Chegada a fase de Apuramento de Campeão, que valerá a três de oito clubes o regresso às ligas profissionais, Belenenses e Varzim partiram para este desafio com a certeza de que qualquer resultado que não a vitória poderia constituir um obstáculo cada vez maior ao sonho da subida à Segunda Liga. Dessa forma, uma e outra equipa, ao longo de mais de 90 minutos, procuraram transcender-se, tanto numa perspetiva tática como técnica, para conquistar os três pontos da sexta jornada da fase de Apuramento de Campeão da Liga 3. O 3-2 a favor dos azuis do Restelo, conseguido nos instantes finais do encontro, refletiu a qualidade do espetáculo, a ânsia de vencer a partida e, sobretudo, a grande imagem de marca deste campeonato: o equilíbrio. Belenenses e Varzim ocupam agora a segunda e sexta posições, à condição, com 11 e seis pontos, respetivamente.
A criação da Liga 3, na época 2021/2022, é amplamente reconhecida como uma das melhores iniciativas da Federação Portuguesa de Futebol nos últimos anos. Muitos emblemas, outrora caídos no esquecimento, ressurgiram no espaço mediático. Mais do que isso, através da cobertura de diferentes órgãos de comunicação social – em especial, do Canal 11-, o apoio ao clube do bairro, da aldeia ou da vila voltou a ganhar preponderância. Num mundo cada vez mais dominado por agentes desportivos que o utilizam como ferramenta política e económica, a Liga 3, sob o mote “Puro Futebol”, assume um papel que o futebol, na sua génese, deve ter, enquanto promotor de uma identidade regional e unificadora, do espetáculo e do entretenimento. Porém, até mesmo de um ponto de vista mais estratégico e tático, pela homogeneidade qualitativa dos vários intervenientes, os corpos técnicos têm de se transcender. Neste campeonato, todos os detalhes contam. Por esse motivo, os jogadores têm de jogar no limite e exponenciar qualidade técnicas e criativas.
O desafio entre Belenenses e Varzim entregou os ingredientes necessários a qualquer amante do desporto-rei. Para o adepto comum, a genialidade do canto olímpico de Rúben Oliveira, o remate certeiro de Diogo Cabral inspirado em Arjen Robben e o golo de João Gastão, ao cair do pano e num cenário cinematográfico, são alguns dos momentos que tornam este embate inesquecível. Para quem gosta de analisar o jogo, a partida de xadrez refletida na organização ofensiva, defensiva e nos momentos de pressão de uma e outra equipa é, também ela, enriquecedora.


A principal arma do futebol ofensivo do Varzim teve um nome: Joãozinho. Mais adiante, fica a explicação de como Tiago Zorro procurou contrariar a liberdade ofensiva do ex-jogador do Atlético. Fazendo jus ao número que usa nas costas, foi o principal elemento de desequilíbrio da formação poveira, procurando o espaço entrelinhas do bloco defensivo belenense, atuando como terceiro médio e encaminhando-se sempre para o lado da bola, de modo a poder ver-se livre de marcação e pegar no jogo para criar oportunidades de golo. A recarga de Talocha, que registou o 2-2 no placar, foi resultado desse envolvimento do número 10, que partia de uma posição exterior para o corredor central.
Antes, no já referido golo de Dudá, que registou o 2-1 a favor da equipa da casa, um detalhe que permitiu que a bola chegasse aos pés do extremo formado em Alcochete foi a forma como os azuis do Restelo pressionavam em bloco alto. Aproveitando a construção em 4+1 da turma de Nuno Capucho – apesar de defender num 5-4-1, a construir, o central do lado direito, Pedro Nuno, jogava como lateral, Miguel Vila Cova e Chicão mantinham-se como centrais e Talocha era mais um defesa esquerdo, com Francisco França atrás da primeira linha de pressão -, Zorro instruiu os seus jogadores a terem em conta referências de pressão individuais. Como tal, Leitão vigiava Pedro Nuno, Eduardo Souza caía em Vila Cova, Dudá saltava em Chicão, Bandarra perseguia Talocha e Afonso Afonso estava incumbido de não deixar Francisco França rodar e ver o jogo de frente. Assim, foi justamente pelo ajuste dessa pressão que Chicão efetuou mal o passe para França, permitindo a Afonso Afonso recuperar a bola e servir o colega.
Os restantes golos definiram-se também em detalhes, mais ou menos claros. O magnífico canto direto podia ser evitado pela presença de algum jogador ao segundo poste. Tanto os tentos de Diogo Leitão e de João Gastão, o primeiro e terceiro do Belenenses, respetivamente, denotaram alguma incapacidade dos visitantes em dominar e controlar a área defensiva. Como dito, embora todos estes pareçam ser meros pormenores, tais, a um nível de competitividade tão elevado, pagam-se demasiado caro. São os detalhes que, por um lado, continuam a alimentar o sonho da subida dos azuis do Restelo e que, no sentido inverso, colocam os poveiros cada vez mais longe dos lugares de promoção.
Com ainda oito jornadas por serem disputadas, muito pode acontecer. Todavia, é de se perspetivar que o golo do avançado angolano emprestado pelo Estrela da Amadora tenha dado um novo balão de oxigénio ao emblema da Cruz de Cristo. Por outro lado, tendo o fator psicológico um papel fundamental no desempenho dos atletas e, consequentemente, no trabalho da equipa técnica, veremos como a equipa conseguirá recuperar deste murro no estômago que ditou a terceira derrota consecutiva. O espetáculo da Liga 3 promete continuar!
Após o encontro, Tiago Zorro respondeu à questão colocada pelo Bola na Rede. Em contrapartida, Nuno Capucho recusou prestar declarações.


Bola na Rede: O Joãozinho parte muitas vezes de uma posição mais exterior para procurar criar vantagem em corredor central e o segundo golo do Varzim nasce daí, de uma combinação do Joãozinho com o Francisco França, por esse envolvimento do Joãozinho por dentro. De que forma o mister procurou condicionar essa dinâmica do adversário e o que acha que faltou no segundo golo do Varzim para estancar esse envolvimento?
Tiago Zorro: Nós, em alguns momentos do jogo, estamos a defender a cinco, noutros momentos estamos a defender a quatro. Sabíamos que o Joãozinho tinha muita liberdade para partir muitas vezes do seu corredor direito e até vir à esquerda criar algumas vantagens. Tínhamos um jogador incumbido de muitas vezes pegar o Joãozinho e poder sair da linha defensiva para poder pegar o João. Perdemos rigor nesse lance e acaba por haver uma superioridade. Percebemos que, com o passar do tempo, porque, por vezes, alguns jogadores vão perdendo algum rigor, o cansaço também acaba por chegar. A estratégia estava bem definida, funcionou ao longo de muito tempo, mas sabemos que, por vezes, basta uma pequena distração. O jogador perdeu a sua referência e acabou por surgir o golo. Portanto, o que estava pensado era uma linha de cinco e esse jogador sair para apanhar o João.

