O Benfica derrotou o FC Porto por 3-1 e apurou-se para a final da Taça de Portugal. Os encarnados adiantaram-se no marcador por intermédio de Salvio, mas Silvestre Varela, já no segundo tempo, igualou a partida. Com a eliminação garantida, a equipa de Jorge Jesus reagiu e acabou por marcar dois golos vitais (Enzo Pérez de penalty e André Gomes num lance monstruoso) que lhe garantiu um lugar no Jamor. Destaque ainda para as expulsões de Guilherme Siqueira (27′), Ricardo Quaresma (89′) e dos treinadores de ambas as equipas.

paixaovermelha

Sport Lisboa e Benfica 

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O melhor de Portugal já está na final

Se havia dúvidas ficaram dissipadas: o Benfica é de longe a equipa que melhor futebol pratica em Portugal. Que grande jogo. Que qualidade de futebol tem esta equipa comandada por Jorge Jesus. O Benfica carimbou a passagem ao Jamor com todo o mérito do mundo.

Depois do jogo da primeira mão das meias-finais da Taça de Portugal, que culminou na vitória do FC Porto por 1-0, no estádio do Dragão, o Benfica entrou a todo o gás com a habitual pressão alta e muita dinâmica ofensiva. O FC Porto, por seu turno, optou por um jogo de contenção à espera de ver o que faziam os encarnados. Os homens de Luís Castro permaneceram sempre muito estáticos em campo e mesmo com mais um jogador durante 60 minutos nunca foram superiores ao clube da casa.

Os primeiros 20 minutos do Benfica foram simplesmente avassaladores, contrastando com a apatia portista. De fato, a mobilidade atacante dos homens da frente do Benfica causaram imensos problemas à defesa azul e branca, que raramente acertou as marcações. Esse primeiro período forte das águias resultou no golo da vantagem: Gaitán, sobre o flanco esquerdo, tira um magnífico cruzamento e Salvio, já dentro da pequena área do FC Porto, cabeceia não dando qualquer hipótese a Fabiano. Justiça no marcador.

O jogo continuou na mesma toada até que Pedro Proença decidiu, uma vez mais, ser protagonista num jogo de futebol. Entre o minuto 25 e o minuto 28 mostrou dois amarelos e o respetivo vermelho a Siqueira. Se no lance do segundo cartão amarelo (28m) o defesa benfiquista foi imprudente na falta que cometeu sobre Ricardo Quaresma, tendo visto com toda a justiça o cartão amarelo, o primeiro lance é bastante duvidoso, ficando a ideia de que Siqueira utiliza o ombro na disputa de bola.

A jogar com dez, o Benfica baixou as linhas, o que permitiu ao FC Porto ter mais bola.  Porém o resultado permaneceria igual até ao fim da primeira parte.

Salvio foi o autor do primeiro golo encarnado Fonte: ZeroZero
Salvio foi o autor do primeiro golo encarnado
Fonte: zerozero.pt (Carlos Alberto Costa)

O recomeço do jogo ditou uma nova filosofia por parte de ambas as equipas: enquanto o FC Porto subiu as linhas e o bloco do meio-campo, de forma a chegar perto da baliza de Artur, o Benfica tentou avançar no terreno utilizando transições rápidas pelos alas Nico Gaitán e Eduardo Salvio. Com Herrera a pautar todo o jogo portista, os dragões chegaram ao empate ao minuto 52, num grande lance individual de Varela. O FC Porto ganhava uma importante vantagem no marcador da eliminatória.

Porém, o Benfica nunca desistiu e foi em toda a linha superior ao seu rival – sim, mesmo com menos um jogador.

A habitual garra de Enzo e a classe de André Gomes (que enorme, enorme exibição do médio português) davam mostras de querer agarrar o jogo e a passagem à final. Foi precisamente Enzo Pérez que transformou uma grande penalidade conquistada por Salvio ao minuto 59.

O público da Luz acreditava de novo e os jogadores também. A recompensa veio ao minuto 80, quando André Gomes apontou o melhor golo da noite. A forma sublime como recebeu a bola de Gaitán e tirou Fernando do caminho é digna de uma curta-metragem. Que grande golo! A Luz explodia de alegria.

Os últimos minutos foram tudo menos futebol. Alguma quezílias entre os jogadores e, uma vez mais (!), Pedro Proença não resistiu a ser protagonista e expulsou Jorge Jesus e Luís Castro. O FC Porto foi incapaz de vencer um Benfica muito forte coletivamente. A coesão e o espírito de sacrifício foram a chave para a passagem à final da Taça de Portugal.

A Figura
O coletivo – Não há palavras para a garra desta equipa. Jogam todos em prol do coletivo e isso é a chave do sucesso.

O Fora-de-Jogo
Pedro Proença – O suposto melhor árbitro do Mundo não teve (mais uma vez) controlo sobre o jogo. É um facto que não merece apitar estes encontros.  

Pedro Beleza

eternamocidade

Futebol Clube do Porto

Uma derrota digna de um espaço F

11 de maio de 2013: Aos 92 minutos do FC Porto-Benfica, o improvável Kelvin fez o golo decisivo que deu a conquista do título nacional 2012-2013. Em pleno Estádio do Dragão, Jorge Jesus ajoelhava-se e 50 mil explodiam de alegria. Mais importante do que o golo ou o título, aquele momento de magia de Kelvin valeu-lhe um espaço privilegiado no museu do FC Porto.

Peço desculpa, caro leitor, por ter começado a crónica deste jogo com esta efeméride, mas permita-me que 11 meses depois daquela que foi uma das vitórias mais épicas da história portista, eu tenha que colocar isto em linha de comparação com aquilo que aconteceu esta noite no Estádio da Luz. Naquela noite de 11 de maio, e apesar de toda a festa que me envolveu, lembro-me perfeitamente de ter pensado comigo mesmo que aquele golo teria sido o pior que podia ter acontecido ao FC Porto. A explicação para este meu pensamento valeria uma tese de doutoramento, mas em poucas palavras lhe explico que a razão para esta minha crença teve que ver com a capacidade do FC Porto reagir a mais uma vitória perante o seu rival. Por isso mesmo, sempre temi que um jogo como o desta noite fosse acontecer. Não vou citar Bruno de Carvalho para dizer que sou adivinho, mas cá no fundo sempre soube que um jogo como o desta noite iria mais tarde ou mais cedo acontecer. Tudo porque a história nunca se repete e mais tarde ou mais cedo, o feitiço vira-se contra o feiticeiro.

Depois de dois campeonatos caídos completamente do céu, o FC Porto ficou na zona de conforto, julgou que as vitórias iriam aparecer sem esforço. Basicamente, o FC Porto deixou de ser FC Porto: deixou de ser uma equipa com garra, com caráter, com vontade, com atitude, que a cada momento e a cada jogo lutava como se não houvesse amanhã, e que pressionava de forma tão sufocante que não tinha rival equiparável. Naquela noite de 11 de maio, tudo sucumbiu. E tudo sucumbiu porque o FC Porto julgou que aquele gesto de Jorge Jesus era a rendição eterna do rival Benfica e que a partir daquele momento, mais golos dignos de museu iriam aparecer na equipa portista. A partir daquele momento, piadas foram feitas sobre o rival, histórias foram criadas sobre aquela humilhação e parecia que tudo na história portista agora se resumia ao minuto 92.

Quaresma foi uma das desilusões do encontro Fonte: ZeroZero
Quaresma foi uma das desilusões do encontro
Fonte: zerozero.pt (Carlos Alberto Costa)

Eu, que nunca fui muito de ligar a emoções, bem sabia que esta noite iria aparecer: porque era demasiado óbvio que o feitiço se iria virar contra o feiticeiro e porque era demasiado evidente que o FC Porto iria “pagar” por tudo aquilo que disse e fez. Na altura, e apesar dos festejos justos e naturais do título, o clube dos 120 anos de história, o clube dos títulos europeus, o clube do tri, do tetra e do penta, decidiu, no seu museu, onde apenas teriam lugar os imortais, colocar o nome de Kelvin. Sim, esse mesmo que marcou aquele golo decisivo e que ganhou o direito de ter um lugar no passeio da fama portista. Não, não vou dizer que o facto de o FC Porto já não ter nada para disputar (excluo a Taça da Liga) este ano seja resultado desse golo aos 92 minutos. Não, não vou ser injusto e esquecer tudo o que o FC Porto deu aos adeptos em tantos anos da sua história. Mas por isso, e sobretudo por isso, caro leitor, escrevi todas estas linhas para contextualizar aquilo no qual o meu clube se tornou.

Enquanto sócio e adepto há muitos anos, sempre me habituei a ver o meu clube a ganhar, empatar e perder. Afinal de contas, o futebol é um jogo e por isso, tudo pode sempre acontecer. E não é por isso que escrevo, e não é pelas constantes derrotas esta época que escrevo este texto. Perder não é aquilo que mais me custa, mas a forma como perco, isso sim, merece a minha atenção. Há uns meses escrevi um artigo sobre a saída de Paulo Fonseca. Se bem se lembra, o título foi “Acabou o duplo pivô, e agora?”. Não foi à toa que na altura escolhi aquele título para o meu texto. Isto porque, e tal como expliquei naquelas linhas, o problema do FC Porto era bem mais profundo do que apenas o treinador. Naquela altura, evidenciei a falta de atitude e de qualidade dos jogadores; tentei mostrar a falta de competência da tão proclamada estrutura portista. Afinal de contas, na altura saiu apenas o elo mais fraco da equipa: o treinador. Contudo, a partir daquela célebre noite de 11 de maio, os problemas foram bem outros e estão à vista de todos.

Durante as centenas de jogos que já vi ao vivo do FC Porto, e apesar de todas as derrotas a que já presenciei, nunca me tinha sentido envergonhado. Hoje, 16 de abril de 2014, posso dizer que este foi o jogo onde senti essa vergonha. Não foi apenas por ter perdido 3-1 contra o Benfica quando a equipa esteve 60 minutos a jogar com mais um elemento; não foi apenas por termos ficado de fora da final do Estádio do Jamor. Hoje senti vergonha porque cá no fundo, sempre soube que esta noite iria acontecer. Não sou adivinho, nem me sinto um homem particularmente afortunado, mas permita-me que conclua que esta minha previsão teve que ver com a evidência do comportamento do clube durante todos os meses subsequentes àquela memorável noite. Foi o facilitismo da implacável estrutura, que julgou que tudo seriam “favas contadas” a partir daquela noite; foi a constante provocação de dirigentes e adeptos sobre um momento que não foi mais do que a conquista de mais um título; foi sobretudo o pensamento de que a partir daquela noite, o FC Porto ganharia com qualquer treinador e com qualquer jogador.

Depois desta noite, espero que o FC Porto volte a ser o que sempre foi e sobretudo que esta noite tenha servido para abrir os olhos a muita gente dentro do clube. Esta noite, no Estádio da Luz, só uma equipa com muito carácter, atitude, garra e vontade conseguiria fazer o que o Benfica fez. Sim, não foi por acaso que escolhi estas palavras, porque se bem se lembra, era com estas características que ano após ano eu via o FC Porto. A partir daquele célebre minuto 92, o espaço K mudou tudo: mudou a maneira de ser do clube, dos dirigentes, dos jogadores e dos adeptos. Depois destes constantes desaires, algo tem que mudar porque a história do FC Porto assim o exige. Nem que para isso tenha que ser criado um espaço F, para explicar o fracasso e o falhanço desta época. Porque afinal de contas o feitiço acaba sempre por se virar contra o feiticeiro. O FC Porto tem de o saber. Não há outra hipótese.

A Figura
André Gomes – O médio português foi o pulmão da equipa benfiquista e fez um golo de bandeira que colocou os encarnados no Jamor.

O Fora-de-Jogo
Ricardo Quaresma – Mais um jogo em que Quaresma não quis jogar e onde provou o seu pior lado, tal como tinha feito na Madeira. Estava mais que visto que iria levar o segundo amarelo e, já perto do fim, Pedro Proença fez-lhe a vontade.

Pedro Maia