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A duas matrioskas do Europeu

João Pedro Barbosa · 5 min

Portugal Europeu
Foto: FPF

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Sempre ouvi dizer durante o meu percurso académico que a história não se repete, mas se o caminho da seleção portuguesa feminina não se está a repetir então é puro destino. Espero que acredites no destino, caso contrário não sentirás da mesma maneira do que eu a última parte da afirmação anterior. Enfim, mas a última decisão para Portugal antes de mais um Campeonato da Europa, desta vez de 2022, será novamente no longínquo Leste Europeu, agora na Rússia.

Em 2017, as jogadoras portuguesas ficaram em 2.º lugar em igualdade pontual com a Finlândia – situação contrária a esta qualificação em que as finlandesas lideraram o grupo. O lugar em que a seleção tinha ficado dava direito a disputar um play-off para ainda sonhar com o tão inédito Europeu nos Países Baixos, o primeiro para as portuguesas. A verdade é que depois de um nulo em Portugal e de mais um no tempo regulamentar em Cluj, na Roménia, as decisões ficaram adiadas para o prolongamento.

Ana Borges, com a magia feita pelos seus pés, conseguiu ter a possibilidade de ficar numa excelente posição para passar para Andreia Norton fazer o 0-1, que praticamente punha Portugal no Europeu. As romenas ainda empataram a partida, mas as portuguesas tinham já comprado a passagem de avião para os Países Baixos. Ainda me lembro de em plena aula estar a viver esta bonita história do Futebol Feminino português.

Em 2021, novo cenário de play-off para a seleção portuguesa depois de voltar a ficar em 2.º lugar na qualificação. O local é diferente agora, contudo, só queremos que o desfecho final seja o mesmo e que a seleção portuguesa marque, pela segunda vez consecutiva, presença num Europeu, mas agora o de 2022.

UM PLAY-OFF AO NÍVEL DE UM DESAFIO DE MATRIOSKAS

A equipa russa, que foi comandada durante a qualificação por Elena Fomina, venceu oito de dez partidas na fase de qualificação num grupo em que tinha as atuais campeãs europeias, os Países Baixos. Só frente às holandesas é que acabaria por ter duas derrotas, mas por margens muito pequenas (0-1 em casa e 2-0 nos Países Baixos). Nos restantes jogos, as russas tiveram mais dificuldade em defrontar a Eslovênia, que só venceram pela margem mínima, e a Turquia, onde ficaram com os três pontos nas duas vezes, mas com resultados de 4-2 e de 1-2.

O sistema tático mais utilizado por parte das russas foi o 4-2-3-1, sendo que também houve jogos em que utilizaram algo mais defensivo (4-5-1 e 4-1-4-1), principalmente frente aos Países Baixos. Nos jogos frente às holandesas foi predominante o facto de jogarem em bloco muito baixo, devido sobretudo à qualidade apresentada pelas atuais campeãs europeias. Com equipas semelhantes ao seu nível, acabou por preferiu ter a bola mais na sua posse.

Contudo, Elena Fomina não trocou muitas vezes o seu onze inicial e seguiu, quase sempre, uma equipa padrão. A baliza esteve sempre (exceto um jogo) a cargo de Tatyana Shcherbak, guarda-redes do FK Krasnodar, e à sua frente dois pilares fundamentais, a dupla Anna Belomyttseva e Anna Kozhnikova. Uma dupla de centrais que já vem fortalecida da formação russa do FK Lokomotiv. De destacar também a presença de Marina Fedorova, que marcou cinco golos no grupo de qualificação, e também da goleadora russa Nelii Korovkina, que foi a melhor marcadora da seleção com seis golos.

A equipa do FK Lokomotiv é das formações que mais jogadoras fornece ao conjunto russo

Apesar de conseguirmos estabelecer um padrão de equipa durante a qualificação, quem comanda agora a seleção russa é Iuri Krasnojan. Os últimos dois jogos particulares, frente à Índia e à Sérvia, o treinador russo não mudou muito daquilo que é a base da seleção. Contudo, pode haver aqui algumas alterações significativas que podem ter impacto na preparação para o play-off. O selecionador russo acredita que Portugal tem uma equipa forte e destacou o facto de as portuguesas só terem perdido um jogo durante a qualificação. Além disso, Iuri Krasnojan avisou que não será fácil este play-off para nenhuma das seleções.

Os dois clubes que são um autêntico abono de família para a seleção russa são o PFC CSKA Moscovo e FK Lokomotiv. Todas as jogadoras utilizadas na qualificação estão em clubes russos e Francisco Neto sublinhou este facto como uma possível vantagem para as russas no que diz respeito a uma mais simples preparação.

ESCALA NA RÚSSIA RUMO A INGLATERRA

O mês de abril vai ser fundamental para as portuguesas. Digamos que é mesmo decisivo para marcar presença na fase final do campeonato da Europa. Temos uma seleção forte e competente e que tem vindo a crescer devido à constante aposta por parte dos clubes portugueses no Futebol Feminino.

Já mostrámos que conseguimos lutar frente a seleções com ranking semelhante ou até mais alto do que o nosso. Basta relembrar os embates frente à Finlândia e à Escócia em que houve uma boa réplica por parte das jogadoras portuguesas.

O pior obstáculo pode ser mesmo a segunda mão na Rússia devido às baixas temperaturas que, em princípio, devem marcar também presença. Um aspeto que também já tinha tido presença assídua no jogo frente à Finlândia em que a sensação térmica parecia não ser a mais indicada para estar num jogo. Contudo, as questões climatéricas são impossíveis de controlar e necessitam de uma adaptação por parte da equipa, seja ao relvado (devido ao possível gelo) ou mesmo a nível de condição física.

Portugal começa a caminhada neste play-off para o Europeu em terras lusas a 9 de abril e quatro dias depois tem encontro marcado na Rússia, muito provavelmente na cidade de Moscovo.

Tal como a seleção russa, Francisco Neto também tenta com que o núcleo de jogadoras se mantenha sempre o mesmo por uma questão de conhecimento mútuo por parte das jogadoras, cumprindo claro os padrões de qualidade que tanto quer. Uma decisão que, pessoalmente, concordo a 100% pelo facto de ser desta forma que, normalmente, os grupos funcionam de uma melhor maneira.

Na preparação para estes dois jogos decisivos, as jogadoras e a própria comitiva não podem de todo pensar no histórico “negro” que Portugal tem perante a Rússia no Futebol Feminino. Nem mesmo em rankings. Cada jogo é um jogo e bem preparado pode existir surpresas, porque de facto o Futebol é rico nisso: em surpresas. Os golos podem vir de qualquer jogadora, pois o sentimento português é de que em abril, com mais uma viagem ao Leste Europeu, a história se repita e em 2022 se oiça bem alto A Portuguesa em Terras de Sua Majestade.

João Pedro Barbosa

Redação Bola na Rede · ver artigos