Para onde caminhas, Braga?

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A temporada está longe de ser perfeita. O descalabro inicial com o Pandurii e a constante irregularidade da equipa no campeonato têm sido os fatores de maior relevância nesta segunda aventura de Jesualdo Ferreira no comando técnico dos Guerreiros do Minho. Com ainda alguns jogos por disputar, não é normal que uma equipa como o Braga já tenha averbado 9 derrotas no campeonato e que não tenha já grandes ambições para o que falta da temporada. O quarto lugar está muito longe, a Liga Europa ficou (escandalosamente) perdida no início da época e a Taça da Liga foi agora também colocada de parte (ainda que, é certo, em condições muito específicas – ver AQUI). Será a Taça de Portugal a salvação da temporada?

António Salvador esperará que sim, para não retirar Jesualdo Ferreira do leme da equipa. Uma medida que se percebe, dado o contexto atual da equipa, mas que volta a ser ingrata para um técnico que tanto sabe e que tantas vezes tem sido injustiçado. Depois de o Braga ter ficado atrás do Paços de Ferreira na temporada passada, depois dos abandonos de Hugo Viana, Mossoró ou Salino e do cada vez mais evidente decréscimo de forma de Alan e Custódio, este era o ano zero para o clube – o ano em que a geração de jogadores iniciada com Jorge Jesus em 2008 chega ao final da sua caminhada. E cabia a Jesualdo essa tarefa. Tal como no ano passado, com o Sporting CP, lhe foi incumbido semelhante trabalho: pegar num conjunto de jogadores e fazer um plantel. E isso não se faz de um momento para o outro. É preciso tempo e um treinador capaz e competente. Como Jesualdo.

Olhando para o atual plantel do Braga, é possível verificar que em termos individuais há, de facto, muita qualidade. Mauro foi uma excelente descoberta de Jesualdo; Éder, quando estiver em condições físicas aceitáveis, tem tudo para ser o melhor ponta-de-lança português; e Alan, Custódio e Rúben Micael conferem alguma experiência e rigor tático à equipa, fruto da sua maturidade. Depois, queria ainda deixar o registo para dois jogadores que são, na minha opinião, as grandes revelações do Braga nesta temporada. Falo de Raul Rusescu e Rafa. Quanto ao romeno, apesar de ter chegado apenas em janeiro, já demonstrou argumentos para assumir a titularidade na frente de ataque. É muito rápido a movimentar-se e consegue encontrar facilmente espaços para rematar (com qualidade) à baliza adversária, para além de que é muito dotado tecnicamente e com um sentido fantástico de oportunidade para aparecer na cara do golo. É jogador de clube grande e vai demonstrá-lo no que resta da temporada. Já em relação a Rafa, faltam-me os adjetivos para descrever tudo aquilo que este jovem de 20 anos tem conseguido fazer na sua primeira temporada na primeira divisão portuguesa. A grande questão em relação a Rafa é saber qual é o clube grande que o vai atacar primeiro. Fortíssimo no um para um, muito rápido a definir jogadas e com uma colocação de remate muito interessante. Uma ida ao Mundial’2014 não era, de todo, descabida. Aceito apostas: quem é o clube que vai pegar em Rafa?

Mas se em termos individuais tudo parece orientado, é na parte coletiva que este Braga falha redondamente. Eduardo é um guarda-redes competente, mas a defesa minhota continua a ser, na minha opinião, uma das mais graves lacunas do plantel atual. As laterais estão longe de ser brilhantes e os centrais tardam em convencer. Eu, aliás, defendo que desde 2009/2010, com Moisés e Alberto Rodríguez, que o Braga não encontra uma dupla com qualidade para se fixar no onze inicial. As mudanças na zona mais recuada do terreno são constantes e, naturalmente, a equipa ressente-se. Se há zona onde não se deve mexer com frequência é na defesa. E no Braga, seja por lesões ou por opção, essa é uma área que tem recebido retoques a mais. O velho ditado que diz que “um bom plantel se começa a construir de trás para a frente” nunca foi colocado em prática nos começos de temporada. E, este ano, os problemas estão a saltar à vista de todos.

Tudo isto para dizer que a situação do Braga não é, de todo, a melhor. Mas também não será com o despedimento de Jesualdo que a situação poderá melhorar. O técnico bracarense está mais perto do que nunca de encontrar o seu núcleo de bons jogadores e necessita de tempo para reorganizar tudo. Este foi o ano zero e já deu para retirar várias ilações sobre aquilo que é necessário melhorar. Em Braga,  este ano, há ainda que lutar pelo quarto lugar e por um lugar na final da Taça de Portugal. Para o ano, o objetivo é manter a estrutura (incluindo Jesualdo) e subir a fasquia. António Salvador, mais do que ninguém, sabe que há qualidade e infra-estruturas para assumir compromissos de “clube grande” e esquecer esta, até ver, desastrosa temporada.

Mário Cagica Oliveira
Mário Cagica Oliveirahttp://www.bolanarede.pt
O Mário é o fundador e diretor-geral do Bola na Rede. É também comentador de Desporto na DAZN, SIC e Rádio Observador e professor universitário.

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