Julen Lopetegui não se sabe vender

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hic sunt dracones

Vítor Pereira saiu do FC Porto depois de ter vencido o campeonato. Saiu, depois de ter sido campeão em dois anos consecutivos. O FC Porto de Vítor Pereira somou apenas uma derrota em 60 jogos para a Liga Portuguesa. Venceu duas supertaças. Num ano, conseguiu até passar a fase de grupos da Liga dos Campeões, perdendo apenas nos oitavos de final. No primeiro, foi relegado para a Liga Europa e perdeu contra o colosso Manchester City.

Recordo-me, também, que foi obrigado a colocar Hulk no centro do terreno, perante a ausência de um verdadeiro substituto a Falcão, e mesmo assim conseguiu comandar a equipa contra todas as adversidades e vencer o campeonato.

Volta, estás perdoado? Fonte: Blogue 'Lateral Esquerdo'
Volta, estás perdoado?
Fonte: Blogue ‘Lateral Esquerdo’

Perante este parágrafo inicial, parece que Vítor Pereira foi um treinador capaz de deixar saudades às hostes portistas. Sim e… não. Hoje em dia, o saudosismo para com o treinador já é bastante maior. Na altura, porém, Vítor Pereira teve uma saída inglória. Depois de ter sido bicampeão, o treinador português não viu o seu trabalho reconhecido. Anos mais tarde, Vítor Pereira reconheceu publicamente que há algo que lhe falta. Saber vender a sua imagem.

Julen Lopetegui tem certas semelhanças com Vítor Pereira. Possui 19 vitórias seguidas no Dragão, é o treinador com maior percentagem de vitórias na Liga dos Campeões… O ano passado foi capaz de lutar com o SL Benfica de Jesus até à reta final e na prova milionária cedeu frente ao todo poderoso Bayern Munique, nos quartos-de-final. Já este ano, está na frente do grupo que disputa e no primeiro lugar da liga portuguesa. Continua, porém, a receber assobios e a ver o seu trabalho posto em causa.

Sim, é verdade que a equipa de Lopetegui tem sido bipolar. Em casa é capaz de mundos e fundos, fora de portas vai deixando algo a desejar… Soma, contudo, zero derrotas em nove jogos. Depois de já ter enfrentado Chelsea, SL Benfica, Dínamo Kiev… Podia dizer-se que o percurso do treinador espanhol tem sido bastante acima da expectativas mas parece impossível, para as hostes portistas, perdoar os empates consentidos já em cima dos minutos finais frente a Moreirense e Dínamo Kiev.

Parece-me que Lopetegui nunca terá uma vida descansada no Dragão. Mesmo que vença títulos, tal como Vítor Pereira conseguiu. Existirá sempre algo que está mal. Lopetegui não se sabe vender, falta-lhe carisma social (se é que lhe posso chamar assim). Já se percebeu que o espanhol é um líder dentro do balneário e com todos aqueles que o rodeiam. Mas não consegue transmitir isso cá para fora. Lopetegui não é capaz de reunir um consenso público, de unir uma nação clubística contra diversos adversários.

Aboubakar tem-se assumido como figura de proa Fonte: FC Porto
Aboubakar tem-se assumido como figura de proa
Fonte: FC Porto

Não concordo com muitos dos princípios que Lopetegui assume para a sua equipa. Quem ler o Onze Violinos pode perceber isso. Mas penso que, nesta altura, Lopetegui já deveria ter começado a mudar algumas mentalidades. Quiçá já o conseguiu e eu é que não reparei nisso! Os adeptos do FC Porto querem ópera em todos os jogos, querem vitórias convincentes, querem dominar adversário atrás de adversário. E nunca vão perceber que isso nem sempre é possível. Mesmo que, no final, se conquistem títulos.

Aproveito para partilhar um texto acerca da forma como o mediatismo concedido a alguém pode moldar a opinião pública:

“Quando, na segunda época de Guardiola, Ibrahimovic marcou 16 golos na Liga Espanhola em 2034 minutos (num total de 21 golos em 3285 minutos jogados em todas as competições), quase toda a gente concluiu que tinha sido uma má época do sueco. Apressaram-se então a dizer que falhara na Catalunha, ainda que o seu contributo para a manobra ofensiva do Barça tivesse sido inestimável, e que Guardiola se equivocara ao contratá-lo. Guardiola e Ibrahimovic não parecem ter-se entendido às mil maravilhas, é verdade, mas duvido que [SIC] o rendimento do sueco tenha sido o problema.

Guardiola começava a perceber que precisava de colocar Messi numa posição central, e Ibrahimovic não parecia disposto a jogar noutra posição. A saída de Ibrahimovic do clube pareceu dar razão àqueles que defenderam o mau investimento, e o principal argumento foi sempre aquele que os estúpidos mais depressa invocam: os números. Ora, os números de Ibrahimovic nessa primeira época são praticamente os mesmos que os de… isso, acertaram: Luis Suarez! Suarez fez, a época transacta, os mesmos 16 golos em 2180 minutos na Liga Espanhola (num total de 25 golos em 3535 minutos em todas as competições). Em média, Suarez marcou menos golos por minuto jogado na Liga Espanhola do que Ibrahimovic. Com quatro agravantes. A primeira é a de que o Barça de Luis Enrique, enquanto equipa, fez mais 12 golos do que o de Guardiola nessa época, o que significa que Ibrahimovic fez 16,3% dos golos da equipa e Suarez apenas 14,5%.

A segunda é a de que, apesar de ter começado a jogar mais tarde, Suarez nunca se lesionou, o que fez com que nunca tivesse quebras de rendimento, coisa que não aconteceu com Ibrahimovic, que esteve constantemente a recuperar de lesões. A terceira é a de que, além dos golos, Suarez não ofereceu mais nada à equipa, o que também não foi o caso com Ibrahimovic, cujo envolvimento com o colectivo foi muito importante. A quarta é a de que Luis Suarez foi bem mais caro do que Ibrahimovic. Tudo somado, até para aqueles que gostam de apoiar os seus argumentos nos números, é impossível defender que Ibrahimovic tenha feita uma má primeira época e que Suarez tenha feito uma boa época. Mas – surpresa das surpresas – é exactamente isso que é defendido de modo generalizado! Suarez é hoje tido como um dos elementos mais importantes da equipa catalã, está eleito entre os três melhores jogadores da temporada passada, e há sobre ele uma opinião generalizada muito favorável. Não é impressionante que assim seja. A maior parte das pessoas baseia as suas opiniões no que ouvem dizer e o que ouvem dizer é geralmente o que não interessa ouvir.

Neste caso, Suarez é tido como uma grande contratação porque o Barça ganhou a Champions e porque Suarez é aquele tipo de avançado do qual se condescende porque é aguerrido. Não tem metade da qualidade de Ibrahimovic, não fez metade do que Ibrahimovic fez em Barcelona e, como se demonstra, nem sequer marcou mais golos do que Ibrahimovic. O futebol continua a ser dos estúpidos, e os estúpidos continuam a fazer-se ouvir a outros estúpidos. Um dos avançados mais sobrevalorizados da actualidade já pode dizer que foi eleito para melhor jogador do mundo; o melhor avançado da história do jogo nunca chegou a sê-lo, e provavelmente já não virá a sê-lo.”

E partilho ainda esta imagem:

united

A verdade? É que depende mesmo muito do contexto e da primeira impressão que se dá.

Foto de Capa: FC Porto

Nuno Ribeiro Margarido
Nuno Ribeiro Margaridohttp://www.bolanarede.pt
O Nuno sabe que o futebol se assume muitas vezes como a perfeita metáfora da vida. Entre muitas frases do mundo do futebol que o marcam há uma que guarda e que o inspira em tudo o que faz: "Ganhar, ganhar, ganhar... e voltar a ganhar, ganhar e ganhar... é isto o futebol".                                                                                                                                                 O Nuno não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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