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Há cerca de três semanas atrás, durante a 88ª edição da gala dos Óscares, fez-se história no mundo do cinema. Em primeiro lugar, Ennio Morricone venceu, finalmente o galardão de melhor banda sonora (em Hateful Eight) depois de estar nomeado para esta categoria em todas as décadas, desde a de 70! Depois, Leonardo Di Caprio, após fantásticas representações não reconhecidas pela academia e que valeram inúmeros memes pela web foram, tornando as suas não-vitórias num fenómeno sem paralelo, conseguiu, finalmente!, levar para casa a estatueta dourada pela participação no filme “The Revenant”, ou “O Renascido” em português.

A história deste filme espelha bem o percurso destes dois homens do cinema. Na película, Hugh Glass (interpretado por Di Caprio) luta, com todas as forças pela sobrevivência, depois de ser atacado por um urso e de, num estado frági, ver a sua vida constantemente assediada pela malvadez de um “colega” seu, que chegou mesmo a encomendar-lhe um enterro e o abandonou, no meio da floresta e do frio glaciar das Dakotas, nos EUA.

Hugh, mesmo com todas as contrariedades que enfrentou – a maior terá sido ver o seu filho morrer, quando estava num estado em que nada podia fazer para além de mexer os olhos – não desistiu de lutar, de se manter vivo, dando uma incrível amostra do poder de adaptação do ser humano e da sua capacidade de preserverança…

… a mesma que muitos futebolistas demonstram, sabendo esperar pela sua oportunidade para a transformar em algo efectivo, superando autênticos “boicotes de carreira, rumo a uma carreira de sucesso regular que prova todo o seu talento, sustentado no seu esforço, espírito de sacrifício e capacidade de trabalho. Foi assim, por exemplo, com Maniche ou Deco. Nomes que fazem parte que não se terão inspirado em Hugh Glass, mas que devem ter inspirado miúdos aspirantes a futebolista que na altura vibravam com o incrível FC Porto de José Mourinho.

Um deles era Sérgio Oliveira, portista desde pequenino, que celebrou todos os títulos do seu clube. Saberá, por certo, a história dos seus antecessores, e o quão difícil foi chegar onde chegaram, pelo que, quando foi emprestado, jogou e lutou como nunca antes, defendendo as cores dos clubes que representava com a garra de quem não desiste de um objectivo – no caso, a  titularidade com a camisola do seu clube. Quando lá regressou, pensou ver os seus esforços recompensados, mas logo viu o seu espaço ser ocupado por contratações estapafúrdias e jogadores em sub-rendimento e/ou que em nada o superavam para além do jogo fora das quatro linhas ou a justificação de um avultado investimento.

Sérgio Oliveira no topo dos festejos, como que a sentir, mais do que ninguém, um golo do FC Porto Fonte: FC Porto
Sérgio Oliveira no topo dos festejos, como que a sentir, mais do que ninguém, um golo do FC Porto
Fonte: FC Porto

Sérgio via-se desaproveitado, terá desanimado, mas não desistiu, porque sabia que no seu clube “nunca ninguém desiste” (disse ele, no último sábado) e tinha noção de que o seu esforço iria ser recompensado. E foi. Perdeu-se a paciência com o anterior treinador, chegou um novo, e surgiu a oportunidade que ele há tanto tempo reclamava – a titularidade. Agarrou-a com unhas e dentes, como se faz no seu clube, e conferiu à equipa a dinâmica aguerrida que tinha em falta, a mística de “ser Porto”. No primeiro jogo, abriu uma avenida para Maxi explorar e assistir Aboubakar para um dos golos da vitória sobre o União da Madeira; no segundo, em Setúbal, marcou o único golo do jogo, numa bomba que descarregou toda a frustração pelas injustiças contra si cometidas, uma bola repleta de raiva de quem, aos 23 anos, ainda não tinha visto a sua qualidade devidamente reconhecida e que só o fundo de uma baliza conseguiria parar. Pareceu Hugh Glass, com a vingança merecida depois de muito sofrer.

Sérgio faz bem a este FC Porto, que há muito anda necessitado de uma referência, e este FC Porto é o melhor para ele porque lhe dá todas as condições para que venha ao de cima a sua capacidade de liderança e a garra que coloca em cada lance.

 Foto de capa: FC Porto

Pedro Machado
Pedro Machado
Enquanto a França se sagrava campeã do mundo de futebol em casa, o pequeno Pedro já devorava as letras dos jornais desportivos nacionais, começando a nascer dentro dele duas paixões, o futebol e a escrita, que ainda não cessaram de crescer.                                                                                                                                                 O Pedro não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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