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“Temos de encontrar uma solução, seja onde for. Com o valor do Matic não é fácil. É o melhor médio defensivo do Mundo. Soluções para o Matic na formação? Tinham de nascer 10 vezes”. Foi este o comentário irónico que Jorge Jesus teceu após ter sido questionado acerca da possibilidade de se encontrar na formação do clube um substituto para Matic no meio-campo do Benfica.

A verdade é que formar um jogador com a mesma qualidade de Matic, um dos melhores médios do mundo, recente candidato ao prémio de melhor golo na cerimónia da FIFA, leva tempo. Certamente Matic, tal como Messi, ou Zlatan, ou Ribéry ou até mesmo Cristiano Ronaldo, sofreu um processo de evolução, processo esse que se desenrolou na formação. Matic terá nascido também 10 vezes até chegar onde chegou? Neste momento, Jorge Jesus vê numa miragem um possível “substituto” para Matic, mas não será um erro o técnico do Benfica pensar nesta perspectiva? Na altura em que Eusébio e Pelé estavam na berra, talvez os seus treinadores tenham tido o mesmo sentimento de frustração, mas esse pico de qualidade nessa geração não impediu as gerações seguintes, incluindo a actual, de terem uma montra de ouro para exibir mundo fora.

A ironia utilizada por Jorge Jesus acaba por ser, ela própria, irónica. Principalmente quando, bem pouco tempo antes desta declaração, Luís Filipe Vieira tinha salientado a importância das equipas da formação no clube, falando até de um “Benfica made in Benfica”. Dia 17, Jorge Jesus afirmou estar em consonância com Luís Filipe Vieira na crença de que em 2020, 60 ou 70 por cento do plantel será da formação… Acreditam? Hoje, o Benfica joga contra o Marítimo e no 11 inicial estão exactamente, e se as minhas contas não falham, zero portugueses. Assim sendo, para este objectivo de 2020 do Benfica se concretizar, só vejo duas hipóteses: ou o Benfica já está a tratar da contratação de miúdos argentinos e sérvios para os seus escalões de formação actuais ou daqui a seis anos o treinador já não é o mesmo.

Jorge Jesus podia estar frustrado com a “venda” mal concretizada de Matic (valor da cláusula de rescisão: 50 milhões, valor executado: 25 milhões), mas isso não é desculpa para o técnico não pensar antes de falar. Se a perda de Matic lhe ia causar tanto transtorno, devia ter pensado nisso quando o Benfica não passou aos oitavos-de-final da Champions, passagem que iria garantir muito dinheiro que, certamente, iria preencher a lacuna financeira e evitar a necessidade de vender de imediato o talento sérvio.

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Será que o treinador do Benfica, antes de ser o que é actualmente, nunca foi um jovem com sonhos e ambições? Será que nunca frequentou um curso de treinadores, onde realçam a importância que um treinador tem no percurso dos atletas? O seu comentário, da forma como foi dito e construído, independentemente da mensagem subjacente que queria supostamente transmitir, foi desagradável. Conseguiu, em poucas frases, descredibilizar o trabalho de jovens futebolistas e de técnicos da formação. Mas igualmente desagradável foi a forma como a imprensa usou as reacções de dois jogadores da formação do Benfica. Os jornais tinham duas hipóteses: criar polémica (como fizeram) ou fazer uma notícia que espelhasse a garra destes jovens dispostos a lutar para responder ao “desafio” hercúleo de Jorge Jesus. Tanto Filipe Nascimento como Bernardo Silva tiveram reacções legítimas, dignas do orgulho benfiquista, com potencial de informação bastante positiva para uma abordagem séria sobre a problemática do futebol formação. São benfiquistas de gema, jogam há já muitas épocas de águia ao peito e representam o resultado real do investimento na formação. A águia é o emblema que melhor conhecem, daí ser natural ambicionarem um lugar na equipa principal do seu clube. A imprensa não deveria ter optado por mostrar que a falta de incentivo de Jorge Jesus não derrota “a raça, o crer e a ambição” dos atletas da formação que todos os dias estão dispostos a abdicar de regalias normais de jovens das suas idades e a “morrer nove vezes” para atingirem o “sonho de uma vida”?

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A Maria é uma rapariga que nasceu numa família em que o sexo masculino está em grande maioria, por isso desde cedo começou a ver futebol profissional, a jogar Football Manager, a ler jornais desportivos e a assistir a jogos de futebol formação. Os hábitos e a paixão perduram até hoje.                                                                                                                                                 A Maria não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.