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A Insustentável Leveza do 4-4-2 Losango

Francisco Sampaio · 5 min

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A época futebolística 2016/2017 do FC Porto tem sido marcada, entre outros aspetos, pela inconstância exibicional e de resultados. Como tal, se por um lado são memoráveis exibições como aquela que o FC Porto conseguiu em Roma contra o clube local, não podem também ser esquecidos jogos menos conseguidos como o (mais recente) empate sem golos em Tondela.

Apesar da irregularidade que tem vindo a ser apresentada, o jogo na Madeira contra o CD Nacional parece marcar um momento de upgrade futebolístico do clube associado a uma revolução tática operada por Nuno Espírito Santo. Para que este “passo em frente” tenha sido possível parece essencial destacar quatro “fatores” (chamemos-lhes assim) primordiais:

1) Otávio: com 21 anos de idade é evidente que tem ainda algumas arestas a limar, mas a sua qualidade futebolística não engana nem o analista menos atento. Otávio tem uma qualidade técnica acima da média e, acima de tudo, muita criatividade. Procura invadir frequentemente espaços interiores (algo que faltava, por exemplo, ao FC Porto de Lopetegui) e, nestes espaços habitualmente exíguos, consegue ser rápido tanto a decidir como a executar. São dele muitos dos passes de rutura que ocorrem ao longo do jogo, embora se perceba que ainda precisa de perceber melhor quando é que o último passe se trata, efetivamente, da melhor opção;

2) André Silva: com 20 anos de idade e já um hat-trick pela Seleção Nacional, facilmente se percebe que aqui reside o futuro (e atual) guardião da camisola 9 do futebol português. A sua capacidade física impressiona e, aliada a ela, destaca-se sobretudo a sua capacidade de movimentação sem bola. Este trabalho de André Silva é frequentemente invisível, mas é precisamente a sua variedade de movimentos (dos quais se destaca o ataque à profundidade) que leva a que este consiga fazer a diferença no atual cenário tático do FC Porto. Parece claro que André Silva necessita ainda de progredir sob o ponto de vista técnico, sobretudo no que concerne ao gesto técnico da finalização, no sentido de melhorar a sua eficácia. Ainda assim, para que tal seja possível é necessário que este vá somando tantos minutos quanto possível para ir aperfeiçoando, pela repetição, o seu futebol com bola;

Otávio tem sido uma das revelações do FC Porto Fonte: FC Porto
Otávio tem sido uma das revelações do FC Porto
Fonte: FC Porto

3) Óliver Torres: com 21 anos de idade Óliver Torres tem tudo para ser um centrocampista de topo no futebol espanhol e mundial. Tal como outros grandes médios do futebol mundial, Óliver destaca-se porque vê sempre mais do que os seus colegas e, à forma inteligente como consegue ler o jogo, alia uma capacidade técnica que lhe permite executar de forma (quase) perfeita tudo aquilo que imagina. Em pequenos espaços o espanhol consegue, por vezes com apenas um toque, criar uma nova situação de jogo e, como tal, desequilibrar a defesa adversária. Com todos estes predicados, Óliver pode legitimamente aspirar a ser o melhor futebolista da época 2016/2017 da Liga NOS.

4) Diogo Jota: 19 anos de idade e já com capacidade para revolucionar o futebol da equipa. Diogo Jota é a cara do novo FC Porto pós-Leicester City FC. É incrível como, partindo de avançado centro esquerdo, sempre que baixa para receber a bola entre linhas enquadra com uma velocidade notável e consegue ainda retirar adversários diretos da jogada. A jogar em espaços curtos a qualidade técnica, criatividade, velocidade de execução e capacidade de tomada de decisão de Diogo Jota permitem-lhe criar situações que aproximam a equipa do golo. Contra uma equipa tão fechada como o GD Gafanha a sua influência não foi tão evidente, mas parece claro que o futebol de Diogo Jota veio para ficar e para tornar mais “perfumados” os relvados do futebol português.

O quarteto ofensivo referido é, indubitavelmente, uma das mais empolgantes congregações ofensivas jovens (média de idades = 20,25 anos) do atual futebol europeu. Porém, a somar às individualidades importa destacar, sobretudo, a nova imagem tática do FC Porto: o 4-4-2 losango.

Em organização ofensiva Danilo baixa para junto dos centrais, retirando-o do momento de construção no qual, claramente, apresenta as suas maiores fragilidades. Herrera fica como interior direito, Ótavio como interior esquerdo, e com mobilidade entre linhas para pedir a bola no pé apresentam-se Óliver (como médio mais ofensivo) e Diogo Jota. No ataque, André Silva ataca a profundidade e pede bola nas costas, aumentando o espaço disponível para que Diogo Jota possa receber entre linhas. Ainda assim, pelo facto de Alex Telles e Layún não serem jogadores muito desequilibradores no momento ofensivo, em algumas ocasiões a equipa parece poder beneficiar da colocação de jogadores como Corona ou Brahimi nos corredores laterais. Finalmente, fica a ideia de que Óliver Torres tem jogado, por vezes, em terrenos um pouco recuados ou com tendência para encostar à ala, quando é precisamente dentro do bloco defensivo adversário que este é mais preponderante na manobra ofensiva da equipa.

Óliver é uma aposta forte rumo ao título Fonte: FC Porto
Óliver é uma aposta forte rumo ao título
Fonte: FC Porto

Em transição defensiva a largura é controlada unicamente por Herrera, Danilo e Otávio, aos quais se junta Óliver nos momentos de organização defensiva. Este modelo defensivo, apesar de ter sido eficaz contra o CD Nacional, implica uma extrema disponibilidade física de Herrera e Otávio no sentido de impedir a inferioridade numérica contra os laterais e extremos das equipas adversárias tendo sido este aspeto, precisamente, um dos que melhor explica as dificuldades sentidas pelo FC Porto nos primeiros 30 minutos do jogo contra o Club Brugge KV.

Adicionalmente, a equipa parece ainda algo hesitante nos momentos de transição defensiva, sendo notórias as dificuldades que apresenta para perceber os momentos em que deve baixar o bloco e juntar linhas e aqueles em que deve reagir rapidamente para recuperar a posse de bola. Assim sendo, torna-se claro que existe ainda um caminho a percorrer no sentido de tornar a equipa mais competente no seu momento defensivo, algo que será particularmente relevante quando esta tiver que enfrentar adversários com maior expressão futebolística.

Nas suas mãos, Nuno Espírito Santo tem (ainda em bruto) os ingredientes necessários para montar uma equipa com uma dinâmica coletiva à qual o FC Porto habituou os seus adeptos num passado não muito distante. A somar a esses ingredientes, este parece (finalmente) ter encontrado uma forma de os conjugar de um modo que aproxima mais a equipa do sucesso. E agora? Será que após três anos de jejum Nuno Espírito Santo conseguirá recolocar o FC Porto na rota dos títulos? Aguardemos pacientemente…

Foto de capa: FC Porto

Francisco Sampaio

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