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«Na próxima época teremos quatro ou cinco jogadores da formação no plantel profissional, é irreversível». Foram estas as palavras do presidente do Sport Lisboa e Benfica quanto ao futuro do clube. É com este exemplo que decidi abrir a reflexão desta semana. Pelo meio, Luís Filipe Vieira ainda deu a ideia de que este é que é o caminho mais correcto e que é por aqui que passa o futuro – irreversivelmente pela formação. Pois muito bem, não me diga?! O problema de todo o futebol português foi quando a formação deixou de ser o caminho. Este discurso e esta “súbita” vontade (veremos se se transforma em prática) surgiram quando a crise financeira nos bateu duramente à porta. Até aqui a formação era para vencer uns campeonatos de Iniciados, Juvenis e Juniores e logo se via se era possível potenciar alguns talentos (aqueles mais determinados que teimavam em não desistir). Vejamos alguns exemplos:

O Sporting Clube de Portugal foi o primeiro a olhar para dentro: a crise quase o levou à rotura total, e assim foi forçado a olhar para a excelência da sua formação. Muito bem feito. Mas e se não tivesse havido crise nem presidências à moda das segundas divisões distritais? Fica esta abertura para a reflexão. O Vitória de Guimarães, sem dinheiro para aventuras, apostou na juventude e está agora a colher os frutos: um lote de belos atletas que são resultado de um bom trabalho que este clube tem feito no futebol de formação. Por falar em clube minhoto, onde andam os campeões nacionais de juniores do Sporting Clube de Braga? Por fim, Benfica e o Porto são os dois grandes que possuem academias de excelência mas que se encontram ainda numa fase em que necessitam de avaliar a realidade e de entender o papel determinante do futebol de formação. Apesar de haver sinais de mudança, julgo que nestes dois últimos ainda há muito por fazer no que se refere às oportunidades concedidas aos jovens atletas na equipa principal e também no que diz respeito à transição de atletas do futebol de formação para a alta competição. Não deveriam estes clubes ser capazes de ter um método para assegurar este processo? Fica a questão.

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Bernardo Silva ao serviço da seleção Sub-21
Fonte: FPF

Contudo, isto não se reduz apenas a estes nomes (grandes, por sinal). Este é um problema que toca a tudo e a todos. A questão estende-se desde a Federação Portuguesa de Futebol, passando por todos os clubes que militam nos campeonatos profissionais e acabando nos clubes com estruturas mais light que militam nos distritais mas que também formam atletas – inclusive alguns desses atletas com origens mais “humildes” conseguem profissionalizar-se.

É evidente que o caminho e o futuro do nosso futebol é a formação e os jovens que serão os atletas de amanhã. E isto é assim por diversas razões. A primeira é a sustentabilidade. Que sistema de continuidade consegue sobreviver sem renovação e sem se auto-reproduzir? É óbvio que, para que possa haver campeonatos e para que as nossas equipas sejam competitivas, a aposta tem de ser na formação de novos valores. E é igualmente óbvio que sem capital financeiro essa competitividade e qualidade têm de ser geradas internamente. Assim deverão ser geradas debaixo de modelos e planos claros que visem a formação de atletas de qualidade e que potenciem o que de melhor o nosso futebol tem para oferecer. A realidade é esta: os nossos atletas têm qualidade, têm um potencial enorme e os nossos clubes não têm capital financeiro para viver dos mercados internacionais. Aqui o desafio é ser sustentável com qualidade, e creio que em Portugal já tivemos e temos bons exemplos de que isso é possível.

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De seguida, creio que este é o caminho porque, de facto, tal como referi anteriormente, o nosso país apresenta um potencial muito elevado no que se refere a atletas e formadores. Até quando faz sentido deixar que este potencial seja desperdiçado enquanto se contraem dívidas à banca e etc? Nunca fez sentido e não será agora que irá fazer. É portanto urgente alterar este paradigma de forma estrutural e começar a rentabilizar as nossas qualidades segundo a batuta da excelência. Ao contrário do que se possa pensar, em Portugal é possível ter plantéis equilibrados e atletas de grande qualidade sem gastar largos milhões em transferências. Basta aproveitar o potencial e criar estruturas e infraestruturas que permitam realizar esse trabalho de forma contínua nas bases. A título de exemplo, e que tal haver umas “academias” nos clubes profissionais em vez de meio campo para os iniciados e outro meio campo para os juvenis? E, caro leitor, isto é o mais básico.

Outra razão para que o caminho seja o futebol de formação é o papel que os clubes e sobretudo o desporto possuem na sociedade portuguesa. Mais do que a competição, é importante que os nossos jovens estejam activos e enquadrados em actividades que estimulem o seu bem-estar, a formação cívica e a sua criatividade. O futebol de formação é também, e sobretudo, um espaço de interacção e integração social onde os jovens encontram estímulos e conhecimento que infelizmente o nosso sistema de ensino não tem conseguido oferecer. O desporto é uma arte e um “bom hábito”, e como tal deve ser um caminho a dar continuidade – e sempre que possível dentro da maior qualidade.

Enfim, caro leitor: existem diversas e boas razões para acreditar que o reforço e a aposta no futebol de formação é o tal caminho que o nosso futebol deverá seguir. Estas foram apenas algumas razões que creio que sejam as mais visíveis. Actuar sobre isto não é uma tarefa fácil e exige imensa paciência (coisa que os nossos dirigentes não possuem), mas é sem dúvida o caminho mais sustentável e lógico para chegar a um futuro mais equilibrado e quiçá mais “risonho”.

A questão preocupante aqui é o ponto a que se chegou: o conceito de formar jovens atletas e apostar neles parece uma absoluta novidade e constitui uma capa de jornal. Enfim, o nosso mal é tudo isto parecer novidade e inovação quando na realidade este é o caminho que começámos há uns anos mas que abandonámos a meio em nome do capitalismo desportivo ou da mera desorientação. Contudo, creio que hoje se podem começar a dar uns passos em frente, pois parece haver uma maior reflexão acerca desta problemática. Por agora há que aguardar por um debate mais sério sobre este tema, há que criar as bases para uma planificação efectiva e esperar que declarações como as do presidente do Benfica não continuem a ser apenas promessas vãs e marketing barato.

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Tozé (emprestado ao Estoril) e Ricardo Pereira (plantel do FC Porto), com Bernardo Silva ao fundo (emprestado ao Mónaco), Fonte: FPF

 

Todas as fotos foram retiradas do site fpf.pt

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