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Depois de quase dois meses sem partilhar a minha opinião sobre o estado das coisas futebolísticas, assim regresso a este meu espaço no Bola na Rede. Nova época e novos desafios surgem, com a promessa dita por quase todos de que esta será uma das temporadas mais interessantes a nível competitivo no nosso futebol. Como não poderia deixar de ser – e creio que neste ponto estarão de acordo comigo – as últimas semanas têm demonstrado aquilo que é o típico “defeso”: rumores e mais rumores; contratações e mais contratações; vendas e mais vendas. Umas supostas, outras possíveis e outras concretizadas. Assim se faz a história do futebol e do mercado de verão por esta altura, sendo que em Portugal a situação não é diferente.

No que a esta “silly season” diz respeito, obviamente que o campeonato nacional não poderia ter começado de melhor forma: na 2ª circular, o todo poderoso Jesus decidiu abandonar a casa onde tinha feito história durante seis anos. De forma inesperada ou nem tanto, o rival Sporting recebia um dos melhores treinadores portugueses da atualidade. Assim se mudam os protagonistas das histórias que fazem o nosso campeonato. No Benfica, veio da cidade onde nasceu Portugal o treinador que promete continuar a colocar o bicampeão nacional no trilho das conquistas. Rui Vitória, um homem que em Guimarães fez omeletes sem ovos e que agora se perceberá se tem mãos para os ovos que Luís Filipe Vieira lhe prometeu. Em Alvalade, o “efeito Jesus” passa pelos jornais, pelas redes sociais, pelas conversas de café e pelos estados de ânimo que nunca foram tão exacerbados para a massa adepta leonina. Afinal de contas, o todo poderoso Jesus veio ali parar depois de seis anos a provocar desgostos no seu clube de sempre. De forma inesperada, parecia que com a mudança de Jesus o defeso tinha lançado para a mesa a sua melhor carta. Nada disso, pois a notícia da mudança do técnico para Alvalade foi apenas o primeiro capítulo de um livro que tem sido rescrito diariamente pelos jornais, televisões e rádios.

Contudo, e como este espaço de opinião aponta mais para a atualidade portista, não poderia pois, no meu regresso ao “Eterna Mocidade” deixar de analisar o que tem sido a pré-temporada portista. Mais do que falar dos resultados – que valem o que valem – parece-me importante refletir sobre as entradas e saídas do plantel que claramente sofreu mais alterações quando comparado com o dos dois rivais. Talvez por isso, seja eu, entre os portistas, um dos poucos que não me tenho deixado iludir com as “luzes da ribalta” que parece terem pairado sobre a nação portista. Aliás, como analista atento, não deixo de achar curioso tudo aquilo que tenho lido e ouvido sobre a época que se avizinha. Durante os últimos dois meses, existe um denominador comum quando se fala sobre o FC Porto: a necessidade obrigatória de ganhar, sob pena de ver um terceiro campeonato consecutivo fugir das mãos. É óbvio, e importante não esquecer, que o FC Porto tem construído um legado recente que faz com que um interregno de dois anos sem vencer o título nacional seja um escândalo a que a esmagadora maioria dos adeptos portistas não está habituada. Talvez por isso, em toda e qualquer análise que se faça ao plantel de Julen Lopetegui está lá sempre presente a premissa de que, com aqueles jogadores, o treinador espanhol tem obrigação de ganhar.

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Casillas é uma das principais figuras do novo FC Porto
Fonte: footazo.com

Todas estas declarações de intenção feita por portistas é algo que me intriga. Bem sei que a pré época é aquela fase em que diariamente nos enchem os ouvidos com rumores de entradas no plantel e desconfianças de saídas que ninguém quer que sejam verdade. Basta olhar para as novelas Lucas Lima ou Alex Sandro para perceber do que falo. Numa fase da temporada onde o futebol jogado praticamente não existe quando comparado com o “futebol falado”, é a realidade dos rumores que se sobrepõe a tudo e que faz com que, muitas vezes para os adeptos, a ilusão acabe por se superiorizar a uma realidade que deve ser analisada.  Chego a este ponto pois creio que é disso que falamos quando nos referimos ao plantel atual do FC Porto. Ao longo das últimas semanas, tenho lido inúmeras opiniões de que os portistas têm uma forte vantagem para com os dois principais rivais lisboetas. Essa é uma visão que se centra sobretudo do facto da equipa manter o seu treinador – algo que Benfica e Sporting não fazem – e na “suposta” qualidade superior que este plantel tem quando comparado com os adversários.

Relativamente a estes dois fatores, creio que no caso da premissa do treinador ela é, porventura, a mais válida. Apesar de Jorge Jesus e Rui Vitória serem já profundos conhecedores do futebol português – bem mais do que Lopetegui – a mudança de realidades, sobretudo no caso de Vitória, acaba sempre por ter alguns efeitos. Aliás, basta ler a entrevista de Jorge Jesus de antecipação à Supertaça para perceber as inúmeras dificuldades que supostamente ele enfrenta no novo desafio em Alvalade. Afinal de contas, Jesus tem agora que mudar a realidade no futebol leonino, como se o passado de Leonardo Jardim e Marco Silva não tivessem existido e como se só agora o Sporting tivesse “acordado” para a realidade. No Benfica, e de acordo com o mesmo Jorge Jesus, nada mudou: o esquema tático, o modelo de jogo, as bolas paradas defensivas e ofensivas; tudo é igual com Rui Vitória. De acordo com o treinador sportinguista, só falta na Luz uma coisa: o seu cérebro. Tenha sido falta de elegância ou a arrogância desmesurada que tão bem carateriza Jesus, porventura o técnico leonino tocou naquela ferida que levanta uma das questões mais pertinentes para o início da nova época: como será o Benfica sem Jesus? Será que finalmente iremos perceber se foi a estrutura do Benfica que fez mais por Jesus ou Jesus a fazer mais pela estrutura do Benfica?

Tudo resumido, parece-me óbvio que é num espírito de poker que a nova temporada se inicia. Refiro-me ao poker pois este “all-in” em que os três grandes entram para a época que começa acaba por ser a primeira pedra na engrenagem daqueles que acham que o FC Porto está absolutamente obrigado a ganhar o campeonato. Como adepto exigente, é óbvio que os portistas têm a obrigação de ganhar. Mas essa é uma premissa que não é de hoje, até porque a história do clube a assim o obriga. E se em relação à questão dos treinadores estamos conversados – assim Lopetegui tenha aprendido com os erros -, a outra falácia que se conta é a do “todo poderoso” plantel portista. Bom, a última temporada trouxe um novo paradigma à realidade portista: sem meias medidas, percebeu-se que Lopetegui procurou, desde cedo, funcionar como um verdadeiro manager no que a contratações diz respeito. Basta aliás olhar para o plantel da época transata para perceber que, como não poderia deixar de ser, muitos dos nomes que ali pairavam tinham o dedo de Lopetegui. Ainda assim, com um dos melhores plantéis da história portista, o treinador espanhol não conseguiu ser campeão. Por muitos erros próprios e por algumas interferências alheias, a verdade é que o principal objetivo portista não foi conseguido. Para alguns, e tendo em conta o investimento que se havia feito, a saída de Lopetegui era um ato natural. Pinto da Costa teve opinião contrária e acabou por não deixar cair uma das opções mais pessoais que teve enquanto presidente do clube.

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Lopetegui terá esta temporada um teste de fogo
Fonte: desporto.sapo.pt

A questão, e é tudo menos um pormenor, prende-se então com as armas que o treinador espanhol terá ao seu dispor para a nova época. Assim de uma assentada, rapidamente se chega à conclusão de que “revolução” é porventura o melhor termo para caraterizar o plantel portista. Do onze base da época passada, saíram nada mais nada menos que cinco titulares: Fabiano, Danilo, Casemiro, Oliver Torres e Jackson Martinez. Meia equipa titular abandonou o Dragão, fazendo do reforço do plantel uma obrigação imediata tais são os desafios com que a equipa de depara. No que a entradas diz respeito, já foram dez, entre regressos à casa mãe, contratações a custo zero e outras oportunidades de negócio inesperadas e tão bem aproveitadas. Contudo – mais do que analisar o “efeito Casillas” ao nível da publicidade que o clube terá no estrangeiro ou a contratação milionária de Imbula – aquilo que me parece realmente importante de ser analisado é o estado atual do plantel.

Relativamente a este ponto, e apesar de considerar que contratações como as de Casillas, Maxi, Danilo Pereira, Imbula, Sérgio Oliveira e Osvaldo serão muito boas mais valias ao longo da época, a verdade é que me parece óbvio que o FC Porto, tal como os dois rivais, parte quase do zero para a nova temporada. Apesar de manter o treinador e as rotinas que com ele estão já na equipa, não é possível dissociar a falta e a importância que nomes como os de Danilo, Oliver ou Jackson tiveram na última época portista. De forma simples, estes eram os jogadores de “nível acrescentado”, que davam à equipa um nível superior e que desbloqueavam jogos com a qualidade inegável que demonstravam. Apesar de considerar Maxi um jogador interessante para a realidade portuguesa, ele não tem nem nunca terá a qualidade de Danilo. Apesar de considerar Osvaldo e Aboubakar dois avançados de bom nível, nenhum deles sequer se aproxima da qualidade de Jackson Martinez. Bem sei que encontrar jogadores com a qualidade dos internacionais brasileiro e colombiano não é uma tarefa fácil. Também por isso é que não deixo de achar engraçadas todas aquelas falácias que apontam o FC Porto como o candidato mais forte à conquista do título nacional.

Desculpem-me os portistas mas, apesar de achar o plantel portista um plantel com qualidade – falta ainda um médio criativo e um central – a verdade é que, olhando para o plantel atual, não vejo essa “inegável” superioridade que todos veem. Digo isto não por desconfiar das contratações desta época mas sim por ver a diferença para com os jogadores que saíram. A meu ver, e oxalá eu esteja enganado, na diferença entre o deve e o haver, o FC Porto fica claramente a perder. E isto não por culpa da direção portista mas sim pelas leis do mercado que obrigam a deixar sair os melhores. Dito isto, parece-me óbvio que, por todas as condicionantes que cada um dos três grandes tem, nenhum sai à frente dos outros para o arranque da temporada. Seja pela mudança de treinador, pela mudança de estilo ou pela mudança de plantel, todos eles têm virtudes e defeitos antes do início da nova temporada. Por isso, espero que as “luzes da ribalta” que pairaram sobre alguns portistas acalmem e que acordem para a realidade dos factos. A realidade que demonstra que o FC Porto perdeu muitos titulares e que por isso precisa de refazer uma equipa. Lopetegui já o disse e creio ser importante que os adeptos também o percebam. É que, por muito que ver Casillas ou Imbula aterrarem no Dragão seja um motivo de histeria geral, isso não apaga a necessidade de criar uma equipa quase do zero. E isto não é arranjar desculpas prévias para uma possível fracasso. É ser realista, algo que falta e muito às mentes dos adeptos por alturas de pré época.

Foto de capa: fcporto.pt

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