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Em Portugal temos pressa. Estamos apressados, agitados e ansiosos pelo produto final. Mas esquecemos o processo, esquecemos os “meios” que nos levam a dados objectivos. Esquecemos a formação e a forma como a realizamos.

Não há muita paciência, mas sobretudo pensa-se pouco no processo que está em causa. É evidente que toda a gente gosta de ganhar e se forma melhor a ganhar. Mas será que para os jovens de um país com um futebol em crise é mais importante aprender e crescer ou ganhar o campeonato? Será que com esta conjuntura vale a pena exigir a crianças o mesmo que se exige a seniores de alta competição? Eu acredito que não, que não faz sentido.

Seguindo o mesmo caminho, nota-se que se exigem resultados rápidos e muito positivos em idades tenras mas que após uns anos, quando chega o momento de “lançar” o jovem, acontece normalmente uma de duas coisas: ou simplesmente não se lança o jovem, ou, lançando-o, o mesmo apresenta debilidades que o impedem de vingar. E porquê? Porque falhou, normalmente, o processo. Sim, o processo de formação. E se calhar o jovem até foi campeão em todos os escalões etários ulteriores, mas se calhar foi assim através de “caminhos mais curtos” e da ignorância da aprendizagem de certas ferramentas que são determinantes na sua consagração como atleta de competição.

E isto do processo é algo que começa aos seis ou sete anos de idade e que raramente termina antes dos vinte e três anos de idade. E é nas idades menores que esse processo tem de ser rigoroso, adequado e constantemente analisado e adaptado. É sem pressa e com método que se formam os melhores. É evidente que um “fora de série” é sempre um “fora de série”, mas os “comuns mortais” necessitam de percorrer dadas etapas e de ter um acompanhamento pedagógico, que deve ser estruturado e adequado à respectiva realidade.

Portanto creio que procurar sempre “bater na frente” e marcar golos nem sempre é o melhor caminho. Não é errado; é um conceito e é livre de existir. Mas o que defendo é que os jovens necessitam de criar uma mais e constante relação de “intimidade” com a bola e simultaneamente ir gradualmente conhecendo o jogo nas suas diversas dimensões. Necessitam de ser formados para serem atletas competentes e capacitados.

processo corpo
Jovens em acção: concentração e empenho. Carregado Vs. Santa Iria

Um exercício simples: o que se faz com um atleta que só joga directo e que não consegue executar correctamente uma recepção e um passe? O que fazer com um jovem que só corre verticalmente e que não sabe como usar o espaço e ceder linhas de passe aos colegas? São questões que deixo. Normalmente estes problemas existem em muitos clubes portugueses, e a questão é: se tem dez anos, é possível moldá-lo e dar-lhe mais ferramentas. Se tem vinte e três anos, muito provavelmente será pouco útil – senão dispensado. Infelizmente vemos atletas com este perfil a cessar a actividade aos 18 anos porque não têm capacidades para acompanhar os restantes colegas e a exigência do jogo.

Por outro lado podemos também falar de valores e do comportamento. Se a sua moral é ganhar a qualquer custo e reclamar de decisões superiores e das equipas de arbitragem, é natural que venha a ser afastado. Ou seja, o processo de formação vai ao encontro de todas as dimensões. Os nossos atletas devem saber estar dentro e fora do campo, assim como devem ter comportamentos técnicos, tácticos, físicos e intelectuais competentes e dentro do que a modalidade exige.

Convém por isso olhar um pouco mais para o processo. Há que compreender o que se está a fazer e perceber se os jovens estão a evoluir positivamente, se por sua vez estão a crescer como atletas e como seres humanos e se conseguem ser, a título de exemplo, competentes no trato da bola e na compreensão dos momentos do jogo. Há que entender o erro e assumir que o mesmo faz parte da formação. E, por fim, há que saber relativizar o resultado e não enviar o mesmo à “cara” dos jovens como sendo tudo e mais alguma coisa.

Por vezes vemos os jovens serem empurrados pela formação acima, pelo jogo acima, pelo resultado acima, mas esquecemo-nos daquilo de que eles necessitam para crescer. Por vezes vemos tanta pressa para que eles joguem o jogo que depois na idade em que se devem assumir como atletas seniores simplesmente não têm espaço.

E esse espaço depende de muitas coisas, como se sabe, e nem sempre está relacionado com o facto de se estar bem ou mal formado. Mas certamente que um atleta bem formado e produto de um processo adequado terá mais facilidade em procurar o seu espaço – e nem tem de ser no clube onde se formou, poderá ser noutro clube. Agora tenhamos uma certeza: para estes atletas vamos sempre ter espaço no futebol – no desporto em geral – e na sociedade.

P.S.: Um mau exemplo do nosso dirigismo: há dias o clube onde trabalho inscreveu o meu plantel num torneio extraordinário oficial. Este torneio serve para manter os clubes em competição até ao final da época (Junho). Contudo a Associação de Futebol de Lisboa decidiu criar um torneio predominantemente estruturado por eliminatórias a uma só mão onde se privilegia apenas o resultado (a tal lei do mais forte para jovens de doze anos). Ou seja, os “perdedores” só jogam até ao início de Maio; os “melhores” competem até meados do mês de Junho. Quem perde não merece o direito à competição e à formação? As crianças e o nosso futebol não merecem isto.

 

Fotos: Sandra Cunha

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