Depois do nulo registado no final dos noventa minutos, o SL Benfica eliminou o FC Porto nos penalties e carimbou o passaporte para a final da Taça da Liga. Num jogo que ficou marcado pela expulsão de Steven Vitória à passagem da meia-hora, o FC Porto, a jogar em casa, dispôs de várias ocasiões para marcar ao longo da primeira parte mas foi incapaz de transpor a bem organizada defesa encarnada no segundo tempo. Na lotaria das grandes penalidades, um falhanço de Fernando terminou com as aspirações azuis e brancas e permitiu ao Benfica manter-se em todas as frentes. Assim, a final da Taça da Liga irá ser disputada por Benfica e Rio Ave, à semelhança do que sucederá na Taça da Portugal. Francisco Manuel Reis (FC Porto) e Francisco Vaz de Miranda (Benfica) analisaram o encontro.

Nas grandes penalidades, o Benfica levou a melhor sobre o Porto  Fonte: Público (APF)
Nas grandes penalidades, o Benfica levou a melhor sobre o Porto
Fonte: Público (APF)

 

Pronúncia do Norte

Longe de ser o “jogo da época”, como algumas vozes sugeriam, o jogo de hoje representava a última hipótese de o FC Porto terminar esta temporada com mais do que uma mísera Supertaça. Se o adversário – um Benfica com uma vantagem de 15 pontos no campeonato e que já havia eliminado os dragões da Taça de Portugal – se apresentou com uma equipa recheada de segundas escolhas, o FC Porto apresentou o melhor onze disponível e Luís Castro voltou a apostar no “meio-campo de combate” em que já havia apostado nos outros embates com os encarnados (Fernando, Defour e Herrera).

A história do jogo pode resumir-se em duas partes relativamente distintas: nos primeiros quarenta e cinco minutos, o FC Porto dominou claramente a partida, conseguiu impor-se ao Benfica, foi capaz de rasgar a defesa adversária e criou inúmeras oportunidades para marcar; na segunda metade, frente a um Benfica em inferioridade numérica mas muito bem organizado e com as linhas muito próximas, o FC Porto continuou por cima, tendo mais bola, mas esteve muito mais distante do golo, não revelando a agressividade, a velocidade e a competência suficientes para penetrar na muralha vermelha instalada à sua frente.

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As contas são fáceis de fazer: na primeira parte, Jackson teve três ocasiões soberanas para marcar (aos 9’, de cabeça; aos 20’, numa emenda deficiente a dois metros da baliza; e aos 38’, quando tentou picar por cima de Oblak), Varela também desperdiçou uma oportunidade claríssima (aos 14’, com Jackson isolado ao seu lado) e Defour teve igualmente nos pés a possibilidade de facturar (aos 26’, rodou sobre o defesa à entrada da pequena área e rematou ao lado); na segunda, o banana shot de Herrera aos 79’ foi a situação de maior alarme para os pupilos de Jesus.

O Benfica só foi mais forte nos primeiros cinco minutos. A partir daí o FC Porto tomou conta das incidências e lançou-se em busca da vantagem, não consentindo uma única ocasião de golo ao longo dos noventa minutos. Enfrentando uma equipa aguerrida e sólida, como se esperava, os melhores momentos dos dragões até foram contra onze (Steven Vitória foi uma passadeira e acabou expulso), quando havia mais espaço entre as linhas do Benfica. Depois, os lisboetas recuaram e o FC Porto, embora instalado no meio-campo adversário, teve sempre muita dificuldade em fazer chegar o esférico à área.

Embora a sorte tenha sorrido ao Benfica nas grandes penalidades, premiando a coesão defensiva e a capacidade de sofrimento dos seus atletas, o FC Porto merecia um desfecho diferente porque dominou toda a partida. O fôlego foi-se dissipando à medida que o cronómetro corria, mas mesmo assim teria sido mais justo ver o FC Porto na final da Taça da Liga. No final, acabou por ser mais um capítulo do filme de terror que tem sido a época 2013/14 no Dragão.

O FC Porto desperdiçou demasiadas oportunidades e acabou por pagar a factura  Fonte: ZeroZero
O FC Porto desperdiçou várias ocasiões e acabou por pagar a factura
Fonte: ZeroZero

Fabiano (6) – teve uma noite muito tranquila e quase só foi chamado a intervir nos penalties. Aí, fez o que pôde…

Alex Sandro (6) – sem grande trabalho defensivo, teve algumas dificuldades em incorporar-se no ataque – fruto da boa cobertura dos extremos adversários – e acabou por não assumir a preponderância que se lhe pedia no momento ofensivo.

Danilo (6) – também não teve muito para fazer na hora de defender, mas acabou por ser mais assertivo do que o seu compatriota da faixa oposta no ataque, procurando desequilibrar através dos seus movimentos interiores.

Mangala (6) – sem erros graves, esteve particularmente mal durante a primeira meia hora, quando o Benfica pressionava alto e obrigava o Porto a optar pelo jogo directo, ao falhar uma série de passes de forma disparatada.

Maicon (8) – o melhor da defesa do Porto; apesar de o Benfica ter atacado pouco, ficam na retina dois ou três desarmes de enorme classe do capitão do Porto.

Fernando (8) – foi o tampão de sempre sem bola e foi fundamental com ela no pé: bem no capítulo do passe (curto e longo), bem a gerir os ritmos e os tempos da partida; bem a iniciar a construção do jogo do Porto. Fez o que lhe competia.

Defour (6) – ofereceu à equipa aquilo que pode e sabe – equilíbrios e boas decisões -, mas acabou por sair de campo para dar lugar a um elemento incomparavelmente mais criativo como é Quintero. Foi “certinho” como quase sempre é.

Varela (7) – se teve problemas físicos durante a semana, esses não se notaram durante quase toda a partida (em especial durante a primeira parte): muito dinâmico, mais explosivo que o habitual, mostrou-se galvanizado e fez um bom jogo. Pena aquela perdida em que rematou sem nexo com Jackson ao lado.

Jackson Martínez (7) – teve várias oportunidades para fazer o gosto ao pé (e à cabeça!), mas acabou por ser demasiado perdulário. Ainda assim, por tudo o que trabalhou para a equipa, merece uma boa nota. Só faltou o golo para ter feito uma grande exibição.

Quintero (7) – entrou para encontrar espaços onde ninguém os encontra, para fazer passes que ninguém faz e para descobrir colegas onde ninguém os descobre. Em certa medida, conseguiu-o, mas não desequilibrou tanto como se esperava.

Ghilas (5) – entrou para o lugar de um desinspirado Quaresma, mas acabou por fazer muito pouco. Remetido ao espaço nas costas do Cha Cha Cha, nunca apareceu no jogo e contribuiu muito pouco para a equipa.

Ricardo (-) – esteve pouco tempo em campo e não mudou nada.

 

A Figura
Herrera (8) – o mexicano teve uma performance muito positiva e provou que, com confiança, é um elemento muito válido. Foi o responsável pela profundidade do jogo portista na primeira parte, demonstrou mais uma vez muita força física e velocidade e hoje revelou serenidade na tomada de decisão e no momento do passe. Perdeu preponderância com o recuo motivado pela entrada de Quintero, mas terá sido o elemento em maior destaque no lado dos anfitriões.

O Fora-de-Jogo
Quaresma (6) – não foi o abre-latas que poderia ter sido. Agarrou-se demasiado à bola, foi lento a decidir, insistiu em marcar (mal!) as bolas paradas e hoje não teve grandes golpes de inspiração. Não fez um jogo terrível, mas esteve abaixo das expectativas. Foi o único a ficar surpreendido com a sua própria saída.

 

Francisco Manuel Reis

benficaabenfica

Com Jorge Jesus a pensar no jogo em Turim da próxima quinta-feira, foi um Benfica de cara lavada a apresentar-se no Dragão para o jogo que dava o acesso à final da Taça da Liga. Importa aqui dizer que esta competição é, de longe, a menos importante nas ambições encarnadas e, por isso, a rotação feita no onze inicial justificava-se plenamente. Com o regresso de Oblak à baliza e André Almeida e Siqueira nas laterais, a grande surpresa esteve no centro da defesa. Jardel e Steven Vitória permitiram o (merecido) descanso de Luisão e Garay, Ruben Amorim ocupou o lugar de Enzo e a Ivan Cavaleiro coube a difícil tarefa de ultrapassar Alex Sandro. Com o sérvio Sulejmani do lado esquerdo, Cardozo e Lima apareceram como referências no ataque. Poupança quase total a pensar na Juventus, visto que apenas três destes jogadores costumam ser escolha habitual por parte de Jorge Jesus: Oblak, Siqueira e Lima.

Com a diferença de rotação e dinâmica existente entre as duas equipas, não seria difícil de prever que o domínio do jogo pertenceria ao F.C. Porto, que deu muito mais importância a esta meia-final do que o Benfica. Se a surpresa de Jorge Jesus esteve reservada para a dupla de centrais que lançou em campo, menos surpreendente foi a falta de entrosamento por esta demonstrada. Steven Vitória, que passou a temporada entre o banco e a bancada, cometeu erros atrás de erros e acabou expulso à meia-hora de jogo, numa decisão duvidosa do árbitro Marco Ferreira, após um carrinho fora de tempo sobre Jackson Martínez. Repetia-se o filme da Taça de Portugal, com o Benfica a ficar reduzido a dez logo no primeiro terço do encontro. Desta vez, e sendo coerente com as suas ideias, Jorge Jesus retirou Lima para lançar Garay, deixando Cardozo perdido entre a defesa contrária. Num primeiro tempo de sentido único, só por inércia dos atacantes do F.C. Porto o nulo se manteve ao intervalo. Varela e Jackson desperdiçaram oportunidades claras de golo, que quase sempre surgiam pelo lado de Steven Vitória, totalmente fora do ritmo de jogo e incapaz de pôr cobro às investidas portistas. No meio-campo, Ruben Amorim e André Gomes revelavam-se insuficientes perante a maior rotatividade do mexicano Herrera.

No segundo tempo, esperava-se um F.C. Porto a continuar a carregar na procura do golo que lhes permitisse alcançar a única final da temporada. Algo que não se verificou. O Benfica melhorou substancialmente o seu momento defensivo com a entrada do soberbo Garay, a quem a responsabilidade do momento nunca parece afectar. O Benfica espreitava timidamente o ataque através de Ivan Cavaleiro e Markovic (entrou para o lugar de Cardozo) mas esbarrava sempre em Mangala, central do F.C. Porto a quem parece ser difícil arrancar uma falta ou um cartão amarelo. Mais do que a qualidade defensiva apresentada pelo Benfica, esta segunda parte deixou as evidências de uma época desastrosa para os dragões. Em menos de duas semanas, por duas vezes estiveram com mais um homem em campo durante 60 minutos e pouco ou nenhum proveito conseguiram tirar disso.

Com o empate sem golos no fim dos noventa minutos, a decisão estaria nas grandes penalidades. E que monstro foi Oblak, que classe teve Enzo, que épica foi esta vitória. O Benfica apresenta uma confiança inabalável e nem o facto de se apresentar no sempre complicado Estádio do Dragão com uma equipa de segundas linhas lhe retirou o discernimento e o saber estar em cada momento do jogo. Depois de virar a eliminatória da Taça de Portugal de forma épica, o Benfica foi ao Dragão selar a presença na final de 7 de Maio, frente ao Rio Ave. Só um grupo de jogadores com um enorme espírito de união consegue superar por duas vezes o Porto nas condições em que isso aconteceu. Mas, verdade seja dita: o campeão nacional já merecia um ano assim.

A equipa do Benfica manteve-se sempre unida e acabou por chegar à final da Taça da Liga  Fonte: ZeroZero
A equipa do Benfica manteve-se sempre unida e acabou por chegar à final da Taça da Liga
Fonte: ZeroZero

André Almeida (7) – com Quaresma pela frente, avizinhava-se tarefa difícil para o jovem português. Mentira, disse ele. Tão apagado esteve Quaresma que nem quis acreditar quando foi substituído.

Steven Vitória (3) – jogo para esquecer do 4.º central benfiquista. Desastroso no posicionamento, lento a reagir, foi pelo seu raio de acção que nasceu o principal perigo adversário. Expulsão duvidosa.

Jardel (7) – sempre que é chamado, Jardel cumpre. Excelente exibição do brasileiro, culminada com uma grande penalidade muito bem cobrada.

Garay (8) – a classe do central argentino sai-lhe por todos os poros. Segurou a equipa no momento mais difícil do jogo.

Siqueira (6) – o lateral-esquerdo brasileiro apresenta-se numa condição física invejável. Contudo, continua a complicar em demasia alguns lances em que se pede maior objectividade.

Ruben Amorim (7) – está feito um belíssimo jogador. Melhorou a olhos vistos a qualidade do seu posicionamento táctico e isso permite-lhe estar sempre um passo à frente dos restantes.

André Gomes (6) – sem o brilhantismo que apresentou no encontro da Taça de Portugal, melhorou o seu nível no segundo tempo, após algumas falhas de concentração no primeiro.

Ivan Cavaleiro (6) – jogo de sacrifício, destacou-se mais por ter conseguido travar umas das principais fontes do jogo ofensivo portista: Alex Sandro.

Sulejmani (6) – serve o comentário feito a Ivan Cavaleiro para o jogador sérvio. Acusou algum desgaste natural, depois de ter jogado quinta-feira frente à Juventus.

Lima (6) – apenas meia-hora em campo e o primeiro remate do jogo para registo.

Markovic (7) – quando o Benfica se encolhia no meio-campo defensivo, o talento do sérvio veio dar alguma criatividade e capacidade de segurar a bola ao ataque encarnado.

Enzo Pérez (6) – pouco tempo em jogo, fica mais uma demonstração da categoria do médio argentino na marcação da grande penalidade.

 

A Figura
Oblak (9) – mais uma demonstração de enorme qualidade por parte do jovem esloveno. Seguro dentro dos postes, autoritário fora deles, mãos de ferro nas grandes penalidades.

O Fora-de-Jogo
Cardozo (4) – com a poupança de Rodrigo, Cardozo assumiu a titularidade e, uma vez mais, passou ao lado do jogo. Nem o jogo esteve para ele, nem Cardozo esteve para o jogo. Fase final de época para esquecer do paraguaio.

 

Francisco Vaz de Miranda

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