Horribilis ou Mirabilis?

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Quando a rainha Isabel II de Inglaterra descreveu 1992 como o seu ano horribilis, teria motivos para isso. Desde divórcios na família real, passando por um incêndio no Castelo de Windsor até a um crescente desgaste, junto da opinião pública, da imagem da coroa britânica em virtude de casos de privilégios fiscais, muitos foram os acontecimentos que marcaram esse ano. Salvas as devidas distâncias, Março de 2014 bem que pode ser o mês horribilis do FC Porto.

Se Fevereiro terminou mal, Março começou ainda pior: com um empate em Guimarães e, em consequência, com a saída do treinador. E por mais que o abandono de Paulo Fonseca possa ser visto como o primeiro passo para a solução do problema (que, na realidade, vai muito para além do treinador…), a verdade é que ele não significa mais do que a assunção do fracasso de um projecto (seja lá isso o que for) como ele era perspectivado pela tríade Paulo Fonseca, Antero Henrique e Pinto da Costa.

Porém, voltando as atenções para o futuro e para o que este mês nos reserva, o cenário, para esta espécie de FC Porto, não é animador. Os Dragões têm pela frente Arouca (Campeonato, casa), Napoli (Liga Europa, casa), Sporting (Campeonato, fora), de novo Napoli (Liga Europa, fora), Belenenses (Campeonato, casa), Benfica (1ª mão da Meia-final da Taça de Portugal, casa) e, finalmente, Nacional (Campeonato, fora). Em suma, sete jogos importantíssimos (principalmente os próximos quatro) e que podem definir o rumo da época – mais ainda, sete jogos, dos quais apenas dois (Arouca e Belenenses) apresentam um nível de exigência menor.

Perante este quadro, o FC Porto parte, no entanto, com uma pequena vantagem em relação aos mais recentes encontros. A saída de Paulo Fonseca e a promoção de Luís Castro – um homem sério, competente e há muito tempo ligado ao futebol e ao FC Porto, pelo que perfeitamente identificado com a casa e, igualmente, com a causa Porto – representa um novo ânimo para a equipa. A chegada de um novo treinador, per si, daria sempre aos jogadores um novo estímulo, ao mesmo tempo que permitiria que voltassem a sentir-se cómodos a jogar, agora que o foco dos adeptos não é a contestação a Paulo Fonseca, que acabava inevitavelmente por fragilizar e inibir ainda mais a equipa, redobrando-lhe os índices de pressão. Todavia, a essa chicotada psicológica terá sempre de se seguir uma mudança dentro da lógica da própria equipa. Mais do que enveredar (de novo) por discussões meramente teóricas como o duplo pivot, importa que Luís Castro faça algo que Paulo Fonseca nunca (?) conseguiu fazer: passar a mensagem. Quer a nível interno, tornando a equipa mais organizada, confiante, segura de si e crente no processo, permitindo que os jogadores cresçam dentro dela; quer a nível externo, com um discurso mais consentâneo com aquilo que é a realidade do FC Porto.

Luís Castro. O novo timoneiro do Dragão  Fonte: A Bola
Luís Castro. O novo timoneiro do Dragão
Fonte: A Bola

Por outro lado, a transição de Luís Castro da equipa B para a equipa principal poderia representar algo que, todavia, parece não estar para acontecer, olhando para aquilo que é a lista de convocados para o jogo frente ao Arouca: a capitalização do trabalho feito na equipa B. Não é, certamente, por acaso que a equipa secundária do FC Porto está no topo da 2ª Liga; aliado ao bom trabalho levado a cabo pelo agora treinador do conjunto principal, emergem jovens com grande potencial, como são os casos de Rafa, Mikel, Tozé, Ivo, André Silva ou Gonçalo Paciência. Se assim quisesse, Luís Castro teria aqui uma dupla oportunidade: ao mesmo tempo que capitalizaria o trabalho que desenvolveu na equipa B do Dragão, promovendo alguns jovens com valor, isso constituiria um desafio às estrelas do plantel principal, algumas das quais notoriamente acomodadas e em sub-rendimento. A título de exemplo, obviamente que não se está a pensar numa troca directa e imediata de Alex Sandro por Rafa; mas até que ponto não seria útil Luís Castro dar oportunidade a jovens com imenso futuro e já com algumas provas dadas – para mais, todos eles com enorme vontade de envergar o manto azul e branco –, e que tão bem conhece, para espicaçar as maiores vedetas do plantel principal?

As mais recentes notícias dão conta de que Luís Castro é aposta da SAD do FC Porto para o que resta da temporada. Uma época que, na verdade, está ainda muito longe de terminar. Se a possibilidade de renovar o título nacional surge já muito longe, a realidade é que sobram duas Taças e uma Liga Europa para disputar. Ninguém pode exigir a Luís Castro que as vença. Mas o que qualquer adepto portista espera do novo timoneiro é que este seja capaz de agarrar o barco, catapultar a equipa e colocar em campo um FC Porto seguro de si, um FC Porto que volte a ser ameaçador a atacar e impermeável a defender – talvez, então, este Março de 2014 se transforme, afinal, num mês mirabilis.

Filipe Coelho
Filipe Coelho
Ao ritmo do Penta e enquanto via Jardel subir entre os centrais, o Filipe desenvolvia o gosto pela escrita. Apaixonou-se pelo Porto e ainda mais pelo jogo. Quando os três se juntam é artigo pela certa.                                                                                                                                                 O Filipe não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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