezes e a não ter uma vida tão saudável e é por aí que uma carreira pode-se perder.

BnR: Em 1999, vens para Portugal. Como se processa a vinda para a Naval 1.º de Maio?

W: Eu tive um crescimento muito rápido no futebol aos 19 anos em que cheguei à primeira divisão. Depois houve uma fase em que subi tanto, a cabeça não estava tão bem, depois fui para o Botafogo e comecei a sair muito, o teu foco já não é apenas o treino e o jogo. Fui para o estadual de Minas (Gerais), que é um campeonato mais ou menos, mas não se compara ao do Rio de Janeiro ou São Paulo. Assinei pelo Democrata de Valadares, pois disseram-me que muitos jogadores de lá estavam a ir para Portugal e pensei logo “Quem sabe se isso não pode ser uma boa hipótese”. Houve uma conversa com o empresário Adelson Duarte que trouxe imensos jogadores para Portugal, desde o Vitória de Guimarães, o Sporting de Braga, Marítimo, sobre essa possibilidade e aí comecei a destacar-me no campeonato, tanto que fui considerado o melhor extremo esquerdo do campeonato. Surgiu a hipótese Atlético Mineiro, mas era pouco tempo, tanto que só me queriam dar seis meses de contrato para jogar o campeonato brasileiro. Ao mesmo tempo apareceu essa oportunidade de vir para Portugal, e o Adelson apresentou-me algumas equipas com quem tinha contactos, só que nessa altura o Democrata deixou-me de pagar. Fiquei à espera de que ele trouxesse treinadores de Portugal no final da época para assistirem ao vivo os jogadores, sendo que alguns deles tinham visto a minha cassete antes.

BnR: Tempos clássicos (risos).

W: Sim, naquele tempo ainda se observavam jogadores dessa forma (risos). Gostaram muito das minhas exibições, só que nesse momento o Democrata deixa de me pagar e fui embora do clube, pois não me pagavam e não conseguia estar a viver essa situação. Na semana seguinte, a equipa ia ter três jogos – Quarta, Domingo e Quarta -, e foi nessa sequência de jogos que o Adelson leva o treinador do Marítimo, Naval e outro que já não me recordo. Quando eles chegam para ir ver o jogo, só que não estava lá (risos). O empresário ligou-me mal soube a perguntar por que não iria jogar, e eu respondi: “Adelson, já estou em Mato Grosso na minha casa”. E ele disse: “Não acredito que você fez isso!”, e eu: “Claro que fiz, estou aí no clube esse tempo todo e não recebo. Aqui em casa, estou tranquilo e sem fazer despesas”. “Não, tu estás doido e amanhã ligo-te.”. No dia seguinte, volto a falar com ele e diz-me que os treinadores não gostaram de nenhum outro jogador e o treinador da Naval, o Raul Águas na altura, queria levar-me mesmo sem me ter visto a jogar ao vivo, pois tinha gostado do que viu na cassete. Isso foi no final de maio, eu tinha de estar no início de julho em Portugal para a pré-temporada, e falei para o Adelson “Então se é assim, deposita o dinheiro na minha conta, não jogo mais aqui em Mato Grosso e fico à espera para ir para Portugal”. Na segunda, ele depositou o dinheiro e pensei logo “Agora sim, eu acredito que é verdade que vou para Portugal” (risos). E foi assim que vim para a Naval.

BnR: Como foi a adaptação a Portugal? Sentiste alguma dificuldade nos primeiros tempos?

W: Confesso que foi um pouco estranho, pela seriedade dos treinos, a disciplina e o rigor, a intensidade de jogo no começo da aventura. É engraçado pois o treinador que me trouxe não chegou sequer a iniciar o campeonato. Houve uma divergência com o presidente, o Aprígio Santos, e ele saiu antes do início do campeonato. Chegou depois um novo treinador, o José Dinis, quando a equipa já estava toda montada, com outro princípio e estilo de jogo, onde tivemos de nos adaptar rapidamente. No primeiro ano, eu estranhava o porquê de num jogo ter sentido que tivesse feito uma boa partida e já me dava garantias que fosse jogar no jogo seguinte, e algumas vezes isso não acontecia e não gostava, ia falar com o treinador a perguntar o porquê de muitas das vezes não jogar de início, ao que ele dizia “Jogamos de forma diferente, e tu só queres estar na frente, vir para trás está quieto. Vamos jogar fora, entras na segunda parte e rebentas com eles na segunda parte” (risos). Era difícil gerir isso, até perceber que o futebol é para frente e para trás.

BnR: Estás três anos na Figueira da Foz, onde jogas 98 partidas e marcas 33 golos. Que importância teve a Naval na tua carreira?

W: Quando cheguei ao clube, dei-me muito bem com o presidente Aprígio Santos e estou-lhe muito grato. Tudo o que eu pedia e necessitava, ele estava sempre pronto a ajudar. Assinei por três anos, em que no primeiro ano o objetivo era não descer de divisão, e para quem não conhece de facto o campeonato pode achar que é pouco, mas na verdade a Naval nas duas vezes anteriores em que subiu à Segunda Liga, descia no ano seguinte e felizmente conseguimos atingir o pedido. Nessa época fiz sete golos, na seguinte marquei 10 e no terceiro ano fiz 16, e esse último foi crucial para ir para a Primeira Liga. Desde o primeiro ano tinha uma proposta da Académica, falavam sempre muito, mas como tinha contrato com a Naval era mais difícil sair. No segundo ano,  falou-se no Paços de Ferreira, mas preferi ficar na Naval, pois ia receber menos e não estava no meu pensamento ir para a Primeira Liga ganhar menos do que já recebia, por mais que isso fosse o meu objetivo desportivo. No último ano do contrato, as coisas estavam a correr bem e até em janeiro já tinha 10 golos marcados no campeonato, então foi algo natural essa ascensão à Primeira Liga.

BnR: E aquela história que envolve o presidente da Naval e uma galinha preta?

W: Isso foi numa fase em que nós estávamos sem ganhar em casa há algum tempo, e ele soltou a galinha preta de um lado do campo para ela passar dentro da baliza para ver se a bola entrava (risos). Só que começou a chegar o início do jogo, e ninguém estava a conseguir apanhar a galinha, tanto que até foram chamar os jogadores para ajudar a pegar a galinha. Até me lembro que houve alguém que chutou a galinha, e o presidente ficou bem chateado por quase matarem a sua galinha (risos).

BnR: E depois disso tudo, acabaram por vencer esse jogo (risos)?

W: Ganhámos sim. Depois até dissemos ao presidente “Passe a galinha mais vezes durante a semana, deixe ela andar ali dentro da baliza” (risos).

BnR: Visto que tiveste uma passagem importante pela Naval onde até chegas a ser capitão, ficas-te triste com o que aconteceu ao clube? E tens acompanhado o ressurgimento do projeto?

W: Acompanho sim, tenho amigos na Figueira (da Foz) e Buarcos também. De certa forma, foi muito triste pois é um clube que me diz muito e projetou-me aqui em Portugal. Tenho um carinho imenso, tanto que, quando assinei pelo Braga, pensei: “Será que me vou adaptar à cidade de Braga? Vou gostar assim tanto como gosto da Figueira e das pessoas de cá?”. A Naval era um clube muito familiar com pessoas simples e que davam tudo pela equipa. Havia um grande carinho dos adeptos para com os jogadores, e pensava se também iria ser assim em Braga. Felizmente, acabou tudo por dar certo e vou todos os anos à Figueira onde tenho amigos e torço para que a Naval volte a ocupar o espaço que sempre teve no Futebol nacional.