A ‘casa emprestada’ de inquilinos é um fenómeno relativamente comum no mundo do futebol e acontece, na maioria das vezes, quando determinado clube não tem as devidas condições para jogar no seu recinto, entre outras razões. Se existe quem esteja habituado a esta realidade de jogar em terreno alheio, esta vai agora fazer parte do quotidiano do futebol português numa escala, ela sim, incomum.

Devido às imposições da Direção-Geral da Saúde nestes tempos excecionais, vamos passar a ver menos estádios do que o normal, num período em que a partilha não coincide com as recomendações gerais de distanciamento que nos são incutidas. E partilhar vai ser a palavra de ordem, uma vez que há clubes que vão repartir o mesmo recinto com outros nesta parte final da época. Assemelha-se até a um pequeno torneio, com algumas equipas a utilizar estádios alheios para terminar uma época que terá a sua integridade ferida, não representando os moldes normais de um campeonato de futebol, levando diversos clubes a fazer um último esforço, de modo a reformular as condições dos seus próprios recintos para que estes sejam aprovados na inspeção.

Os novos inquilinos preparam as bagagens para usufruírem de um local que lhes foi admitido pelos responsáveis e construírem ali a sua nova casa durante mais de um mês. Qual estágio de pré-época. Ao que parece, vamos ter futebol quase todos os dias, numa equação de 90 jogos em oito semanas. Por isso, recomenda-se uma estadia saudável entre todos, uma vez que há estádios que devem ser utilizados mais do que uma vez por semana, onde os recém-chegados devem deixar tudo em ordem no final de cada partida, assim como os anfitriões, neste novo mundo em que os cuidados sanitários passaram a estar ainda mais no topo das prioridades.

Nem Coates nem nenhum outro jogador voltará a ver este cenário nas bancadas até ao término do campeonato
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Encontram-se oficialmente nesta situação Belenenses SAD, CD Santa Clara, FC Famalicão e Moreirense FC, formando o lote de hóspedes que seguirão rumo a novas paragens para concluir uma prova até agora tranquila para os quatro. Os do Jamor não notarão grandes diferenças, pois terão uma deslocação curtíssima até à Cidade do Futebol. Estes vão ter a companhia dos açorianos, que são aqueles que vão estar verdadeiramente longe do seu habitat e que certamente irão sentir falta dos ares da sua ilha, que tanto os ajudou a colocarem-se na posição estável em que se encontram.

Anúncio Publicitário

Do lado dos nortenhos as deslocações serão relativamente curtas. Prevêem-se estadias calmas e em conformidade com as regras básicas de vizinhança, de uma forma geral, pois se há algo que não vai existir são momentos barulhentos e de confusão, uma vez que as portas fechadas ao público assim o impedem. Este é, de facto, um ponto chave do código de vizinhança global, aquilo que muitos anseiam quando veem caras novas a chegar. Pelo menos é aquilo que se espera do ambiente ao redor de todos eles, anfitriões incluídos.

Numa fase marcada por avanços e recuos no anúncio dos estádios com condições para receber a parte final da prova, soube-se, entretanto, que a maioria deles foram aprovados pela DGS, enquanto outros têm ainda de realizar um conjunto de correções para que possam ser novamente vistoriados. Estes esperam passar no próximo exame, como se se tratasse de uma melhoria à nota, tentando ultrapassar a reprovação de que foram alvo. Tudo isto já devia estar mais adiantado e contribui naturalmente para o crescendo de especulações quando faltam alegadamente duas semanas para o regresso. Pelo meio, existiram ameaças de impugnação ao campeonato, numa novela à portuguesa que serviu para apimentar as últimas semanas que mais se pareceram com o período de defeso.

Falou-se da possibilidade de o Vitória FC se juntar a Belenenses SAD e CD Santa Clara na Cidade do Futebol, num verdadeiro três em um. A mim parece-me que o metro quadrado em Oeiras se encontra demasiado preenchido para albergar azuis, vermelhos e verde e brancos ao mesmo tempo. Mas só me parece. Imagine-se agora que esta partilha de estádios envolvia os três grandes ou até os rivais minhotos SC Braga e Vitória SC. Havia de ser bonito. Bem, matéria noticiosa não iria faltar de certeza.

Agora que muitos clubes têm a sua situação resolvida e outros ainda têm de deitar mãos à obra para não terem de ir bater a outras portas, não faltará muito para vermos o cenário definitivo para o recomeço dos jogos. Num processo com mais dúvidas do que certezas, arrisco dizer que não vão ser acrescentados novos inquilinos ao lote atual e novos temas controversos surgirão até a bola começar a rolar, numa realidade atípica e para a qual é essencial uma grande capacidade de adaptação.

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão