Como lidar com o papel secundário?

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São buzinas a apitar nas ruas, são festejos em todos os pontos do mundo, são programas e programas a falar sobre o mesmo assunto, dando voz centenas de vezes aos mesmos protagonistas. É uma noite sem igual, sem comparação possível. Sim, já deve ter percebido que estou a falar dos festejos do novo campeão nacional, o SL Benfica. Admito que, desde que comecei a escrever no Bola na Rede, este é o texto que mais me custou redigir. Afinal de contas, são todas aquelas buzinas e festejos que fazem o meu som de fundo esta noite. E, claro, depois de três anos a festejar o campeonato, admito que não foi fácil recordar-me de como era não estar a festejar, de como era não ter o cachecol no pescoço para celebrar mais um título. Quatro anos depois, essa sensação voltou. Como fui escrevendo nos últimos textos, obviamente não se pode ganhar sempre, mas é impossível não ser confrontado, sempre que outra equipa que não o FC Porto vence o campeonato, com todas as linhas a preverem o fim de ciclo da equipa portista.

Para mim, que vejo futebol há tanto tempo, é sempre complicado tentar perceber todas estas conversas sobre o “fim de ciclo”. É certo que o FC Porto conta com 14 campeonatos nos últimos 20 anos, mas é óbvio que no futebol os protagonistas não podem sempre ser os mesmos. O bom problema é que durante estas últimas três décadas, nas Antas e no Dragão, praticamente apenas um verbo foi sendo conjugado: o verbo “ganhar”. Durante épocas e épocas a fio, o FC Porto foi vencendo e convencendo dentro e fora de portas, lidando quase sempre com uma concorrência demasiado frágil para o poder que os dragões iam demonstrando todos os anos. Olhando para a história mais recente, desde a chegada de José Mourinho ao FC Porto que a equipa portista tinha apenas perdido dois campeonatos em oito possíveis: em 2005 e em 2010. Ainda assim, se podemos considerar que o título perdido em 2005 para a equipa de Giovanni Trapattoni foi apenas um acidente de percurso, tendo em conta todas as incidências e a percentagem pontual conseguida pelos três grandes nessa Liga, há que ser claro e admitir que desde 2010 as coisas mudaram no futebol português. E, por detrás de toda esta mudança, um nome surge por cima de tudo o resto: o de Jorge Jesus. Não vou escrever parágrafos sobre o técnico benfiquista, mas claramente permita-me que deixe este elogio a Jesus, considerando-o como o principal responsável por este suposto “fim de ciclo” hegemónico portista. A partir de 2010, e apesar da época dourada de André Villas-Boas e dos dois campeonatos tirados a ferro por Vítor Pereira, Jorge Jesus veio trazer um equilíbrio que já não se via há muito no futebol português.

O FC Porto partiu para esta época como tri-campeão, mas foi incapaz de revalidar o título  Fonte: ualmedia.pt
O FC Porto partiu para esta época como tri-campeão, mas foi incapaz de revalidar o título
Fonte: ualmedia.pt

O futebol praticado, as contratações feitas e sobretudo a substancial diminuição de erros de casting da equipa benfiquista fizeram com que, a partir de 2010, tudo fosse mais complicado para o FC Porto. Há umas semanas escrevi que este momento já poderia ter acontecido há duas épocas, porque nos dois títulos de Vítor Pereira, apesar de todo o mérito que a equipa portista teve na conquista dos campeonatos, há que reconhecer que houve muito demérito de quem teve a vantagem no campeonato e não a soube conservar. Por isso mesmo, tal como escrevi na última quarta-feira, sinto que houve facilitismo da estrutura portista porque o FC Porto foi continuando a ganhar: contratações falhadas, treinadores com pouca experiência e um conjunto de outros erros foram sendo maquilhados nos dois anos de Vítor Pereira apenas porque tudo acabou bem, mesmo com todos os problemas que o ex-técnico viveu.

Com as saídas de João Moutinho e James Rodriguez, o FC Porto começou esta época sem duas das principais figuras do tri-campeonato. Apesar da boa pré-época e do excelente início de temporada de Paulo Fonseca, cedo se percebeu, principalmente depois do descalabro de Coimbra, que as coisas tinham tudo para correr mal este ano. Desde o mau planeamento do plantel, que nunca conseguiu substituir as perdas do Verão, até aos constantes problemas na equipa e no clube que vinham saindo para a praça pública como nunca havia acontecido desde então, esta foi uma época de tormento para a equipa portista. Com jogadores com a cabeça completamente fora do clube, com outros em claro sub-rendimento e outros ainda a não demonstrarem qualidade para envergar uma camisola tão carregada de vitórias, o FC Porto foi apenas um fantasma durante esta temporada. Depois de 2005 e 2010, o pesadelo de não ganhar o campeonato voltou a pairar no Dragão. Tal como em 2010, e apesar de todo o mérito do novo campeão na conquista do título, claramente fica a imagem de que o FC Porto não entrou com todas as fichas nesta temporada. Alguns poderão dizer que os ciclos devem acabar para que se comecem novos ainda com mais força; mas eu, que não acredito muito em coincidências, acredito que estas buzinas e estes festejos devem soar o alarme no Dragão, porque, apesar de isto ser um jogo, não acredito em coincidências.

A "estrutura" tem de dar uma resposta à altura na próxima época  Fonte: portocampeao.com
A “estrutura” tem de dar uma resposta à altura na próxima época
Fonte: portocampeao.com

Olhando para trás, acredito que esta época de fracasso deve ser exemplo para aquilo que aí vem. Em 2011, depois do primeiro título de Jesus, o FC Porto foi buscar André Villas-Boas, João Moutinho, James Rodriguez e, juntamente com Falcao, Hulk ou Belluschi, formaram uma das melhores equipas da história azul e branca. Quatro anos depois, não acredito que a história possa ser diferente. Se todas as derrotas e tristezas desta época serviram para alguma coisa, penso que deverão ter servido para colocar na cabeça de muita gente da tão proclamada “estrutura” portista que não é com qualquer jogador ou treinador que se ganha. Depois de todas estas derrotas, é tempo de pensar que o mito de que “qualquer um é campeão no FC Porto” não passa disso mesmo, de um mito. Afinal de contas, desde 2010 e da chegada de Jesus que o futebol português mudou e o FC Porto já não é tão dominador como era. Por isso mesmo, porque agora tem um concorrente à altura, o FC Porto tem de puxar dos galões de campeão e voltar a construir uma equipa à imagem do símbolo que o clube enverga. Tudo porque agora já não é tão fácil como era. E é bom que a estrutura meta isto na cabeça, sob pena de as buzinas e os festejos não voltarem tão cedo à Invicta.

Redação BnR
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