formaçao fut

Acabou o campeonato, e a época desportiva 2014-2015 caminha a passos largos para o final. No que se refere à juventude e à formação existem alguns nomes que é obrigatório destacar, contudo ficamos com a sensação de que poderia ou deveria haver mais jovens a ser destacados em artigos desta natureza. Sobretudo jovens formados em Portugal que se vão afirmando, oferecendo corpo ao espetáculo e dando sustentabilidade à prova.

Há algo que é de difícil compreensão: como é que o nosso campeonato e as restantes provas (assim como as nossas seleções) desejam sobreviver de forma sistematicamente insustentável no que se refere à entrada de novos jogadores? Insustentável no sentido em que é a partir do desenvolvimento de novos e de jovens valores que se pode conferir sustentabilidade ao sistema. Clubes, campeonatos e seleções só existem porque existem atletas para jogar, e é evidente que em Portugal é fundamental reforçar esta questão.

A forma como em Portugal se contorna este assunto é, desde há largos anos, a aposta no menor esforço e no menor dispêndio de recursos: contratar barato ou muito caro no estrangeiro. Comprar feito e com risco intermédio. Gerar dívida atrás de dívida. Isto é algo que não deixa de ser interessante para um país sem dinheiro. Assim, vamos bloqueando a formação, vamos dando espaço a agentes que já chegam formados e vai-se agravando a dívida e o passivo. A entrada de jovens atletas formados em Portugal continua com números baixos, mas endividamento e prejuízo das organizações tende a manter-se alto. Isto é insustentável.

Para que haja uma estrutura sustentável é necessário que a própria organização se consiga reproduzir, que consiga gerar recursos dentro de si mesma e sustentar os seus pilares. Uma forma de o fazer passa sobretudo por formar jovens atletas e formar os mesmos com as qualidades necessárias para que os mesmos consigam, a curto ou médio prazo, assumir o espetáculo para o qual estão a ser encaminhados.

Pois formar por formar não faz sentido, lançar talento para o “lixo” faz ainda menos. Gerar dívida porque não nos apetece perder tempo e ter trabalho é simplesmente patetice. É urgente tornar as nossas provas e as nossas estruturas sustentáveis, é urgente cobrir saídas e retiradas com jovens atletas, com atletas de qualidade e com atletas formados nos nossos clubes. É fundamental formar para o clube, formar para o todo competitivo.

O nosso futebol, o nosso modo de operação, as nossas estruturas e as nossas dinâmicas não são sustentáveis. A liga portuguesa não é a liga inglesa nem tampouco a liga espanhola. Se queremos chegar ao topo há que revitalizar, há que saber reproduzir o sistema, e sobretudo saber reproduzir bem e com uma evolução constante positiva. Ou seja: reprodução, rejuvenescimento e melhoria contínuas.

É fundamental que a Federação Portuguesa de Futebol, a Liga de Clubes e os próprios clubes compreendam que é necessário revitalizar, dinamizar e sustentar o nosso sistema. E sim, pois claro, vivemos num país “falido” com um futebol que vive acima das fracas possibilidades financeiras. Ora, se assim é, há que olhar para dentro e pensar que o futuro sustentável está aqui mesmo dentro de nós. Olhem para a pequena “mina de ouro” que brota através dos relvados e pelados deste país e criem uma dinâmica sustentável que nos faça crescer e ganhar.

Hélio Sousa à conversa com os internacionais sub-20 portugueses Fonte: FPF/Célio Agostinho
Hélio Sousa à conversa com os internacionais sub-20 portugueses
Fonte: FPF/Célio Agostinho

Quanto aos nomes que se destacaram nesta época desportiva, creio que esta edição 2014-2015 da liga nos revelou alguns jovens que certamente vamos seguir com expectativa no futuro. Rúben Neves e Hernâni são dois dos jovens mais entusiasmantes que podemos encontrar nos grandes e que nesta época ganharam espaço e visibilidade. Gonçalo Paciência e Gonçalo Guedes têm deixado apontamentos extremamente positivos, mas há que saber esperar. Seria positivo ver mais juventude e qualidade desta nos três grandes do nosso futebol.

Pizzi, André André, Bruno Moreira, Ricardo Valente, Miguel Rosa e Marco Matias já não são “benjamins” – estão entre os 24 e os 27 anos de idade – contudo são jovens formados em Portugal e que nesta época se afirmaram desportivamente. Penso que estes rapazes indicam o caminho que podemos percorrer. Demonstram sobretudo que há qualidade e potencial – algo que, apesar das “trapalhadas”, Portugal nunca deixou de ter.

Tomané e Alex continuam a ser nomes a ter debaixo de olho; a boa regeneração do Vitória de Guimarães dependeu em boa parte, entre outros nomes, destes dois jovens. Ederson Morais e Diego Lopes, não sendo portugueses, fizeram grande parte da formação em Portugal. Com a camisola do Rio Ave tornaram-se dois dos mais promissores futebolistas do nosso campeonato. Merecem espaço de destaque, sem dúvida. A qualidade não engana.

Zé Luís apenas chegou a Portugal como Júnior para representar o Gil Vicente. Mas também ele é um dos nomes mais fortes da liga portuguesa. Continuaremos a ouvir falar em Zé Luís? 2015-2016 o dirá.

Por fim, gostaria de destacar Danilo Pereira. Jovem com reconhecido valor desde há alguns anos. Com apenas 23 anos já experimentou Itália, Grécia e Holanda. Sem razão aparente não teve espaço em Portugal e andou em tais aventuras pela Europa. Voltou a Portugal para vestir a camisola do Marítimo e é hoje, na minha opinião, um dos melhores médios defensivos do futebol português. Talento, intensidade e potenciais elevados fazem dele um jovem promissor. Será que “chegará lá”? Veremos o que o futuro lhe reserva.

Apesar de aqui encontrarmos diversos nomes com talento e com um potencial bastante assinalável, creio que com um plano de desenvolvimento sustentável e uma reforma no futebol português profissional e de formação seria natural assistir à multiplicação de jovens em destaque. Não querendo ser pessimista penso que atualmente o cenário poderia ser melhor e tenho a certeza de que a nossa realidade poderia “dar mais”. É tudo uma questão de reflexão e ação. Pensem nisso.

PS: A seleção nacional de sub-20 está prestes a entrar em ação no Campeonato do Mundo de sub-20. O passado recente deste grupo de trabalho e o plantel atual permitem antever um bom desempenho. Contudo, o mais importante passa por observar o crescimento dos jovens que dão corpo aos sub-20. Estamos perante um grupo que nos pode devolver esperança; vejamos se todos os interessados vão fazer o trabalho de casa.

Foto de Capa: Federação Portuguesa de Futebol

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