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Com o ano 2014 a fechar e com o ano 2015 a bater à porta, solta-se um sentimento de “balanço”. Ou melhor, liberta-se uma vontade de olhar para trás e para frente e elaborar um pensamento – mais ou menos – crítico sobre os factos.  Isto acontece a todos nós e o espectro a que somos solicitados a refletir é largo: desporto, finanças, economia, política, enfim… O quotidiano. Como é evidente não se pretende fugir à regra e as linhas que se seguem serão dedicadas a algumas anotações sobre o futebol de formação no (quase passado) ano de 2014 e igualmente dedicadas a alguns votos para 2015.

É essencial avaliar, planear e agir. Creio que este é um dos pensamentos mais relevantes de 2014. Esta é a ideia que mais me passou pela cabeça ao longo do ano. Curiosamente é a mesma com que entro em 2015. Creio que o futuro passa pela junção daquelas três acções sob a alçada de um plano nacional para o desenvolvimento. Em 2014 ficou provado que há potencial mas é fundamental repensar a organização, no fundo é necessário alterar (ou revolucionar?) a acção e a estrutura do futebol, sobretudo do futebol de formação.

Em termos do trabalho que se tem desenvolvido em Portugal, apesar de haver uma série de coisas por fazer e uma outra série de questões por responder, creio que ainda se obtiveram algumas avaliações positivas. Contudo, adiante vou exemplificar, nas metas finais faltou-nos aquele background que outras realidades desportivas já desenvolveram. A destacar:

A selecção nacional de sub-19. Sim, os nossos Juniores têm qualidade. Mais qualidade do que a maioria dos jovens  futebolistas da mesma idade em quase todos os países da Europa (e quiçá do mundo). E sobretudo são jovens atletas com uma considerável capacidade de trabalho. Fruto disso foi o vice-campeonato da Europa conquistado pelos jovens comandados por Hélio Sousa. E sim, novamente, também temos bons formadores e isso pode ser personificado neste seleccionador nacional: o desempenho dos sub-19 é também fruto da competência de quem comanda e pensa o trabalho desenvolvido.

Durante diversos anos Portugal foi campeão europeu e campeão do mundo nos mais diversos  escalões das camadas jovens. Perdeu a organização que suportava esse trabalho e consequentemente perdeu a continuidade dessas experiências. Em 2014, apesar das dificuldades e dos “milagres”, Portugal voltou a sentir o que é estar no topo. Isto é um sinal importante e deveria ser o ponto de partida para a tal tripla avaliar, planear e agir. Apesar deste trabalho muito positivo, temo que tudo isto possa não ter a devida sustentabilidade. E sejamos realistas, naquela final a 31 de Julho contra a Alemanha notou-se que faltava aquele “bocadinho assim”. Enfim, os meninos alemães têm um background, têm um projecto de formação por trás (que os produziu e os suporta) e acima de tudo já contam com um número muito decente de minutos na Bundesliga. E tudo isto, como é evidente, faz a diferença ao mais alto nível.

Mas o nosso potencial está ali e não pode ter morrido naquele fim de tarde. Creio que para o ano de 2015 é essencial manter os objectivos bem definidos e procurar formar e gerir com excelência a fim de visar desempenhos de nível igualmente elevado. Viver na sombra destes sucessos passados tem um preço demasiado caro e nós portugueses conhecemos bem esse final. Assim urge a necessidade de 2015 ser sobretudo um ano de avaliação e reconhecimento para que futuramente se possa balizar o trabalho e dar-lhe uma lógica de continuidade.

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Selecção nacional sub-19 após vitória sobre a Sérvia no Euro 2014
Fonte: FPF

 

Outro destaque de 2014 foi a participação dos sub-19 do Sport Lisboa e Benfica na Youth League. Mais do que um sintoma positivo para o Benfica, este é um sintoma positivo para o futebol jovem nacional. Esta foi uma campanha de excelência que merece ser analisada por quem gere o nosso desporto. O que afirmei anteriormente acerca da selecção nacional de sub-19 é o mesmo que afirmo acerca deste caso. E sim, também naquela final com o Barcelona faltou o tal “bocadinho assim”. Caro leitor, o background do Barcelona fez a diferença.

Ainda em relação ao tema da Youth League, creio que já no decorrer da época 2014/2015 as equipas portuguesas ficaram abaixo das expectativas. Bom, talvez nem tanto. “Quem semeia ventos colhe tempestades” e como tal creio que os nossos jovens competem dentro do nível que lhes é possibilitado. É evidente que há sempre espaço para melhorias, mas, enfim, a questão do background e dos projectos formativos faz novamente a diferença ao mais alto nível. Para o bem e para o mal aquilo é a Champions League do futebol de formação e como tal os nossos jovens atletas estão sujeitos a um choque competitivo. Contudo convém recordar que só com “minutos” se consegue evoluir e como tal o essencial está lá. Não é pedagógico castigar apenas à luz dos resultados.

E selecção nacional de sub-21? Sim, merecem todo o destaque. Excelente trabalho dos nossos jovens atletas e do seleccionador nacional Rui Jorge. Disciplina e competência, creio que foram as palavras-chave. Atingir o campeonato da Europa daquela forma é algo digno de reflexão. Os bons exemplos são para se seguir e por isso mesmo, tal como acima referi, creio que é esta a ideia a reter para 2015. Este trabalho do ponto de vista do planeamento, da preparação e da gestão foi extremamente bem executado, portanto espera-se que a restante estrutura da Federação Portuguesa de Futebol consiga acompanhar esta lógica.

A questão que se coloca a nível federativo no que se refere a 2015 é exactamente a nível da sustentabilidade e da continuidade do trabalho. Creio que não é claro se existe ou não algum plano ou projecto a médio prazo ou a longo prazo. A “Casa das Selecções” deixa algumas pistas e é um sinal muito positivo, contudo apesar dos excelentes trabalhos dos seleccionadores nacionais Hélio Sousa, Rui Jorge, Peixe (atingiu as meias finais do Euro sub-17 em 2014) e Filipe Ramos (responsável pelo bom trabalho nos sub-17), receio que ausência de um plano de desenvolvimento que vise todo o futebol nacional possa levar a uma dada estagnação da situação actual. Ou seja, é essencial evitar que na federação se trabalhe no método “cada um com a sua quintinha” e é igualmente pertinente que a mesma entenda o papel que deve assumir no sentido de estimular o surgimento de novos talentos e de novos formadores. Neste aspecto tomo a liberdade de ser mais atrevido: não seria o ano 2015 o momento certo para a Federação Portuguesa de Futebol começar a intervir activamente no terreno e a trabalhar em maior proximidade com os clubes, com a liga profissional de futebol e com as associações?

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Rui Jorge momentos antes do Portugal vs Holanda no play-off de apuramento para o Euro 2015
Fonte: FPF

Rúben Neves e todos os jovens jogadores que conseguiram o seu espaço no futebol profissional. Neste capítulo coloco Neves à cabeça por ser de facto um talento de enorme valor que se denota pela sua maturidade e critério enquanto executante. É um bom exemplo para o futebol nacional e é bom para o nosso futebol que o mesmo não se venha a sumir das escolhas do treinador do Futebol Clube do Porto. Mas por aí existem outros valores que desejo destacar como Rafa (Braga), Ricardo Horta (ex-Setúbal e agora Málaga), Tomané, André André, Alex (Guimarães), Sérgio Oliveira (Paços de Ferreira), Tozé (Estoril), Miguel Rosa (Belenenses), Mané, Cedric, João Mário, William Carvalho, Paulo Oliveira (Sporting), André Almeida (Benfica), José Sá (Marítimo), Luís Martins (ex-Gil e agora Granada), André Gomes (ex-Benfica e agora Valência) e tantos outros que se têm destacado pela qualidade e persistência.

Olhar os planteis das selecções de sub-19, sub-20 e sub-21 deixa-nos com um certo sabor amargo na boca pois é possível reconhecer tantos jovens  com um potencial inegável que poderiam perfeitamente militar nas cinco ou seis melhores equipas do nosso futebol. Uns têm conseguido, outros nem tanto. Contudo analisar aquela lista de internacionais deixa-me sobretudo cheio de esperança. É fundamental que em 2015 estes jovens possam consolidar o seu espaço, continuar a evoluir positivamente e em alguns casos dar o salto para os “três grandes”. Para outros é altamente relevante um regresso a casa mediante uma aposta séria na formação: Cancelo e Bernardo Silva são dois belos casos a estudar.

Um Minho campeão e outros bons trabalhos. Por fim gostaria de destacar ainda alguns clubes que merecem o devido destaque no futebol de formação quanto ao ano de 2014. Não querendo insistir apenas nos resultados e na competição “pura e dura” creio que a conquista do campeonato nacional de sub-19 (Juniores) por parte de Braga e a conquista do campeonato nacional de sub-17 (Juvenis) por parte do Vitória de Guimarães são feitos extremamente assinaláveis. Acredito que não pode haver grandes dúvidas quanto ao bom trabalho que ambos os clubes estão a desenvolver ao nível do futebol de formação. No Minho estão a trabalhar muito bem e isso parece-me ser um dos destaques do ano de 2014. Como menção honrosa gostaria ainda de referir que 2014 confirmou o bom trabalho de clubes como o Oeiras e a União de Leiria (entre outros) que conseguiram desenvolver projectos e aplicar trabalho que lhes permitiu estar no topo dos campeonatos nacionais.

Ainda neste tópico, apesar da crise que nos assola a todos, é cada vez mais possível constatar que em clubes de menor dimensão se está a trabalhar com um real sentido de excelência e sobretudo com opções metodológicas adequadas e actualizadas. Portanto creio que 2015 deve ser um ano para dar continuidade a esta evolução, assim como é altamente desejável neste ano de 2015 que “quem manda” consiga descer ao terreno e tomar consciência desta realidade. Tal atitude por parte das autoridades gestoras seria fundamental para que 2015, 2016, 2017 e por aí em diante fossem anos felizes para o futebol jovem em Portugal.

Haverá sempre muito mais para destacar e mencionar contudo é possível que os grandes casos do nosso futebol jovem estejam aqui referidos. Se não estiverem peço ao caro leitor que use e abuse da caixa de comentários. Na verdade a prática é de facto o critério da verdade, assim sendo sejamos práticos. Sobretudo espero que este conceito sobre a prática seja uma realidade no ano de 2015 para o nosso futebol de formação e para Portugal. Que 2015 nos traga a todos bom futebol, valores de qualidade com os quais ansiamos por vibrar e sobretudo novos horizontes. Um bom ano a todos.

 

PS: 2015 seria um bom ano para que se começasse a analisar uma restruturação e uma organização mais séria do Desporto Escolar e do futebol a nível universitário. São espaços fundamentais e com um considerável raio de acção que por razões incompreensíveis estão altamente subaproveitados e desvalorizados. Inclusive até do ponto de vista pedagógico e educativo haveria diversas vantagens. Fica a sugestão.

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