Dragão ferido nas asas

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A semana portista está a ser negra e muito difícil de digerir. A pesada derrota em pleno Estádio do Dragão frente ao Club Brugge KV, um adversário que é bem mais forte do que o que por aí se diz, mas, convenhamos, não é nenhum bicho-papão, abriu feridas no universo azul e branco que levarão tempo a sarar.

As explicações para a débacle europeia são várias e variadas e são de explicação difícil e longa. As responsabilidades alastram-se um pouco por todos os intervenientes no dia a dia do clube e não é tempo de apontar culpados. E, por isso, aos leitores deste artigo, peço que não entendam este texto como uma procura incessante por bodes expiatórios. Até porque os visados estão muito longe de serem réus.

Durante o defeso fui alertando para a prioridade máxima de contratar um médio que pudesse disfarçar os nefastos impactos da saída de Vitinha. Era, no meu entender, a posição que mais necessitava de reforço e nem mesmo a recente ascensão de Eustáquio me desvia desse pensamento. Depois das recentes exibições do internacional canadiano, acredito piamente que poderá evoluir para se tornar pedra basilar do meio-campo portista, mas a falta de soluções para a posição poderá revelar-se decisiva, de forma negativa, no decorrer da época. Espero, em breve, trazer a este espaço um texto de opinião sobre Eustáquio, mas, hoje, opto por focar-me na outra grande lacuna que identifico no plantel.

Nas análises que fui fazendo à intervenção da SAD no mercado, para além da premência da contratação de um médio, ressalvei que ambas as laterais defensivas poderiam e deveriam merecer a atenção dos responsáveis máximos do clube porque há já um largo período de tempo estão desprovidas da qualidade que outrora passou pelo Estádio do Dragão.

AC Milan FC Porto Zaidu
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

João Mário e Zaidu eram os laterais da equipa que se sagrou campeã nacional no ano passado e merecem crédito por isso. No entanto, desde cedo se percebeu que a qualidade que emprestam à equipa está bastante abaixo do patamar competitivo que o clube enfrenta, por exemplo, quando joga a Liga dos Campeões.

O internacional pelas seleções jovens portuguesas, aquando da aposta de Sérgio Conceição, parecia ter todas as condições para se tornar num jogador de alto nível. Rápido e com critério, esperava-se que, trabalhando o momento sem bola e a transição defensiva, pudesse dar um salto para outro patamar. A verdade é que tal não parece estar a acontecer e demonstra que, talvez, não esteja talhado para altos voos. Comete erros de palmatória com e sem bola, tem grandes dificuldades na definição dos tempos de ataque à bola e/ou de contenção e até se tem apresentado insuficiente no momento ofensivo.

No caso de Zaidu, o problema é muito mais estrutural do que conjuntural. Pode e deve gabar-se o voluntarismo e a entrega do internacional nigeriano. Ainda assim, as qualidades técnicas e táticas que possui, não estão, perece-me claro, ao nível de uma equipa como o FC Porto. É estrondosamente rápido e isso permite-lhe disfarçar algumas das muitas debilidades que tem nos variados momentos do jogo, mas, não raras vezes e principalmente contra adversários de maior nomeada, as deficiências técnicas e posicionais que tem vêm ao de cima. Tem enormes dificuldades no cruzamento e no jogo associativo, é de posicionamento errático e, muitas vezes, é demasiado impetuoso na abordagem dos lances. Tem um fiel escudeiro no treinador (o que se entende pelo profissionalismo e fair-play), mas está longe de ser a solução ideal para a posição de lateral esquerdo.

João Mário Matheus Reis FC Porto Sporting CP
Fonte: Diogo Cardoso/Bola na Rede

A juntar à incapacidade dos titulares, o dragão tem um problema de alternativas. Nem Manafá (regressado de lesão), nem Rodrigo Conceição serão capazes de aportar à equipa o que necessita na ala direita, nem Wendell (pela dificuldade no momento defensivo), que acredito ser melhor solução na maioria dos jogos, dá garantias à esquerda.

Acredito que para consumo interno dará e que não será por aí que os dragões deixarão de ser competitivos, mas, sempre e quando o oponente coloque maior pressão sobre o momento defensivo da equipa, a estrutura acabará por abanar.

Uma última nota para dizer que, infelizmente (pela falta que faz no desequilíbrio à frente), parece-me que Pepê é, ainda que conte com naturais fragilidades associadas à falta de rotinas, neste momento, o melhor lateral do plantel.

Em suma, numa equipa que privilegia a audácia dos laterais no momento ofensivo e que não tem o meio-campo suficientemente robusto que permita não expor em demasia as alas defensivas, a falta de capacidade dos intervenientes diretos trará sempre complicações acrescidas nos diferentes momentos do jogo. Por isso, e como sucedeu no ano transato, é um dragão ferido nas duas asas que enfrentará a longa e adversa época que se avizinha. Um ponto a rever, com urgência e sagacidade, em janelas abertas a transferências futuras.

Bernardo Lobo Xavier
Bernardo Lobo Xavierhttp://www.bolanarede.pt
Fervoroso adepto do futebol que é, desde o berço, a sua grande paixão. Seja no ecrã de um computador a jogar Football Manager, num sintético a jogar com amigos ou, outrora, como praticante federado ou nos fins-de-semana passados no sofá a ver a Sporttv, anda sempre de braço dado com o desporto rei. Adepto e sócio do FC Porto e presença assídua no Estádio do Dragão. Lá fora sofre, desde tenra idade, pelo FC Barcelona. Guarda, ainda, um carinho muito especial pela Académica de Coimbra, clube do seu pai e da sua terra natal. De entre outros gostos destacam-se o fantástico campeonato norte-americano de basquetebol (NBA) e o circuito mundial de ténis, desporto do qual chegou, também, a ser praticante.

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