Futebol joga-se com a cabeça | FC Porto

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O FC Porto está fora da Liga dos Campeões. Depois de um sorteio madrasto, de um desempenho, em certos aspetos, muito meritório e de cinco pontos conquistados, a vigência dos dragões na prova milionária termina sem glória.

A Liga Europa emerge como um mal menor e o facto de a final da segunda prova da UEFA se disputar, este ano, em Sevilha, encerra em si qualquer coisa de poético.

Foi na capital da Andaluzia que, há quase 19 anos, José Mourinho se deu a conhecer ao mundo, levando o FC Porto à vitória na extinta Taça UEFA (competição que mais tarde deu lugar à Liga Europa).

Portanto, antes de entrar no tema desanimador que aqui me traz esta semana, começo por deixar uma palavra de otimismo e responsabilidade para todos os jogadores, treinadores, dirigentes e adeptos portistas.

Se a Liga dos Campeões é uma prova desenhada à medida dos clubes mais ricos do Velho Continente e que, na ótica dos principais clubes portugueses, serve, essencialmente, para encher os cofres (seja através dos prémios de presença ou da valorização dos principais ativos) e reforçar a sua reputação e prestígio, a Liga Europa abre outras perspetivas de sucesso.

Posto isto, o FC Porto pode e deve assumir-se como candidato à vitória final da prova e o jogo decisivo de Sevilha, mais do que uma ambição, deve ser um dos objetivos principais da temporada.

Foquemo-nos, então, na prestação azul e branca na principal montra europeia. Muitas são as razões que ajudarão a explicar o relativo insucesso alcançado na competição.

É certo que algumas arbitragens foram, no mínimo, tendenciosas, que a sorte pouco ou nada quis com os comandados de Sérgio Conceição e que o grupo, que incluía Liverpool FC, Club Atlético de Madrid e AC Milan, trouxe dificuldades e desafios aos quais o futebol português não está habituado.

Salah
O FC Porto sofreu, particularmente, nas partidas contra o Liverpool FC.
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

No entanto, na ressaca da eliminação portista, não posso deixar de considerar que foram mais as culpas próprias a precipitar o afastamento precoce da equipa, do que fatores externos ou alheios.

O FC Porto enfrentou quase todos os jogos com a lição bem estudada. Ao nível do jogo jogado, com a exceção da debacle da receção ao Liverpool FC, os dragões foram sempre capazes de se equiparar e, muitas vezes, suplantar aos seus oponentes.

Quase sempre assente no tradicional 1x4x4x2 de Conceição, a equipa foi camuflando as dificuldades na construção por via de uma pressão, a espaços, asfixiante, rigor na ocupação dos espaços, disciplina defensiva, agressividade nos duelos, elevada percentagem de conquista das segundas bolas e movimentos de contra-ataque felinos.

Como é que se explica, então, que uma equipa tão competente em quase todos os jogos e os seus diferentes momentos do jogo, acabe afastada da prova por um Club Atlético de Madrid que, apesar das suas estrelas, apresentou, ao longo de toda a fase de grupos, um futebol não mais do que pobre e desorganizado?

Finalização.

Esta será, certamente, a resposta que a grande maioria dos adeptos terá na ponta da língua para responder à fatídica questão colocada acima. Não estando inteiramente errado, é uma resposta que conta, apenas, parte da história.

Sim, o FC Porto foi perdulário em todos os jogos e criou oportunidades mais do que suficientes para, por exemplo, vencer o jogo em Milão ou não ter acabado o jogo da decisão com os colchoneros exposto ao contra-ataque espanhol que elevou o placard para números que têm tanto de ingrato como de injusto.

FC Porto Club Atlético de Madrid
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

No entanto, considero que a falta de eficácia, mais do que a doença, foi um sintoma. Um sintoma da falta de experiência, de estofo e discernimento. Em competições da dimensão da Liga dos Campeões, a frieza e a estabilidade emocional são decisivas e marcam, regularmente, a linha que separa a o sucesso do insucesso.

Para o mal e para o bem, a equipa do FC Porto é o reflexo do seu treinador. Intensa, organizada e competitiva. Mas, por vezes, nervosa e exposta ao descontrolo emocional. Em frente à baliza, na cara do golo, as pernas tremeram sempre.

Foram apenas 3 golos em 6 jogos e só Luis Díaz (hoje em dia, um jogador, claramente, à parte no plantel portista) escapou ao peso dos jogos e à pressão que os restantes jogadores da equipa, com Taremi em infeliz evidência neste capítulo, sentiram nos momentos da decisão.

Taremi Calabria FC Porto Fikayo Tomori
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Num sintético exercício de memória, o FC Porto vence pela margem mínima, no Estádio do Dragão, o AC Milan, num jogo que deveria ter terminado com um resultado histórico, digno de museu, empata em Milão uma partida que teria que estar resolvida ao intervalo, perde frente a um Liverpool desfalcado porque não foi capaz de ferir antes de ser engolido e, para terminar, não foi capaz de vencer nenhum encontro frente ao seu rival mais direto, o Atlético de Madrid, porque a pólvora estava mesmo seca.

Como se não bastasse, uma equipa que, para além de disputar os jogos frente aos rivais, jogava contra os seus próprios fantasmas, no jogo da decisão e, talvez, no seu momento mais decisivo, sucumbiu à pressão e deixou-se levar por estados de alma que contrariaram a responsabilidade e frieza que se exigiam.

O ex libris da incapacidade emocional que a equipa do FC Porto foi demonstrando ao longo de toda a competição deu-se a partir do minuto 67 do último jogo. A perder pela margem mínima e sabendo que o empate bastava para seguir em frente, a equipa encontra-se perante uma favorável situação de superioridade numérica.

O que se passou a seguir, foi de um amadorismo atroz. Otávio descontrolou-se, Pepe não foi capaz de ser farol e Wendell, a precisar de mostrar serviço como de pão para a boca, reage a uma provocação (uma das armas constantemente utilizadas pelos pupilos de Simeone) e acaba com as aspirações da equipa.

Já se sabia que, depois da expulsão de Yannick Carrasco, a cartolina vermelha para jogadores do FC Porto subiria à primeira oportunidade. A expulsão é exagerada, é um facto, mas a desorientação que a equipa demonstrou, provam que, por culpa própria, não merecia chegar à fase seguinte.

Moral da história: o futebol que se joga com os pés é comandado pela cabeça. E foi aí, pela cabeça (não se confunda inteligência com jogo aéreo), que o FC Porto soçobrou.

A definição de loucura passa por fazer a mesma coisa repetidamente e esperar resultados diferentes. Que os erros que se cometeram se corrijam e que sirvam de tónico e incentivo para dias melhores.

Importa sarar as feridas, recuperar os índices anímicos e, acima de tudo, ser humilde na análise ao que correu mal. E acabo como comecei, venha daí a Liga Europa.

Bernardo Lobo Xavier
Bernardo Lobo Xavierhttp://www.bolanarede.pt
Fervoroso adepto do futebol que é, desde o berço, a sua grande paixão. Seja no ecrã de um computador a jogar Football Manager, num sintético a jogar com amigos ou, outrora, como praticante federado ou nos fins-de-semana passados no sofá a ver a Sporttv, anda sempre de braço dado com o desporto rei. Adepto e sócio do FC Porto e presença assídua no Estádio do Dragão. Lá fora sofre, desde tenra idade, pelo FC Barcelona. Guarda, ainda, um carinho muito especial pela Académica de Coimbra, clube do seu pai e da sua terra natal. De entre outros gostos destacam-se o fantástico campeonato norte-americano de basquetebol (NBA) e o circuito mundial de ténis, desporto do qual chegou, também, a ser praticante.

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