TRIBUNA VIP é um espaço do BnR dedicado à opinião de cronistas de referência para escreverem sobre os diversos temas da atualidade desportiva.

O futebol ensinou-me a ficar no meu canto. Sobretudo nas derrotas ou no seu luto. A não me intrometer, mesmo quando quero muito ajudar. É que há momentos em que só o balneário se pode abraçar. Só o balneário pode gritar e baixar a cabeça e até atirar a toalha ao chão. E por muito que queiramos ajudar, por muita vontade de distribuir abraços ou (desculpem-me) caralh**as, o melhor que podemos fazer é ficar de fora. É deixar o grupo viver o momento enquanto grupo, enquanto balneário. É tramado, mas é o que tem de ser. Ajudar, muitas vezes, é ficar do lado de fora.

O jogo do Rio Ave FC com o AC Milan foi o que mais me marcou em toda a época. Tenho esta imagem gravada na memória: um grupo de homens saídos de um nevoeiro, de braços dados, debaixo de uma chuva impiedosa. Completamente encharcados a ver um sonho fugir-lhes pelas mãos.

Na altura tive vontade de escrever sobre isso, acabei por desistir, derrotada pela frustração de não encontrar palavras que estivessem à altura da grandeza do momento. Bem sei que o futebol é um jogo, que ora se ganha, ora se perde e que “só falha quem lá está”, e que é mesmo assim. Sei disso tudo, mas por muitas armaduras que vistam, não me convencem quando me tentam fazer crer que uma coisa destas não dói, não deixa marcas. Dói, dói que se farta. Não tenham medo de admitir.

Nessa noite de outubro, um clube do norte do país fez com que milhares se ligassem à televisão durante pelo menos 24 intermináveis penáltis. Não era o Rio Ave que sofria e sonhava, nem tão pouco Vila do Conde, eram milhares de portugueses que, sem qualquer afinidade especial pelo clube, se viram embrenhados naquele sonho. D. Sebastião teria regressado no tão típico nevoeiro dos Arcos para retomar uma batalha que agora se travava entre David e Golias. Não aconteceu. Tombámos todos. Eles tombaram sozinhos, num estádio mais vazio do que nunca. Ah! A dor de ser quase!

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Não sou do Rio Ave desde pequenina. Não sou sócia, nem propriamente adepta convicta. Tropecei no clube num estágio da faculdade, em 2012. Na altura vivia em Paredes, estudava na Maia. Estagiar no Rio Ave implicava fazer todos os dias 120 km, 60 para cada lado. Já adorava futebol, mas conhecia pouco o clube de Vila do Conde. O estágio era curto em duração, mas intenso. Na fase final dessa temporada, o Rio Ave lutava pela manutenção e recebia nos dois últimos jogos em casa Benfica e Porto, ambos na luta pelo título. Com o Benfica a precisar de ganhar, a tarefa de pontuar para o Rio Ave tornava-se ainda mais difícil.

A tensão era muita, mas confesso que estava mais tensa com as tarefas que tinha de desempenhar pela primeira vez num jogo como este. Sentia as dores do clube, mas profissionalmente. Porém, nesse Rio Ave – Benfica de 2012, alguma coisa mudou. Lembro-me que o jogo estava já adiantado, cumpridas as tarefas, não tinha já nada para fazer a não ser ver o jogo, acompanhar o sofrimento dos meus colegas. Perto de mim, imparável, sem se conseguir sentar, estava a “Dona”, à primeira vista a pessoa responsável por tratar de equipamentos e pequenos-almoços da equipa.

À primeira vista, porque a Dona é muito mais. Andava de um lado para o outro, perto de um ataque. Eu dizia-lhe que ia correr bem, que tinha uma estrelinha da sorte, que acreditasse. Os minutos iam passando e com eles as dores da Dona Alexandrina iam aumentado e contagiando todos à sua volta, eu incluída. O Rio Ave a ganhar 1-0 desde os 8 minutos via Nolito a empatar para o Benfica aos 37, logo depois Cardozo convertia um penálti que aquecia a luta pelo título e empurrava o Rio Ave para a segunda. Dez minutos depois, porém, Yazalde atira para o fundo das redes aquele que viria a ser o golo pela manutenção. A ansiedade presa no corpo a explodir em alegria.

Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Eu já não estava no meu habitual sofrimento profissional, já estava ali qualquer coisa a nascer. Foi um daqueles jogos de nervos até ao fim. Eu sempre de olho na Dona a achar que lhe podia dar qualquer coisa. O árbitro apita. Agarramo-nos em abraços, ela a chorar e eu comovida com aquilo tudo. Comovida com a emoção dos que me rodeavam. Estava ali há pouco mais de um mês, ainda não conseguia sentir o que eles sentiam, mas tudo aquilo era contagiante, agarrou-me.

Foi ali, com aquelas pessoas, que fiquei a sentir um bocadinho das dores do clube. Não sei de cor o 11 habitual desses tempos, mas lembro-me dos que sentiam o clube ali ao meu lado. Foi neles que pensei quando assisti à queda deste ano. “Um abraço à Dona. Ganhem pela Dona”. E posso dizer-vos que muitas vezes me imaginei a abraçar a Dona, mas D. Sebastião nunca chegou e o nevoeiro foi-se tornando cada vez mais denso e negro.

O Rio Ave FC desceu de divisão e eu não venho aqui dizer-vos porquê. É tempo de questionar mais do que responder. Dir-me-ão, com razão, que o futebol é mesmo assim, é um jogo entre cair e levantar. Pelo caminho vão-se contando muitas histórias, vão-se mudando personagens, mas há um elenco fixo. As “donas Alexandrinas” sobrevivem para nos contagiar com o seu amor desenfreado. São elas que me fazem ver a poesia do futebol e acreditar sempre um bocadinho, mesmo quando o sonho está desfeito.

Artigo de opinião de Márcia Ribeiro Pacheco,
comentadora Canal 11

Artigo revisto por Joana Mendes


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